
A Cabeça do Santo, de Socorro Acioli, transborda brasilidade. A obra faz rir e chorar ao criar pontos de conexão com partes do imaginário popular impossíveis de ignorar: a religiosidade, a crença no sobrenatural e no amor.
Quem nunca ouviu a história de alguém que fez uma simpatia? Que se comprometeu com uma promessa a um ente querido já no fim da vida? Quem nunca rogou por amor secretamente, na intimidade das orações?
Toda semana, um jornalista do Grupo RBS irá compartilhar na seção O que Estou Lendo a sua paixão por livros por meio de dicas do que estão lendo no momento.
Socorro Acioli consegue traduzir muito do que é o Brasil profundo de forma leve, engraçada e até ácida. Aborda a pobreza com franqueza e sem cair em estereótipos ao contar a história de Samuel, que após a morte da mãe submerge em uma jornada de perdão e autoconhecimento.
Ambientada no sertão do Ceará, a narrativa usa uma constelação de símbolos que abrem margem para diferentes interpretações, das mais às menos versadas na cultura nordestina. O deslocamento do personagem, que marca o início da saga, abre o arco do herói e serve de fio condutor para os demais acontecimentos.
Enquadrado como realismo mágico — mas passando longe das minúcias infindáveis de García Márquez —, A Cabeça do Santo é muito mais fiel à nossa cultura, arrisco dizer, do que diversos documentários sobre a identidade nacional.

"A Cabeça do Santo", de Socorro Acioli
- Companhia das Letras, 176 páginas, R$ 69,90 (livro físico) e R$ 29,90 (e-book)




