— Ser livreira é diferente de vender livros — explica Michele Teixeira, 48 anos, que há quase duas décadas circula Brasil a fora por feiras e espaços literários.
Para ela, a profissão vai além da troca comercial: é sobre conhecer histórias, sentir o que cada obra carrega e conectar pessoas aos livros.
Em meio às bancas da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, Michele faz parte de uma geração de mulheres que transformou o amor pela leitura em ofício e que hoje ocupa um espaço cada vez mais feminino.
Neste ano, a livreira está à frente da banca Erico Verissimo. Dentro do espaço que ao longo do evento se tornou o lar de Michele, ela celebra poder trabalhar com o que ama.
Em pontos opostos da Feira, outras três mulheres compartilham desse mesmo sentimento. De diferentes gerações, Simone, Bruna e Claudia se aproximam pelo ofício e pelo amor aos livros.
Conexões pelas páginas
Simone Bottin Pereira, 61 anos, cresceu com o cheiro das páginas ao nariz e hoje comanda, ao lado do irmão Isatir Bottin Filho, 58 anos, a Livraria Isasul. Para ela, o negócio de família se tornou um espaço de diálogo e pertencimento.
Ao ser questionada sobre o que significa ser livreira, Simone reconhece os desafios da profissão, mas também a satisfação de estar em constante contato com as pessoas. Para ela, o sucesso de seu trabalho é fruto de muito “amor e dedicação”.
— Como mulher, a gente continua procurando o nosso lugar, a nossa posição de respeito, de estar à frente de um negócio e fazer aquilo dar certo. Ser reconhecida é o melhor de tudo — afirma.
Os obstáculos, segundo Simone, são diários e exigem frequente reinvenção:
— É preciso se reinventar, usar criatividade, procurar formas de trazer o leitor para dentro da livraria — explica. — Seja por meio de clubes de leitura, encontros com escritores ou grupos de escrita criativa, tudo ajuda a manter viva essa troca.
Simone destaca ainda a presença cada vez maior das mulheres no mercado livreiro e lança um olhar esperançoso para as novas gerações, que "estão abrindo caminho, fazendo o trabalho bem feito para serem reconhecidas". Para ela, isso é um combustível de motivação, já que o cenário, antes percebido majoritariamente masculino, abriu portas para que o público veja "muitas livreiras à frente dos negócios".
Esse é o caso da Bruna Dali Alves, 36, sócia da Editora BesouroBox, que carrega a mesma herança do pai, mas aprendeu que empreender como mulher exige resistência. Ela divide o peso de comandar um negócio com a irmã Maitê Cena, 41 anos, e conta que ambas, muitas vezes, precisaram reafirmar seu papel de liderança em um mercado que ainda custa a reconhecer o comando feminino.
— Acontece bastante das pessoas acharem que a gente não é a dona, sabe? Tipo: “Ah, deixa eu falar com o dono” ou “Quero falar com o sócio”. Isso ainda é bem comum. Em reuniões, por exemplo, quando estão as meninas e os meninos, dá para perceber o olhar diferente, aquele “olhar por cima”, como se houvesse sempre alguém acima da gente — enfatiza Bruna.
Michele Teixeira relembra que, no início, quando participava de congressos em diversos Estados do país, não era comum ver mulheres em posições semelhantes à sua. Hoje, fica feliz por se enxergar em tantas outras na profissão:
— Eu fico muito feliz por não sermos mais somente cinco. Aos poucos, nos tornamos 10, 15, 20 mulheres e assim por diante. Eu fico realmente muito feliz de saber que é um espaço que a gente está conseguindo ocupar com carinho, amor, atenção e profissionalismo.
Transformando amor em crescimento
Claudia Valsirene da Rosa, 54, por sua vez, viu o amor pelas histórias nascer ainda jovem, quando trabalhava em uma distribuidora. Anos depois, virou proprietária de uma livraria, a Mania de Ler, enfrentando a competitividade do setor.
Ela guarda lembranças de frequentar a biblioteca pública, quando criança, e dos primeiros anos como livreira. Claudia "não se vê fazendo outra coisa", embora acredite que seja um período complicado no comércio literário.
Ao mesmo tempo, segue esperançosa que a nova geração reerga o mercado. Assim como ela, Bruna Dali Alves acredita que o hábito de leitura voltará a ser cada vez mais popular, pois diversos costumes mais antigos e tradicionais estão sendo resgatados pelas novas gerações. Um deles é justamente o livro físico:
— É bacana que a gente tem isso de ter esperança na cultura. E eu acho que o livro dá esse ar e esse suspiro. Uma esperança da nova geração que está vindo, que eu acho que a gente vai resgatar muita coisa bacana.
Confira indicações das livreiras
Michele Teixeira / Banca Érico Veríssimo
- Mulheres Que Correm Com Os Lobos - Clarissa Pinkola Estés (R$ 54,52*)
— Eu indicaria esse, mas para incentivar a pessoa a ler ela precisa saber o que gosta primeiro.
Simone Bottin Pereira / Livraria Isasul
- A Cabeça do Santo - Simone Acioli (R$ 38*)
— Eu li há pouco tempo. É um livro muito bom, um livro leve, gostoso, e ela é ótima escritora.
Bruna Dali Alves / BesouroBox
- Feminismo em comum: Para todas, todes e todos - Marcia Tiburi (R$ 33,53*)
— Ele me abriu para essa visão de luta.
Claudia Valsirene da Rosa / Mania de Ler
- A Hora da Estrela - Clarice Lispector (R$ 24,74*)
— Eu gosto muito da Clarice Lispector, todas as obras são boas. Mas A Hora da Estrela é especial.
*Preço médio dos livros
*Produção: Josyane Cardozo



