
Por Adriano Moraes Migliavacca
Tradutor, mestre e doutorando em Literatura pela UFRGS
Em seu livro de memórias de infância Aké: The Years of Childhood ("Aké: Os Anos de Infância"), o escritor nigeriano Wole Soyinka narra como, após escapar quase ileso de um ataque de abelhas, escutou de um parente não o habitual "God moves in mysterious ways" ("Deus se move de maneiras misteriosas"), comum em seu lar cristão, mas um mais curto e contundente "Ogun protects his own" ("Ogum protege os seus"). Não era a primeira vez que ouvia o nome do orixá do ferro. Reagiu conforme o que lhe fora ensinado: "Ogum é o diabo dos pagãos que mata pessoas e luta com todos". Anos depois, o já escritor Wole Soyinka se aproximaria da divindade que o assustara em sua infância e a tornaria patrono e guia de sua obra.
Soyinka, primeiro africano a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1986, é autor de uma extensa obra que inclui peças, poemas, ensaios, livros de memórias e romances. Além de sua prolífica atividade literária, tem se notabilizado como um incansável defensor dos direitos humanos. Participará da Feira do Livro de Porto Alegre neste domingo, ministrando uma palestra. No sábado, a Escola de Poesia fará um sarau em sua homenagem, que incluirá a exibição do documentário Wole Soyinka – A Forja de Ogum, enfatizando a importância desse orixá na sua obra e na sua vida.
De fato, Ogum e sua mitologia formam o eixo ao redor do qual a obra de Soyinka se tece. Ogum, para ele, encarna a união dos opostos, a ambiguidade presente no fato de que os impulsos criativos e os destrutivos emanam da mesma fonte. Ogum é o orixá do ferro e da guerra, o construtor e o destrutor, o protetor e o algoz. Soyinka estende sua jurisdição para abarcar as artes, marcando a ligação do orixá com a criatividade. Ele também transpõe limites, atravessa barreiras e se aventura no desconhecido.
Em uma das primeiras obras de Soyinka, vemos Ogum como personagem: a peça A Dance of the Forests ("Uma Dança das Florestas"), na qual o orixá do ferro surge como amigo da face artística da humanidade. É também em uma obra do início da carreira de Soyinka que Ogum é figura central – o poema narrativo Idanre, baseado nos mitos de Ogum. Nesse texto, a paisagem se transfigura e toma as formas da divindade: um poste de luz se torna o braço de Ogum, um sulco sobre a terra, sua pegada. O natural e o cultural se fundem, e Ogum é o intermediário, como nos versos: "Ergueu-se sem palavras, buscou conhecimento nas colinas/ Ogum, o solitário, viu tudo, as secretas/ veias da matéria, os veios circulantes". É nesse poema também que Soyinka representa mais amplamente a ambivalência de Ogum: seu ferro mata homens em batalha, mas possibilita a colheita.
O lugar de intermediário é frequentemente atribuído a Ogum. Daí a importância que Soyinka lhe confere: as noções de transição e de mediação são centrais em sua obra. Isso se evidencia na peça The Road ("A Estrada"), que se passa em uma oficina mecânica à beira de uma estrada onde ocorrem múltiplos acidentes. Como orixá da estrada, Ogum se faz presente, não como personagem, mas na boca dos personagens, que com frequência interpretam certos acontecimentos por meio da presença do orixá. Aqui, é o ferro de Ogum que concretiza a passagem entre a vida e a morte.
Mas, acima de tudo, Ogum é o arquétipo de certos personagens de Soyinka: aquele que se aventura no desconhecido em prol da coletividade. Nesse aspecto, destaca-se Elesin Oba, o personagem central da tragédia Death and the King's Horseman ("A Morte e o Cavaleiro do Rei"). Como chefe da cavalaria real no reino iorubá de Oyo, Elesin Oba deve morrer assim que o rei a quem servia morre para conduzir o soberano em sua viagem até o mundo dos mortos. Tal como Ogum, Elesin Oba transpõe limites; sua ação individual abre o caminho para os outros.
Intimamente ligado ao arquétipo de mediador está o arquétipo do revolucionário, também atribuído a Ogum. Nesse quesito, é notável o poema narrativo Ogun Abibiman, onde a divindade iorubá da forja se alia a Shaka, lendário rei dos zulus, para expulsar os invasores das terras africanas. E é em grande parte nessa qualidade que Ogum tem inspirado o próprio Soyinka em sua atividade política combativa ao longo de sua carreira. No entanto, não se deve estabelecer uma divisão drástica entre a atividade política e a artística de Wole Soyinka, como se fossem dois campos totalmente distintos. Não o são. Sua pesquisa estética e sua busca por justiça nascem de uma mesma fonte, de uma mesma vontade. E essa vontade encontra sua origem no próprio orixá da criatividade e da destruição, do ferro e das artes. Afinal é o próprio Soyinka quem fala que "a vontade iorubá foi martelada na forja de Ogum".
SERVIÇO
Incluída na programação da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre, a palestra de Wole Soyinka (com tradução simultânea) será às 10h30min de domingo, no Theatro São Pedro. No sábado, além do encontro com leituras, debate e exibição de um documentário (às 17h, na Tenda de Pasárgada), haverá uma oficina sobre o autor, ministrada por Adriano Moraes Migliavacca (a partir das 15h30min, no Santander Cultural).



