
Poucas coisas apavoram mais os pais de crianças pequenas do que a perspectiva de ver aquela criaturinha adorável, que nunca refuga um colinho, sendo lentamente substituída por um pirralho difícil de agradar e com marcada preferência por territórios livres de adultos e com boa conexão à internet. A má notícia: esse dia chega mais rápido do que os pais novatos imaginam. A boa notícia: para quem souber aproveitar, esses anos aparentemente conflagrados podem ser de muito aprendizado para ambos os lados.
Com o livro Adolescência em Cartaz: Filmes e Psicanálise para Entendê-la, os psicanalistas Diana e Mário Corso, pais de duas jovens adultas, dão uma mãozinha para quem está passando – ou vai passar em breve – pela experiência de conviver com adolescentes. Autores dos livros Fadas no Divã (2006), sobre contos de fadas, e Psicanálise na Terra do Nunca (2011), sobre fábulas contemporâneas, Diana e Mário exploram agora outra vertente da cultura pop em busca de elementos que, a partir da psicanálise, iluminem o comportamento de jovens e adultos da nossa época.
O foco aqui são filmes, de diferentes épocas, que colocaram em evidência a dor e a delícia de não ser mais criança e ainda não ter a responsabilidade dos adultos – de clássicos como Juventude Transviada (1955), Laranja Mecânica (1971) e Carrie, a Estranha (1976) à série 13 Reasons Why, que estreou em março no catálogo da Netflix. Estruturado como um curso, o livro aproveita temas presentes nessas histórias para discutir as principais dúvidas dos pais com relação à criação dos filhos nesta etapa. Uso de drogas, necessidade de autoafirmação, iniciação sexual, distúrbios alimentares, isolamento social, baixa autoestima e uso exagerado da tecnologia, entre outros problemas que costumam afligir os adultos, estão entre os tópicos abordados, sempre com uma linguagem clara e envolvente, acessível a leigos em psicanálise. De brinde, no último capítulo, um ensaio extra aborda redes sociais, games e pornografia na internet.
Os pais que buscarem no livro um manual para operar adolescentes talvez se surpreendam ao refletir mais sobre a própria adolescência do que sobre a dos filhos – e não será por acaso. Um dos pontos defendidos pelos Corso é que o primeiro passo para entender um adolescente é aceitar a própria adolescência.
– A adolescência marca tanto quanto os primeiros passos da vida. Só que nesta segunda rodada os ideais não vêm de fora, da família: somos nós mesmos que nos cobramos. Precisamos lidar com as críticas que nosso adolescente interior faz ao adulto que nos tornamos – explica Mário Corso.
Uma dica para pais confusos?
– Meu conselho seria: não imite seu filho. Não confunda as gerações, fique na sua. Os filhos têm seu tempo, já tivemos o nosso. Tente não usurpar-lhes o protagonismo – sugere Diana.
