
Embora o detetive solitário seja um clichê do romance policial, muitas vezes a melhor saída para inventar uma narrativa de crime é uma dupla, como a formada pelos dinamarqueses Anders Rønnow e Jacob Weinreich, autores de livros escritos em conjunto e assinados com o pseudônimo de A.J. Kazinski. Em uma mesa mediada pela jornalista Cláudia Laitano, realizada na tarde desta quarta-feira no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo como parte da programação da Feira do Livro, ambos comentaram sua parceria, seus processos de criação e o fato de fazerem parte de uma celebrada tradição de narrativas policiais produzidas pelos países escandinavos.
Com o nome de Kazinski, Rønnow e Weinreich já publicaram O Último Homem Bom (2010), O Sono e a Morte (2012) e A Santa Aliança (2013), três romances policiais já editados no Brasil pela Tordesilhas. Um quarto livro Forfølgerne (2014), ainda não foi lançado no Brasil. Ambos também mantêm carreiras como roteiristas de cinema e já publicaram livros solo.
Policiais escritos em dupla são tradição do gênero. Os franceses Pierre Boileau e Thomas Narcejac escreviam romances trocando cartas, já que moravam em cidades diferentes. Alguns de seus livros inspiraram clássicos do cinema, como Um Corpo que Cai (1958), de Alfred Hitchcock, e As Diabólicas, de Henri-Georges Clouzot. Mesmo a Escandinávia reúne exemplos como o casal sueco Maj Sjöwall e Per Wahlöö, que produziram 10 romances entre os anos 1960 e 1970. No caso de Kazinski, contou Weinreich, o pseudônimo conjunto surgiu como uma forma de pacificar os problemas suas personalidades muito exigentes.
– Costumo fazer críticas muito duras. Então consultamos um terapeuta, que nos orientou a criar um personagem, uma terceira pessoa, que falasse por nós, para não personalizar as críticas. Então criamos a imagem de um velho escritor, o senhor Kazinski, que detesta tudo o que foi escrito depois do século 19. Quando criticamos um ao outro, podemos dizer “Não sou eu, é uma mensagem do Kazinski” – contou Weinreich.
Embora seja conhecido pela estrutura considerada formulaica, o policial, para Rønnow, é uma oportunidade para dizer algo sobre a forma como veem a vida em nível local.
– Não queremos falar sobre coisas que não nos dizem respeito, queremos falar de aspectos locais, como é viver em uma pequena vila norueguesa, com cinco minutos de luz por ano, em agosto.
Ambos também falaram sobre como veem atualmente a popularidade de uma corrente que muitos admiradores do gênero chamam de “Noir nórdico”, histórias policiais ambientadas nos diferentes países na península, e que têm em nomes como os suecos Henning Mankel e Stieg Larsson e o norueguês Jo Nesbø seus expoentes. De acordo com Weinreich, a obsessão de autores escandinavos com histórias crimes pode ser uma resposta à conhecida estabilidade social nórdica.
– É engraçado que haja algo como um “noir nórdico”, pois a Escandinávia é uma região muito pacífica, quase tediosa, com baixíssimas taxas de criminalidade. É um lugar muito seguro, mas onde nunca acontece nada. Então acho que tivemos que ficar bons em contar histórias para nos entretermos e não morrermos de tédio no estado de bem-estar social – brincou.

