
A história de Caroline Laner Breure, sul-mato-grossense radicada no Rio Grande do Sul, é a crônica de uma vida transformada por um trauma. Em 2019, enquanto passava férias em Barcelona, na Espanha, a jovem foi atropelada por uma viatura policial em alta velocidade. A batida fez com que ela fosse arremessada, causando fraturas e uma lesão axonal difusa de grau 3, ferimento cerebral gravíssimo.
À época, os médicos projetaram que Caroline tinha apenas 5% de chance de sobreviver aos traumatismos. Caso escapasse da morte, o prognóstico era que ficasse em estado vegetativo permanente. Contudo, seis anos depois do acidente, a ex-estudante de Administração da UFRGS se locomove e se comunica bem — ainda que com algumas limitações.
Essa jornada de superação é narrada em Garota Quebrada (Sextante, 320 páginas, R$ 64,90), livro que Caroline lança em Porto Alegre nesta quarta-feira (8), às 19h, na Livraria da Travessa do Shopping Iguatemi (Av. João Wallig, 1.800). A obra é assinada por ela e pelo best-seller australiano Bradley Trevor Greive, autor de títulos aclamados como Um Dia "Daqueles" e Penguin Bloom.
A parceria com o escritor e os relatos trazidos por familiares da jovem foram cruciais para a construção do livro, pois Caroline perdeu a memória do acidente. Durante os primeiro anos da recuperação, ela também sofreu de anosognosia, transtorno neurológico em que a pessoa não tem consciência de sua própria doença ou condição — mesmo sobre uma cadeira de rodas e sem conseguir falar durante meses, como no caso dela.
Em entrevista a Zero Hora, ela conta o que sentiu quando tomou consciência de que sua vida tinha mudado. Caroline, que cresceu em Caxias do Sul e viveu por mais de 10 anos em Porto Alegre, também desabafa sobre ter sido abandonada por amigos após o acidente e diz o que espera que o livro desperte nas pessoas.
Leia a entrevista com Caroline Laner Breure
Como surgiu a ideia de escrever um livro contando a sua história?
A vontade nasceu alguns meses depois de eu finalmente entender o que tinha acontecido comigo. Nos primeiros dois anos após o acidente, eu ainda não tinha muita noção. Pensava e agia como uma criança. O primeiro filme a que assisti foi Penguin Bloom (Um Milagre Inesperado, no Brasil). Nas semanas seguintes, comecei a pensar sobre como eu também queria contar a minha história, falar sobre o que superei.
Um ano e meio depois do acidente, perguntei à Sam Bloom (fotógrafa australiana que sofreu grave acidente e teve sua jornada de superação retratada no livro Sam Bloom: Heartache & Birdsong) quem tinha editado o livro dela, e me passou o contato de Bradley Trevor Greive. Achando que ele fosse editor, enviei uma mensagem contando minha história e ele respondeu com gentileza, explicando que não editava livros, apenas os escrevia, e me indicou um site de editores.
As perdas físicas e as falhas de memória nunca doeram tanto quanto a ausência das pessoas. A solidão é o tipo de dor que não cicatriza.
CAROLINE LANER BREURE
Coautora de "Garota Quebrada"
Algum tempo depois, no início de 2022, o próprio Bradley me procurou perguntando como estava o livro. Respondi que o havia deixado de lado, sem um fim. Disse que, se ele quisesse, poderia escrever. E ele aceitou. Um autor best-seller, com mais de 30 milhões de exemplares vendidos, decidiu dedicar mais de dois anos da vida dele para contar a minha história.
Confesso que, naquela época, eu queria mostrar ao mundo como tinha superado tudo. Queria ser vista como uma heroína. Hoje, não quero que me vejam como exemplo. Quero que olhem ao redor e percebam o poder que existe em um gesto simples, em ajudar alguém, em estar presente. Às vezes, é isso que salva uma vida.
Reviver e reconstituir memórias difíceis pode ser doloroso. Como foi para você?
A parte mais dolorosa, sem dúvida, foi reviver o fim do meu relacionamento e as amizades que também se foram. Foi como se o acidente tivesse acontecido de novo, mas dentro de mim.
As perdas físicas e as falhas de memória nunca doeram tanto quanto a ausência das pessoas. A solidão é o tipo de dor que não cicatriza. Minha mãe se lembra bem de como eu falava dos meus amigos quando estava em Caxias do Sul, ansiosa para reencontrá-los em Sydney. Eu realmente acreditava que eles estariam lá.
Hoje, ainda que eu tenha lido Garota Quebrada muitas vezes, essa parte continua me rasgando. Cada leitura é uma ferida reaberta. Eu volto àquele sentimento de rejeição e abandono e à depressão que nasceu dali. É a lembrança que mais me marca, porque não veio do corpo, veio do coração.
No livro, você conta que não se lembrava do acidente por um longo período. Como foi receber a notícia do que havia acontecido?
No começo, fiquei surpresa, mas não em estado de choque. Era como se eu estivesse vendo um filme sobre outra pessoa. Aos poucos, comecei a me olhar no espelho e perceber as cicatrizes. Elas estavam ali o tempo todo, mas eu não as via de verdade.
Foi um processo lento, de descoberta e aceitação. Mesmo depois de saber o que havia acontecido, eu ainda me sentia "perfeitinha". Eu não percebia que não caminhava nem me comunicava como antes, achava que estava completamente "bem". Hoje, entendo que era uma forma de proteção, como se meu cérebro ainda tentasse me poupar da realidade.
Que sentimentos surgiram quando entendeu realmente que sua vida tinha mudado?
Demorou um bom tempo para eu entender de fato. Quando essa consciência veio, foi um impacto enorme. Eu sentia que tudo estava fora do lugar: meu relacionamento tinha acabado, meus amigos tinham se afastado, a marca de tênis que eu tinha estava parada, e até conseguir um emprego parecia impossível. Era como estar presa em um limbo.
Foram anos de muita frustração, tristeza e sensação de vazio. Mas, ao mesmo tempo, esse processo me fez refletir profundamente sobre o que realmente importa. Ao vir para o Brasil, as coisas começaram a mudar de forma inesperada. Sinto que aqui posso reconstruir minha vida de um jeito que talvez não fosse possível antes.
Hoje, ainda existe dor, mas também existe esperança. Entendi que a vida pode ser diferente do que planejei, e que isso não significa que ela não possa ser boa.
O que fez diferença foi a minha mãe. Sempre que eu desejava fazer algo, ela me permitia tentar.
CAROLINE LANER BREURE
Coautora de "Garota Quebrada"
Muitas pessoas não conhecem a anosognosia. Como foi viver com essa condição, sem perceber de imediato a extensão da sua lesão?
Eu mesma não fazia ideia do que era anosognosia. Na verdade, quem descobriu foi o Bradley. Ele pesquisou muito sobre lesões cerebrais enquanto escrevíamos o livro e me explicou que o que eu tive era exatamente isso: uma falta de consciência sobre a própria condição, quando o cérebro simplesmente não reconhece suas limitações.
Não foi algo que eu descobri sozinha, tampouco algo que alguém pudesse me explicar na época. Mesmo que tivessem tentado, eu acho que não teria entendido. Nos primeiros anos, realmente acreditava que falava, caminhava e agia como todo mundo.
Durante muito tempo, vivi sem perceber a gravidade do que tinha acontecido comigo. É uma sensação estranha, como se o corpo e o cérebro não falassem a mesma língua. Eu achava que estava "inteira", quando ainda estava tentando me reconstruir.
Quais foram os momentos mais desafiadores da sua recuperação física e emocional?
Curiosamente, eu não percebia os desafios, não tinha consciência. Eu me considerava igual a todo mundo, sem saber que tinha limitações. Por isso, não vivi a recuperação pensando "isso é difícil". Para mim, era apenas a vida acontecendo.
Por exemplo, eu não fazia ideia de que estava em uma cadeira de rodas. Eu não pensava "vou levantar hoje", eu apenas seguia. Meus pais contam, de forma até engraçada, que eu caí inúmeras vezes no apartamento deles. Mas nada disso era dramático para mim. Era só um dia atrás do outro.
O que fez diferença foi a minha mãe. Sempre que eu desejava fazer algo, ela me permitia tentar. Depois do acidente, ela procurou todos os recursos possíveis para me ajudar e nunca me desencorajou. Essa confiança foi o que sustentou a minha recuperação física.
Emocionalmente, eu também me imaginava igual a todo mundo. Quando amigos se afastavam, ficava tentando entender o que tinha acontecido. Não percebia que o afastamento tinha relação com o acidente, com as minhas mudanças ou as minhas limitações. Essa incompreensão talvez tenha sido o meu desafio emocional: ver pessoas irem embora sem entender o porquê.
Olhando para trás, percebo que os desafios estavam lá, mas eu não tinha consciência deles. Isso me permitiu seguir sem sentir o peso de tudo ao mesmo tempo.
Que papel tiveram sua família e os profissionais de saúde nesse processo?
Minha família é pequena: somente minha mãe, meu padrasto, minha tia e minha prima. Foram eles que realmente estiveram comigo, me ajudando de todas as formas possíveis. Eles foram o meu chão quando tudo desmoronou.
Quanto aos profissionais de saúde, é impossível medir o impacto que tiveram. Cada um deles fez algo essencial para que eu chegasse até aqui. Especialmente no período em que estive na Austrália, um ano depois do acidente, quando precisei de toda uma equipe para me colocar de volta aos trilhos. Eram encontros que me faziam sentir um pouco menos sozinha.
Hoje, ainda existe dor, mas também existe esperança. Entendi que a vida pode ser diferente do que planejei, e que isso não significa que ela não possa ser boa.
CAROLINE LANER BREURE
Coautora de "Garota Quebrada"
Quem era Caroline de antes do acidente e quem é a Caroline de hoje?
Quando penso nisso, a verdade é que não vejo tantas diferenças. Perguntei à minha mãe e à minha tia, que me conhecem melhor do que ninguém, e as duas confirmaram: continuo a mesma pessoa.
Segundo minha mãe, sempre fui perfeccionista, ambiciosa e ansiosa para fazer tudo da melhor forma possível, determinada a conquistar o que quero. Continuo amando viajar, talvez porque isso sempre representou liberdade pra mim.
Se há algo que talvez tenha se intensificado é a minha sinceridade. Eu falo o que penso. Percebo que muita gente não está acostumada com esse tipo de verdade e, às vezes, isso me custa amizades. Mas também me mantém fiel a quem eu sou.
Antes do acidente eu já era intensa. Hoje, continuo sendo. A diferença é que agora essa intensidade vem com uma consciência nova de que, mesmo quebrada, eu continuo inteira à minha maneira.
Se 'Garota Quebrada' puder inspirar algo, que seja olhar para o outro com empatia.
CAROLINE LANER BREURE
Coautora de "Garota Quebrada"
O que espera que o público leve da leitura de "Garota Quebrada"?
Quero deixar uma lição simples, mas especial: preste atenção no outro. Não deixe alguém que está passando por algo difícil sozinho ou esquecido, principalmente se você o conhecia antes disso.
Falo isso porque vivi na pele o que é ser deixada de lado, senti o afastamento de pessoas que amava. Há momentos em que nada substitui o poder de uma presença humana, mesmo com tratamento, medicação e acompanhamento.
Por isso, se Garota Quebrada puder inspirar algo, que seja olhar para o outro com empatia. Às vezes, um gesto simples pode mudar completamente o dia ou a vida de alguém.
Você vai lançar o livro em Porto Alegre. Qual é a sua relação com a cidade?
Pensei em fazer o lançamento em Caxias do Sul, onde cresci, ou em Florianópolis, onde moro desde janeiro. Mas escolhi Porto Alegre porque é uma cidade que faz parte da minha história de um jeito muito especial. É um lugar cheio de memórias, de fases que me formaram, de pessoas que marcaram minha trajetória antes de tudo mudar.
Lançar Garota Quebrada em Porto Alegre é como fechar um ciclo e abrir outro. Um reencontro com a Caroline de antes e, ao mesmo tempo, uma celebração da mulher que eu me tornei.
Também será emocionante rever colegas da universidade e do trabalho, olhar nos olhos deles e mostrar que, apesar de tudo, estou viva, inteira e com uma história para compartilhar.





