
Um dos mais renomados nomes da literatura francesa contemporânea, Alain Mabanckou integrou, nesta quarta-feira (4), a programação do Fronteiras do Pensamento. De forma online, o franco-congolês apresentou sua conferência baseando-se essencialmente em sua obra O Soluço do Homem Negro, e, durante as discussões, opinou sobre a democracia racial no Brasil e a busca da identidade negra no país.
Em conversa mediada pelo jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, o escritor apontou que, enquanto morava no Congo, havia uma ideia favorável em relação ao Brasil, onde seria possível para os congoleses encontrar seus irmãos que partiram. Contudo, explica, acabou descobrindo que a realidade não é tão simples.
— Atrás do "rei Pelé" a gente não sabia que a sociedade tinha uma composição mais complexa. Mas, ao mesmo tempo o Brasil também nos lembrava da nossa cultura africana pela música, pela maneira de pensar. (...) Quando estava em Paraty… é uma bela cidade, mas por trás dela se escondia talvez uma certa situação delicada dos negros que não era mencionada — disse.
O autor afirmou que qualquer espaço geográfico onde se encontra negros, eles estão sempre em uma situação de dominação, hipocrisia ou cegueira política. Em um primeiro momento, o negro é acolhido sob o discurso que a cor não importa, mas na hora de administrar a política, percebe-se que ele é resultado da escravidão que teve no país.
— O Brasil não mudou minha definição do problema negro no Brasil. Ele existe porque mesmo, quando a gente faz a promoção do país em geral, se faz mais a promoção daquilo que é mais branco e menos preto. Mas eu penso que a nova geração de brasileiros está mudando a situação, por conta da literatura, da pintura, dos encontros, e também por intermédio da busca de sua identidade. O que falta no Brasil, o que o Brasil deveria fazer, é permitir aos seus negros poder compreender sua história. Que a história de todos esses negros seja uma história obrigatória na escola, que o brasileiro que é mais branco não fique espantado que seu irmão e sua irmã é negro — afirmou.
Questionado sobre o que falta para a identidade negra, o autor foi categórico: tal definição não existe, uma vez que há diversidade entre esses povos. E, na mesma linha, afirmou que eles não podem esquecer de estudarem todas as culturas africanas. Quanto aos brancos, lembrou que eles não aprenderam sobre civilizações africanas, fazendo com que não compreendessem de onde vem os negros e como concebem o mundo, criando a visão de que seriam inferiores.
Que a história de todos esses negros seja uma história obrigatória na escola, que o brasileiro que é mais branco não fique espantado que seu irmão e sua irmã é negro
ALAIN MABANCKOU
— Nós devemos abrir a educação a esses povos, porque nós sofremos muito da falta de acesso à cultura, nós devemos ler nossos autores, ler os autores africanos, brasileiros, negros, brancos, como os brancos falam da gente e como nós devemos responder à isso pelos textos. Devemos fazer um inventário aproximado daquilo que o Ocidente disse do mundo negro e corrigir aos poucos as coisas pela criação artística, literária filosófica e mostrar que o negro não é o último da classe e se não há um negro na mesa da discussão da humanidade então a discussão nunca será feita, porque somos todos uma cadeia e quando você tira um elo dessa cadeia ela se rompe — disse.
O Soluço do Homem Negro e o existencialismo
Durante sua conferência, o escritor explicou diversos pontos de sua obra O Soluço do Homem Negro, a qual teve tamanha repercussão que seu discurso foi, segundo ele, deturpado e citado fora de contexto. O livro, explicou, é estritamente pessoal, baseado em sua experiência vivendo em três países diferentes: o Congo, os Estados Unidos e a França.
— Eu defino o termo “o suspiro do homem negro” como a tendência que leva certos africanos a explicar as desgraças do continente negro apenas através do prisma do encontro com a Europa, alimentando sem parar o ódio em relação ao Ocidente. Como se a vingança pudesse devolver aos africanos o pretenso orgulho que a Europa teria violado. Não se trata de negar a responsabilidade da Europa, trata-se de lembrar que uma autocrítica pode ter seu lugar. E como nós africanos podemos estar, ser de perto ou de longe atores da nossa própria perdição se nós nos obstinarmos a perceber o outro apenas como o único bode expiatório, a razão de nossas desgraças — disse.
Considerado um dos pontos mais polêmicos de sua obra, Mabanckou também aponta para a responsabilidade dos negros no contexto da escravidão. De acordo com ele, o assunto ainda é tabu, e todos aqueles que se lembram desse fato são acusados de traidores.
— Seria inexato afirmar que o homem branco capturava sozinho o negro para reduzi-lo a condição de escravo. (...) Ora, a participação daqueles que nós chamamos de traficantes negros não é uma invenção para consolar a Europa e aplacar o suspiro do homem branco. Não se trata de reabilitar o Ocidente e dizer que todos os africanos eram traficantes. Não, isso seria absolutamente falso. Mas quando a gente retraça a história é útil não negligenciar alguns fatos —explicou.
Durante a conversa, o autor apresenta o conceito de existencialismo negro, uma reflexão sobre a condição do africano. Segundo ele, é uma corrente filosófica e literária que define o ser humano pelas suas ações longe de doutrinas, ideologias e morais que poderiam ser impostas à sociedade.
Eu não devo viver com um complexo de inferioridade e dar a homens brancos mais do que eles já têm
ALAIN MABANCKOU
— Alguém me disse que era preciso cultivar a consciência negra. Sim, se ela estabelece as referências de uma construção daquilo que eu qualifico como existencialismo negro. Esse existencialismo consiste em se definir longe das definições nas quais nós ficamos isolados e das atitudes que os outros esperam da gente — defendeu.
De acordo com Mabanckou, os negros caíram na armadilha que é alvo de crítica do martiniquense Frantz Fanon, o qual afirmava que o negro quer ser como um branco.
— O existencialismo negro que eu convoco e defini aqui, ele se empenha em lutar contra essa constatação. Assim como o existencialismo negro nega aquilo que querem nos apresentar como a superioridade do homem branco. Eu não devo viver com um complexo de inferioridade e dar a homens brancos mais do que eles já têm — disse.
Sobre Mabanckou
Alain Mabanckou é autor de diversas obras, como As Cegonhas são Imortais, Copo Quebrado e Memórias de Porco Espinho, pelo qual recebeu o Prêmio Renaudot. Em seus trabalhos, o escritor propõe reflexões sobre a identidade e a história do povo africano, mantendo o ritmo das línguas orais ancestrais, unindo tradição, fantasia e crítica social na construção de histórias.
Em 2006, ele foi vencedor do prêmio Renaudot de literatura francesa e, em 2012, venceu o Grand Prix da Literatura e o Prêmio de Literatura da África Subsaariana. Foi listado em 2015 entre os finalistas do Prêmio Man Booker, com Petit Piment, ainda inédito no Brasil.
Fronteiras do Pensamento
O evento deste ano, que tem o tema Reinvenção do Humano, terá ainda como conferencistas Andrew Solomon, Fritjof Capra e Isabela Figueiredo. Além de Mabanckou, também já passaram pela edição Timothy Snyder, Mia Couto e Jonathan Haidt.
O Fronteiras do Pensamento é apresentado por Braskem, com patrocínio Unimed Porto Alegre, Hospital Moinhos de Vento e Gerdau, empresa parceira Unicred RS, universidade parceira UFRGS, apoio educacional Colégio JPSul e promoção Grupo RBS.
Mais informações sobre o evento podem ser obtidas pela central de relacionamento no telefone 4020-2050 ou pelo site do Fronteiras.
Veja as datas das próximas conferências:
- 11 de novembro: Andrew Solomon
- 18 de novembro: Fritjof Capra
- 09 de dezembro: Isabela Figueiredo