
O último dia da 71ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre foi de muito calor, antes da tempestade que caiu na cidade no fim da tarde, mas não afastou os visitantes da Praça da Alfândega. Antes do meio-dia deste domingo (16), os termômetros já marcavam 31°C. No começo da tarde, era possível circular pelos corredores e parar nas barracas sem enfrentar grandes aglomerações.
Entre os livreiros, a percepção, no 16º dia de evento, era de alta nas vendas e de maior presença de público. Já os leitores aproveitaram para garantir os últimos exemplares.
Nas caixas de saldos, os preços dos livros variavam de R$ 10 a R$ 20, na maior parte dos estandes. Também havia ofertas de três livros por R$ 50. Obras clássicas em capa dura ainda podiam ser “garimpadas” para quem tivesse paciência para a procura.
O presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro, Maximiliano Ledur, se mostrou otimista com as vendas, o que foi confirmado em balanço divulgado horas depois: houve um aumento de 16,9% nas vendas em relação a 2024. No total, 245.425 livros foram vendidos durante os 17 dias de evento.
— Falamos de um resultado muito positivo para um setor que segue em reconstrução e fortalecimento. A edição do ano passado já havia sido importante, por ocorrer logo após a enchente e ajudar a reerguer o mercado. Este ano, reforçamos ainda mais esse movimento — analisou.
No último dia, público encara calor acima de 30° C e aproveita os saldos
O casal formado por Flávio Guaragna, 62 anos, e Clarice Marchesan, 59, comprou dois clássicos na primeira banca que visitou na Rua dos Andradas: Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e Madame Bovary, de Gustave Flaubert. O preço no balaio era de R$ 20 o exemplar.
— A gente veio em uma noite de autógrafos, porque meu cunhado autografou um livro. Não tivemos tempo antes. Então, hoje o dia estava bonito e decidimos vir — diz Clarice.
— Normalmente, venho para procurar os saldos mais baratos e as promoções em geral. E sempre no último dia — acrescenta Guaragna.
O visitante Ricardo Todt, 64, caminhava pelos estandes situados na altura da Rua Sete de Setembro, ao lado da mãe Rosvithwa Todt, 97.
— Já viemos antes e inclusive ontem (sábado). A minha mãe chegou a comprar alguns livros para dar de presente para o outro filho dela — comenta Todt.
Para a nonagenária, a leitura é um hábito. Ela diz que incentiva os demais familiares a seguirem pelo mesmo caminho.
— Eu leio bastante e compro livros para os meus filhos e netos lerem. Desde pequenos, eles estão acostumados a ir na Feira do Livro escolher os livros que queriam, e o Papai-Noel trazia — descreve.
O vendedor Daniel Tarouco, 37, e a gerente de comunicação Fernanda Alencastro, 34, aproveitavam para conferir as últimas ofertas nos balaios. O casal recém havia adquirido o livro Os Signos do Sol & da Lua - Quem você é e o que você sente, publicado por Zero Hora.
— A gente sempre vem na Feira, mas no último dia para aproveitar as ofertas. A gente imagina que vai conseguir mais barato nesse dia — resume Fernanda.
— O legal mesmo é vir aqui, interagir com o ambiente e encontrar um tesouro — completa Tarouco.
Por sua vez, o montador de andaimes Francisco de Jesus, 42, estava acompanhado da manicure Marilene Cardoso, 37. O casal escolhia obras em uma caixa de saldos.
— É a minha primeira vez este ano (na Feira do Livro). Vim mais porque é o último dia e não tive como vir antes por causa dos meus horários. O que mais gosto de ler é literatura financeira — revela Jesus.
— Eu gosto de ler sobre saúde e a questão da ansiedade, que é o mal do século. Gosto dos livros do Augusto Cury — completa a companheira.
Livreiros relatam cansaço e gratidão
Na Martins Livreiro Editora – banca que esteve em todas as 71 edições da Feira do Livro –, o expositor Luiz Borges diz que o estande se destaca no evento por oferecer apenas livros relacionados ao Rio Grande do Sul.
— Não só o pessoal daqui, mas o de fora do Estado que quer conhecer a nossa cultura procura a Martins Livreiro. Então, a gente sempre lança de 15 a 20 títulos com autores novos e consagrados — ilustra.
Segundo o livreiro, colocar o preço nos balaios com a palavra “pila” escrita no lugar de real ajuda a chamar atenção. Ele conta que muitos visitantes não conhecem a gíria gaúcha em relação ao dinheiro, e isso faz com que se aproximem da barraca e conversem com os vendedores.
— Tudo isso foi novidade na Feira, que alavancou na venda dos livros de balaio — atesta.
Questionado por Zero Hora sobre a sensação pessoal ao encerrar mais uma Feira do Livro, Borges não esconde o sentimento:
— A sensação é de que quero voltar. No final da Feira vem o pessoal cantando e distribuindo flores. A gente chega a sentir até uma dor quando acaba a Feira.
A expositora Bruna Tessuto atende no balcão dos Autores Independentes. Na visão da livreira, houve um aumento de público em 2025.
— Além do aumento de público na banca, eu tive a ampliação de escritores. Estou com 70 a mais do que no ano passado. A maior oferta de títulos faz crescer o público para nosso estande — explica ela, que também comenta o sentimento de despedida, após duas intensas semanas:
Dá um sentimento de nostalgia, de ficar o dia inteiro aqui e de reencontrar todo mundo na praça. Mas, ao mesmo tempo, é um alívio. Ficamos exaustos e muito cansados.
BRUNA TESSUTO
Livreira
Na Dom Quixote, a livreira Marilei Batistero conta que os livros mais procurados foram Quarto de despejo - Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, e Bruxa Onilda, dos autores Enric Larreula e Roser Capdevila. Ela também percebeu o aumento de visitantes na Praça da Alfândega.
— Este ano teve mais diversidade e aumento de público. E aumentou também a divulgação da Feira. Isso é muito bom para nós expositores, porque muitas vezes o público final acaba não tendo essa percepção das datas da Feira. Em comparação com o ano passado, foi muito bom mesmo — observa.
Marilei também cita a questão do cansaço após tantos dias de pé no estande. No espaço, a oferta é por obras de caráter infantojuvenil.
— Fora o cansaço, a gente sabe que é exaustivo ficar direto aqui e tem os dias quentes. Mas o meu sentimento final é de gratidão — compartilha.


