
A contribuição de Luis Fernando Verissimo para a cultura brasileira é imensurável. O escritor, que morreu neste sábado (30), aos 88 anos, foi responsável por crônicas que se tornaram populares no país inteiro. O autor, porém, além de saudades, ainda deixou diversos personagens inesquecíveis.
Zero Hora, em homenagem ao seu eterno colunista, resgatou algumas das criações mais simbólicas de LFV para serem relembradas e que também mostram um pouco da genialidade do autor gaúcho.
Ed Mort
O personagem foi apresentado por Verissimo no livro Ed Mort e Outras Histórias, lançado em 1979, e voltou a aparecer em Sexo na Cabeça, no ano seguinte, e em Ed Mort: Todas as Histórias, publicado em 2011.
Detetive, o local de trabalho de Ed Mort é um cubículo de Copacabana que mais parece um armário. Ele divide o espaço com 117 baratas e um rato albino chamado Voltaire.
Nos anos 1980, o personagem também foi adaptado para tiras diárias de quadrinhos e ilustrou cinco álbuns com desenhos de Miguel Paiva.
Na televisão, Luiz Fernando Guimarães encarnou Ed Mort em duas ocasiões: em 1993, no especial de final de ano da Globo Ed Mort – Nunca Houve uma Mulher como Gilda, e em 1994, no Programa de Auditório. Também nos anos 1990, o detetive chegou aos palcos com uma montagem protagonizada por Nizo Neto.
Em 1997, o personagem foi parar no cinema, no longa-metragem Ed Mort, com Paulo Betti interpretando o detetive. Uma série do Multishow também foi realizada em 2011, com Fernando Caruso dando vida à icônica criação de Verissimo.
A Velhinha de Taubaté
"A última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo". Assim era descrita a famosa Velhinha de Taubaté, criada por Verissimo durante o governo do general João Baptista Figueiredo, de 1979 a 1985.
A Velhinha de Taubaté era uma alma inocente, que acreditava em tudo que lhe diziam, principalmente se a fonte era Brasília. "Ela acredita em anúncio, acredita em nota de esclarecimento, acredita até nos ministros da área econômica", explicava Verissimo.
Porém, em 25 de agosto de 2005, em tempos de crise política, a velhinha teve o seu falecimento anunciado pelo seu criador, no jornal O Estado de S. Paulo, na crônica intitulada Velhinha de Taubaté (1915-2005).
Ela teria morrido em frente à TV, decepcionada com o quadro político brasileiro, em especial com o seu ídolo, Antonio Palocci. De acordo com o escritor, em seu texto, a Velhinha de Taubaté morreu de causa desconhecida, uma referência à profusão de denúncias contra o governo federal e o PT.
Família Brasil
Um pai de profissão desconhecida, uma a mãe dona de casa, um filho adolescente, uma filha e seu namorado (o Boca, único personagem com nome) e um neto curioso, sempre com questionamentos desconcertantes. Estes são os personagens de Família Brasil, tirinhas que retratam uma classe média que, talvez, já não exista mais no país.
Criadas por Verissimo nos anos 1980, as tiras viraram um livro, em 2005, As Aventuras da Família Brasil. Em 2009, a série da RBS TV, As Aventuras da Família Brasil, levou às telinhas os instantâneos de humor que Verissimo resumia em poucas frases espirituosas. A atração teve duas temporadas.
Em 2017, o autor anunciou que a Família Brasil sairia de cena, em um cenário semelhante ao que "matou" a Velhinha de Taubaté, em 2005: em meio a uma crise política acentuada. A criação de Verissimo ganhou o Troféu HQ Mix de melhor tira nacional em 1996.
O Analista de Bagé
Apresentado em 1981, em crônicas, e depois consagrado nos quadrinhos na parceria de Luis Fernando Verissimo com o desenhista Edgar Vasques, o psicanalista fronteiriço e "freudiano uma barbaridade" recebe seus pacientes de bombacha e pé no chão, sendo "mais ortodoxo que pomada Minancora" ou que as "pastilhas Valda".
Aos casos não resolvidos no divã forrado com pelego, resta a cura pelo terapêutico "joelhaço", baseado na teoria de que a dor maior faz o vivente esquecer as frescuras dos males da alma. Os quadrinhos foram publicados em álbuns pela L&PM e, também, na revista Playboy.
O personagem contava com uma assistente, a Lindaura, que o auxiliava-o na abordagem de casos mais difíceis. De acordo com as suas histórias, o analista teve uma infância normal, onde "o que não aprendeu no galpão, aprendeu atrás do galpão".
Na praça Júlio de Castilhos, em Bagé, existe um conjunto de monumentos que retrata o analista, a sua secretária e o próprio autor. As estátuas foram criadas pelo artista plástico Sérgio Coirolo.

As Cobras
Criada em 1975, durante a ditadura militar, a série de humor estreou em Zero Hora. As duas cobras protagonistas satirizavam a situação social e política pela qual o Brasil passava, mas sem deixar de lado as alfinetadas em técnicos de futebol, religião, entre outros assuntos.
As personagens principais foram "mortas" pelo autor em 1997 — e ressuscitadas brevemente em 2006. O autor decidiu aposentar os répteis sob a alegação de que "não ficava bem" para um sexagenário desenhar cobrinhas.
De acordo com Verissimo, as cobras eram "o produto da combinação do meu gosto por quadrinhos com minhas limitações como desenhista. Cobra é muito fácil de fazer, só tem pescoço". Segundo o cronista, a dupla surgiu em um "tempo da censura e, muitas vezes, podia-se dizer com desenhos o que não dava para se dizer com textos".
Os personagens ganharam, em 2010, uma coletânea em livro chamada As Cobras - Antologia Definitiva, com 198 páginas.
Dora Avante
Por meio de cartas enviadas ao próprio Verissimo, sempre escritas com tinta lilás em papel turquesa, cheirando a "Mange Moi", o autor utilizava a personagem para criticar as socialites, com suas ideias fúteis, a instabilidade de seus relacionamentos amorosos e a obsessão pela eterna juventude, manifestada nas operações plásticas e na insistência em não revelar a própria idade.
Nas crônicas, Dora é apresentada como "ravissante", adjetivo francês característico das colunas sociais (em português, esfuziante). A personagem nunca revela a sua idade, mas dava pistas, nos textos, de sua longevidade. E, por fazer coisas "não apropriadas para sua idade", ela passava por vários vexames.
Dora era a líder das "Socialaites Socialistas", grupo que lutava pela implantação no Brasil do socialismo soviético no seu estágio mais avançado, a volta ao czarismo e, por isso, participou de vários movimentos da política nacional. Além disso, ela apoiou a eleição do Collor, mas foi dela a iniciativa das caras-pintadas contra o Collor, embora sua ideia original fosse pintar todo o seu corpo. Nu.


