
O primeiro dia da 14ª FestiPoa Literária reúne matriarcas e filhos. A partir das 20h desta terça-feira (13), o cantor Criolo e o escritor Jeferson Tenório estarão com suas respectivas mães — Maria Vilani e Sandra Inês de Souza Tenório — no Salão de Atos da UFRGS (Av. Paulo Gama, 110) em Porto Alegre. A entrada é franca.
Na mesa intitulada "De mãe para filho: Raízes que florescem", a conversa deve girar em torno da ideia de ancestralidade, mais especificamente da sabedoria ancestral que as matriarcas carregam.
A mediação será da cantora, poeta e pesquisadora Luna Vitrolira, que é uma das curadora desta edição da FestiPoa, ao lado da poeta Mariam Pessah.
Em entrevista a Zero Hora, os dois filhos falaram sobre a mesa e outros temas.
Leia a entrevista com Criolo e Jeferson Tenório
Como é participar da FestiPoa Literária?
Criolo - Estou muito emocionado. A minha mãe vem respirando poesia e luta pela palavra desde os anos 1980 e 90. Essa construção dela de poesia e de vida é uma inspiração muito grande, pois minha mãe já passou por muita coisa. Vem de uma periferia de Fortaleza (CE), passou por uma periferia do Rio de Janeiro e, depois, uma periferia de São Paulo, isso nos anos 1980.
Falar de poesia e da importância de alimentar a alma dentro daquele barraco, saindo de um regime que saímos, já é uma uma resistência de amor, por amor e para o amor à palavra.
Poder participar disso é realmente emocionante, é uma coisa que a gente nunca imaginou que fosse estar vivendo. Ter esse tipo de reconhecimento é uma coisa absurda. A gente agradece demais.
O encontro com o amigo Jeferson Tenório e sua mãe vai ser daqueles momentos memoráveis.
Ela (mãe de Criolo) está nervosa e ansiosa, porque é uma responsabilidade muito grande participar de um festival em outra cidade. Ao mesmo tempo, estamos com o coração aberto para ouvir, aprender, trocar um pouquinho
CRIOLO
Tenório - O festival faz parte da minha trajetória já há muitos anos, assim como faz parte também do calendário cultural de Porto Alegre.
Comecei a frequentar como espectador e depois fui convidado para participar da curadoria em algumas edições. Receber esse convite me deixou muito feliz e honrado, sendo homenageado junto com a Valéria (Barcellos), que é uma grande artista.
O que as mães de vocês acharam da ideia?
Criolo - Minha mãe está muito agradecida. Ela sempre fez e faz por amor, então nunca esperou nada. Ama a arte. Se vê o filho escrevendo alguma coisa, fica empolgada e fala: "Vai, escreve, continua".
Vindo de onde a gente vem, tudo que a gente passou, isso já é muito. É o exemplo. O amor dela pela palavra e pelas pessoas. A minha mãe ama as pessoas. Não desiste delas. E isso é incrível, né? Ainda mais nesse mundo onde a gente pode a qualquer momento perder a vida por uma coisa material.
Ela está nervosa e ansiosa, porque é uma responsabilidade muito grande participar de um festival em outra cidade, de um lugar que é dedicado à palavra. Ao mesmo tempo, estamos com o coração aberto para ouvir, aprender, trocar um pouquinho.
Tenório - Ela ficou alguns dias sem dormir. Minha mãe não é muito de falar em público, é uma pessoa mais reservada. Mas é alguém com muita sabedoria, considero ela uma filósofa para mim. E ela aceitou. Está adorando ter esse momento de poder partilhar as histórias com a gente.
A ideia de fazer essa conversa das mães partiu da organização. É uma mesa em que elas vão falar, e nós vamos ficar mais como mediadores. Acho que é uma conversa que vai girar muito em torno da ideia de ancestralidade, da importância dos mais velhos na nossa vida, dessa sabedoria ancestral que elas carregam.
A minha vida e a do Criolo se cruzam nesse sentido, de ter mães que nos incentivaram nos momentos mais difíceis. Perseguimos os nossos sonhos de ir atrás da arte, do conhecimento, da literatura. Não é muito comum ter uma mesa com as mães e os artistas juntos. Acho que eles foram muito felizes nessa proposta.
Ela ficou alguns dias sem dormir. Minha mãe não é muito de falar em público, é uma pessoa mais reservada. Mas é alguém com muita sabedoria. Está adorando ter esse momento de poder partilhar as histórias com a gente
JEFERSON TENÓRIO
Vocês acompanham o trabalho um do outro?
Criolo - A minha relação com esse grande escritor é de fã. Leio os livros dele e tive a oportunidade de ter um bate-papo com Tenório na época de lançamento de um dos seus livros. E ele é MC, né? Vem do rap. Não faltou assunto. Somos contemporâneos, temos mais ou menos a mesma idade, aí você imagina como é que não foi a conversa.
Tenório - Sou um profundo admirador do Criolo. É uma referência para mim, musical e intelectual, mas como pessoa também. Já nos encontramos outras vezes.
O livro de Tenório O Avesso da Pele foi censurado em escolas no ano passado. E Criolo vivenciou, indiretamente, uma experiência de censura em 2021: um professor de artes de Criciúma (SC) foi demitido após exibir o vídeo da música Etérea. Como é ser artistas que precisam enfrentar esses momentos de hostilidade?
Criolo - Segue fazendo arte. Segue sendo a gente. Acho que a resposta mais certeira é essa. Quando a gente é a gente, a gente vira arte também. Agora, como fazem as pessoas que são perseguidas e perdem seus empregos? A arte segue, e as pessoas seguem desempregadas também, né? Como lidar com isso? É uma pergunta que eu devolvo à sociedade.
Tenório - Depois que você vira uma pessoa pública, e foi o que aconteceu comigo nos últimos anos, essa aparição suscita esses sentimentos de pessoas que são contrárias ao que eu escrevo. Aconteceu em Porto Alegre também: escrevi um texto sobre Paulo Freire e fui ameaçado de morte.
Depois, em Salvador (BA), em 2022, houve uma ameaça também, que acabou tendo até ocorrência policial. Ainda há registros de políticos e eventualmente diretores de escolas que se recusam a trabalhar com O Avesso da Pele.
A minha relação com esse grande escritor (Tenório) é de fã. Leio os livros dele e tive a oportunidade de ter um bate-papo com Tenório na época de lançamento de um dos seus livros
CRIOLO
É também um espelho do nosso tempo, desse avanço da extrema-direita no Brasil e no mundo. Não é novo, mas agora há uma espetacularização, um evento com um efeito talvez mais profundo, de causar medo em quem lida com com os livros diariamente. No caso, os professores.
Quando um evento como O Avesso da Pele causa o que causou, um professor de escola particular, por exemplo, pode ficar receoso de levar esse livro para sala de aula, por receio de suscitar discussões, e talvez ele não tenha condições. Ele pode estar numa posição muito frágil para conseguir levar adiante o projeto de educação.
Vejo que é bastante perigoso o caminho que a gente está seguindo. O Avesso da Pele chegou a muito mais gente depois da censura, as vendas aumentaram significativamente. Por outro lado, há um medo instaurado nesse lugar mais frágil, que é a prática dos professores.
Sou um profundo admirador do Criolo. É uma referência para mim, musical e intelectual, mas como pessoa também. Já nos encontramos outras vezes
JEFERSON TENÓRIO
Quem tenta contar outros pontos de vista sobre a história do Brasil vira alvo?
Criolo - Sempre, de um jeito ou de outro: seja pagando com a vida, seja na sutileza mórbida, fria e sombria de quem carrega no coração o crime do preconceito.
Tenório - O Brasil sempre foi racista, preconceituoso, machista, violento. Nossa história enquanto nação foi fundada pela violência e pela colonização.
O que estamos sentindo hoje é uma exposição, tornando isso muito explícito e sem ter medo de retaliação. Sem ter medo da vergonha de ser racista. Não há mais vergonha de ser ultraconservador, essa barreira já foi quebrada.
'O Avesso da Pele' chegou a muito mais gente depois da censura, as vendas aumentaram significativamente. Por outro lado, há um medo instaurado nesse lugar mais frágil, que é a prática dos professores
JEFERSON TENÓRIO
O que a gente vê hoje é quase uma validação para as pessoas serem racistas, saindo do armário justamente com essa essa ascensão da extrema-direita, com a eleição do governo Bolsonaro, com a eleição do governo Trump, com a eleição do governo Milei, ou seja, pessoas que têm uma bandeira ultraconservadora de direita e que validam justamente esse tipo de posicionamento.
O que me deixa esperançoso são movimentos como o que aconteceu com O Avesso da Pele, quando entidades, ministros, professores, alunos e artistas defenderam não só o livro, mas o direito dos alunos de terem acesso à literatura. Se por um lado temos esse avanço da extrema-direita, por outro há uma resistência.
É uma edição (da FestiPoa) que nasce extremamente histórica. Histórica por sua coragem. Acho que a sociedade não está preparada para a FestiPoa, mas a FestiPoa está preparada para a sociedade.
CRIOLO
A 14ª edição do FestiPoa aborda autorias negras, mundos indígenas, dissidências sexuais e questões ambientais, entre outros temas. Um festival assim ajuda a pensar novas construções de cenários da sociedade?
Criolo - A FestiPoa tem a coragem de trazer dignidade em um evento tão gigante, tão plural. Tem a coragem de falar sobre essa urgência, sobre essa emergência do quanto nós estamos atrasados. A gente celebra essa coragem e chora por tantos outros aspectos. Porque se tem que ter é porque tá faltando, né? A gente quer celebrar a resolução de tudo isso também.
É uma edição que nasce extremamente histórica. Gostaria de deixar isso registrado. Histórica por sua coragem. Acho que a sociedade não está preparada para a FestiPoa, mas a FestiPoa está preparada para a sociedade.
Tenório - É importante dizer que o festival sempre teve esse caráter, desde o seu início. Foi entendendo as mudanças do seu tempo, acolhendo e compreendendo a importância dessas vozes.
Se você olhar as edições de seis ou sete anos atrás, vai encontrar uma programação diversa que acolhe essas vozes e dá importância para elas. E hoje talvez a gente tenha uma programação que está dialogando muito mais do que outros festivais, que é um modelo a ser seguido: de entendermos a emergência e a urgência de trazer outras narrativas para o nosso tempo.



