
A estação mais quente do ano também é a mais cultural da capital gaúcha. Criado em 1999, o Porto Verão Alegre surgiu como alternativa de lazer para quem permanecia na cidade enquanto boa parte dos porto-alegrenses viajava para o litoral durante o verão. Ao mesmo tempo, o festival nasceu com o propósito de movimentar a cena cultural local e gerar oportunidades de trabalho para artistas em um período em que há pouca oferta de entretenimento na Capital.
A 27ª edição do Porto Verão Alegre segue até o dia 8 de fevereiro, reunindo espetáculos teatrais, apresentações de dança, shows musicais e números de stand-up comedy. Ao longo dos 32 dias de programação, são mais de 140 atrações, distribuídas em cerca de 240 sessões, espalhadas por 17 endereços.
Para que toda essa programação chegue ao público, é preciso uma grande estrutura funcionando dentro e fora dos palcos. Só neste ano, o festival é responsável pela geração de mais de 1,5 mil postos de trabalho diretos e outros 5 mil indiretos, envolvendo artistas, técnicos e profissionais de diferentes áreas da cadeia cultural.
— Nem todo mundo ganha igual, nem todo mundo ganha bem, mas todo mundo tem uma esperança e pelo menos gera essa possibilidade de ganho — destaca Rogério Beretta, idealizador do Porto Verão Alegre.
Além de ser uma importante fonte de renda para a classe artística, o festival impulsiona a economia criativa da cidade. Segundo a organização, somando bilheteria, recursos provenientes de leis de incentivo e investimentos diretos, o projeto movimenta cerca de R$ 5 milhões por ano de forma direta.
— É uma injeção na economia que pode não parecer muito para algumas áreas, mas, para uma classe que briga com necessidade e dificuldade, é bastante dinheiro. Melhor do que a quantidade é como esse dinheiro é dividido, porque todo mundo tem uma parte disso — destaca Beretta.
Por trás de um clássico gaúcho
Considerado um dos clássicos – e também um dos espetáculos mais longevos – do teatro gaúcho, Bailei na Curva integrou a programação da 27ª edição do Porto Verão Alegre, reunindo artistas e técnicos que mantêm uma longa relação tanto com o festival quanto com a própria montagem.
É o caso do ator Leonardo Barison, que integra o elenco há 20 anos da peça de Julio Conte, que completa 43 anos em 2026.
— Bailei na Curva esteve em quase todas as edições do Porto Verão Alegre, e é muito legal fazer parte disso, porque antes era um período em que não havia nada em Porto Alegre. Agora, a gente fica torcendo para chegar o verão, porque sabe que vai ter bastante público — conta Barison.
Mas, para além dos artistas que sobem ao palco, há muitas outras pessoas que trabalham para que os espetáculos aconteçam. Entre elas está Cristiano Adeli, operador de projeção de Bailei na Curva:
— São duas horas de espetáculo, mas, para que isso aconteça, o trabalho começa bem antes, com a montagem da luz, do projetor, a afinação, os testes da trilha sonora e muitos outros ajustes. Tudo isso para que o espetáculo seja executado e consiga emocionar o público.

Há 18 anos fazendo parte da equipe de Bailei na Curva, Adeli também atua em outros espetáculos – e não é o único. Durante o festival, é comum que profissionais aproveitem a alta demanda para circular por diferentes montagens, acumulando trabalhos e funções distintas.
Bruna Eltz, por exemplo, se apresenta nesta edição do festival com a peça Se o Meu Ponto G Falasse. Antes de subir ao palco nos dias 29 e 30 de janeiro, no entanto, ela atuou como produtora de Bailei na Curva, que ficou em cartaz entre os dias 13 e 16 de janeiro.
— Diferente de outros grupos de grandes capitais, que já tem uma equipe só para isso, aqui todo mundo faz alguma coisa. É emoção tanto no palco quanto nos bastidores — ressalta.
Coincidentemente, enquanto conversava com a reportagem de Zero Hora, Bruna foi acionada para costurar a calça do figurino de um dos personagens da peça.
— Agora estou aqui costurando. Daqui a pouco surge um outro problema na plateia, que quebrou uma cadeira. Então, a gente tem que se reinventar e tem que se ajudar para poder girar o espetáculo. As pessoas não têm muita ideia disso — explica Bruna.
Atrás das cortinas do Reino Infante

Entre maquiagens e figurinos coloridos, Fernanda Moreno divide a atenção entre a direção e a atuação na peça infantil Reino Infante, que esteve em cartaz pelo terceiro ano consecutivo no Porto Verão Alegre, e os cuidados com o filho, Pietro, durante a preparação do espetáculo.
Integrante do Grupo Atrito, Fernanda ressalta que o verão costuma ser um período delicado para a classe artística, especialmente para quem trabalha com apresentações em escolas, que entram em recesso nesta época do ano. Para ela, o festival tem papel fundamental ao movimentar a economia criativa durante esse período, valorizando, também, o trabalho dos profissionais da área.
— Eu tenho várias revistinhas do Porto Verão Alegre de anos atrás. Eu pegava a revistinha, via o meu nome e sublinhava as peças em que atuava. Ou seja, ele é um documento das peças que estavam em cartaz, quem foram e quem eram aqueles profissionais que estavam ali.
Divididos entre dois camarins, os artistas se maquiavam e cantavam, animados para entrar em cena. Após pintar parte do rosto de branco e aplicar cílios postiços, a mais nova do elenco, Paula Weiss, conta que a participação no festival de verão tem sido importante para o início de sua carreira:
— Eu sei que, para alguns atores, já é algo recorrente, mas, para mim, está sendo um período mágico e o auge da minha carreira artística. Ir ao coquetel, me deparar com tantos artistas que admiro e saber que estou fazendo parte do mesmo festival.
* Sob supervisão de Lou Cardoso



