
Para a atriz Malu Galli, que brilhou como a tia Celina no remake de Vale Tudo, a discussão sobre a emancipação feminina passa pelo bolso.
— Sem autonomia financeira, não há liberdade possível (para a mulher) — diz a artista, que traz a Porto Alegre neste final de semana o espetáculo Mulher em Fuga.
A montagem, baseada na obra autobiográfica do fenômeno francês Édouard Louis, cumpre temporada desta sexta (10) a domingo (12) no Teatro Simões Lopes Neto do Multipalco (veja detalhes sobre ingressos ao final).
Com roteiro assinado por Pedro Kosovski e direção de Inez Viana, a montagem é uma adaptação dos livros Lutas e Metamorfoses de uma Mulher (2021) e Monique se Liberta (2024). Malu resume o enredo:
— A história faz uma reflexão muito política e sociológica, fala sobre as engrenagens de poder, mas ao mesmo tempo é uma história de mãe e filho, de uma mulher que está tentando retomar essa identidade.
Ciclo de violência e dependência financeira
Um dos fatores que permitem essa busca pela independência é a ascensão social do autor, por meio da escrita. Ele, que também é personagem da peça, vivido por Tiago Martelli, ajuda a mãe a sair do ciclo de violência doméstica, como explica a atriz:
— A forma mais eficaz de tirar a liberdade de uma mulher é tirar a liberdade financeira dela: colocá-la em casa, sem profissão, sem maneiras de se sustentar, cheia de filhos e sem diploma. Elas ficam presas a essa situação e a esses homens que sustentam elas, que se sentem donos delas.
Reflexões profundas, mas acessíveis

Nos livros, Louis relata as fugas de sua mãe, Monique, interpretada por Malu. No primeiro, ele retoma suas memórias de infância para contar a violência que ela sofria dentro de casa, tanto do marido quanto de seus filhos. O segundo livro começa exatamente onde o primeiro acaba: depois de terminar o longo casamento abusivo com o pai de Louis, Monique pede ajuda ao filho para sair de um novo relacionamento violento.
O escritor é famoso por seus livros do gênero autoficção — que mistura elementos biográficos e ficcionais — sobre a sua infância pobre, a ascensão social, a homossexualidade e sua relação com a família. A denúncia da desigualdade social e das diferentes formas de violência sofridas pelas camadas mais vulneráveis sempre está presente em seus textos.
— Ele (Louis) catalisou uma força popular, uma capacidade de conversar com todo mundo e de ser acessível. E não menos contundente, e não menos político. As reflexões que ele faz são superprofundas, mas ao mesmo tempo muito acessíveis. Acho que ele conseguiu um fato literário muito interessante — avalia Malu.
Ao longo de todas as fugas, ela (a personagem) consegue continuar sendo a Monique. Ela não foi apagada, não foi destruída, não se deixou destruir.
MALU GALLI
Atriz da peça "Mulher em Fuga"
Aproximando teatro e vida
A atriz conta que, mesmo já conhecendo o autor há algum tempo, só mergulhou nos seus textos quando recebeu o convite de Tiago Martelli, que interpreta Louis na peça, para integrar o elenco da montagem. Desde então, ela vem construindo sua própria versão de Monique — um processo que descreve como tão filosófico quanto a própria escrita do autor.
Mesmo não tendo experiências semelhantes às da personagem, ela avalia que soube trazê-la para sua vida:
— Mais do que tentar se anular para chegar perto da personagem, atuar é o contrário: procurar o que poderia ter de seu ali. Pensei na Monique, que é tão diferente de mim, mas consegui fazer com que ela seja muito próxima, não em termos de trejeitos, mas de função de vida, temperamento.

A força de Monique
Malu conta que, para construir a personagem, precisou ir além da questão da classe social. Para ela, muitas vezes os estereótipos de rico e pobre acabam tomando o imaginário do público. A discussão proposta por Louis, segundo ela, é mais profunda do que isso.
— Acho muito simplista a gente olhar para os personagens dessa maneira porque uma mulher também pode ser rica e ser de uma profunda miséria, não financeira, mas uma miséria cultural, de valores. A escassez pode estar em todos os ambientes, assim como a abundância — diz ela.
As reflexões que ele (o autor Édouard Louis) faz são superprofundas, mas ao mesmo tempo muito acessíveis.
MALU GALLI
Atriz da peça "Mulher em Fuga"
A atriz observa que, para além da pobreza material, o que norteou a construção de sua personagem foi encenar uma mulher "que não cuida de si, que não se olha no espelho porque nem tem tempo, porque está o tempo inteiro a serviço dos outros e deixou seus sonhos de lado". Ainda assim, ou por causa disso, Malu admira a força de Monique:
— Ao longo de todas as fugas, ela consegue continuar sendo a Monique. Ela não foi apagada, não foi destruída, não se deixou destruir. É sobre isso que a gente está falando.
Encontro emocionante com o autor francês
Essa liberdade de fazer uma Monique a partir de sua perspectiva, mesmo contando uma história real, para Malu, foi fundamental.
— É raro a gente poder contar uma história real, então todas as vezes que eu estava lá no ensaio eu pensava: "Meu Deus, isso aconteceu, que loucura". Isso fica mais emocionante para mim e para o público.
Sua versão da mãe de Louis foi validada pelo autor. No início do ano, ele esteve no Brasil e assistiu à peça. Depois, convidou a equipe para jantar.
— Fiquei muito feliz porque eu não imaginava que fosse acontecer, que ele fosse falar comigo. Ele me deu um abraço apertado, superemocionado, falou que amou a peça, que amou o meu trabalho, que queria que a mãe dele visse, que ele ia ligar para a mãe, ia falar que tinha uma atriz brasileira fazendo ela — lembra Malu.
Ao longo de todas as fugas, ela (a personagem) consegue continuar sendo a Monique. Ela não foi apagada, não foi destruída, não se deixou destruir.
MALU GALLI
Atriz da peça "Mulher em Fuga"
Intensidade em cena
O resultado dessa construção, para Malu, é a formação de dois polos que se contrapõem em cena. Enquanto Tiago Martelli faz um Louis mais analítico, sua Monique é intensa:
— Eu vou que nem um foguete do início da peça até o final. É a personagem mais intensa que eu já fiz na minha vida, muito explosiva, muito catártica mesmo. Eu fico nessa pulsão de alta voltagem emocional a peça inteira, que é como eu leio a Monique.
Essa intensidade também se reflete na forma como a montagem se apresenta ao público.
— É uma peça muito enxuta, condensada. É uma hora, uma explosão. É uma peça que vai num tiro só — descreve Malu.

Fim do ciclo de violência
Nos livros de Édouard Louis, todas as fugas de Monique são apresentadas juntamente com as diversas formas de violência que atravessam a rotina das classes mais vulneráveis: o machismo, a dependência química, a homofobia.
Chamou a atenção de Malu a explicação do autor para esse ciclo: os corpos são "vetores de violência", ou seja, os indivíduos passam adiante a opressão que sofrem.
— A gente reproduz, sem perceber, comportamentos que nos machucam — diz Malu.
Para ela, Louis foi a peça-chave da família que, ao refletir sobre isso, resolveu não passar adiante, até como "gesto político".

Ferramenta de reflexão
Por coincidência, a peça começou a rodar o Brasil e provocar essa série de reflexões no público em um momento em que a luta por visibilidade da onda de feminicídios ganhou força.
Malu conta que não foi algo planejado: enquanto já ensaiavam a peça, começaram passeatas sobre o tema pelo país.
— É muito forte isso, porque o teatro é essa ferramenta poderosa de reflexão — diz a atriz.
Para ela, essa reflexão tem trazido resultado por onde passam:
— As pessoas ficam de alma lavada e vêm conversar com a gente com muita emoção, todo mundo querendo dizer o que aconteceu consigo durante a peça. Isso é algo muito feliz da peça, porque a literatura do Édouard Louis também é assim, muito comunicativa.
"Mulher em Fuga" em Porto Alegre
- Nesta sexta-feira (10) e sábado (11), às 20h, e domingo (12), às 18h
- Teatro Simões Lopes Neto do Multipalco Eva Sopher (Rua Riachuelo, 1.089)
- Ingressos a partir de R$ 35, à venda no site da Fundação Theatro São Pedro, com taxa, ou na bilheteria do Multipalco, sem taxa (de terça a domingo, das 16h às 18h; nos dias de espetáculo, o funcionamento é estendido até a hora de início)
* Sob supervisão de Fábio Prikladnicki




