
De origem humilde e com poucas perspectivas na infância, Silvero Pereira hoje aproveita cada boa oportunidade que surge. Seja no cinema, na televisão, no teatro, na música, em realities ou em séries de áudio, ele quer se expressar. Sempre que está em cena, sua entrega chama atenção.
Agora, o cearense volta à capital gaúcha — onde criou o espetáculo de sucesso BR-Trans — para apresentar o solo Pequeno Monstro no 32º Porto Alegre em Cena. A procura do público foi tão grande que uma sessão extra foi aberta, além das duas inicialmente previstas. As três estão esgotadas.
As apresentações serão neste sábado (20), às 21h, e no domingo (21), às 18h e às 21h, no Teatro Renascença (Avenida Erico Verissimo, 307).
No ar no quadro Dança dos Famosos, do Domingão com Huck, Silvero fala, em entrevista a Zero Hora, sobre a concepção da nova peça, lembra a ligação com Porto Alegre e detalha a relação com o pai, Seu Zé Granduá, que morreu no dia 2 de setembro, aos 78 anos.
Leia a entrevista com Silvero Pereira
Como nasceu a peça Pequeno Monstro?
Estreou no ano passado, no Rio. Há sete anos, iniciei essa pesquisa, que traz como tema as violências sofridas pelos LGBTs na infância. Resgatei um pouco a minha história, com todas as questões de bullying, de violências que eu sofri por ser uma criança afeminada.
Fiz uma pesquisa sobre outros casos que fui conhecendo em matérias de jornal, em pesquisas científicas, em relatos de pessoas. A partir dessa dramaturgia, a gente traz à tona essas questões e a importância de se falar sobre isso para evitar outras violências.
Pequeno Monstro terá até sessão extra no Porto Alegre em Cena. Como sentes essa comoção para te ver no palco?
Porto Alegre tem uma grande importância na minha história como artista. Em 2012, fui para aí montar BR-Trans. Foi quando conheci o Rio Grande do Sul e me relacionei com as pessoas de Porto Alegre. A peça fez tanto sucesso, uma temporada brilhante no Rio de Janeiro, que recebi o convite para estar na novela A Força do Querer.
Nunca abandonei minha relação com a cidade, tanto que o título Pequeno Monstro é o mesmo de um conto do Caio Fernando Abreu. Uso alguns trechos desse conto, resgatando minha história com a dramaturgia do Caio.

Como é o Silvero Pereira que retorna agora a Porto Alegre?
Volto sendo outra figura, diferente daquela que há 10 ou 12 anos chegou muito assustado com esse Estado, com essa outra cultura, mas que se fortaleceu. Agora, volto como um artista conhecido nacionalmente, nessa posição de famoso, do Dança dos Famosos.
Entendo que as pessoas estão curiosas para ver esse artista de perto, mas que bom que eu uso meu espaço na televisão, o meu espaço de fama, para atrair ainda mais as pessoas para o teatro. Quando o público procura o Silvero no festival, acaba vendo toda a programação.
Porto Alegre tem uma grande importância na minha história como artista. Em 2012, fui para aí montar 'BR-Trans'.
SILVERO PEREIRA
Sobre o espetáculo que o lançou nacionalmente
Além do teatro, estás na TV, no cinema e em séries de áudio, como A Febre de Kuru, que recria os crimes da Rua do Arvoredo. Como é se deslocar entre esses formatos com êxito?
Para mim, além de uma profissão, a arte é um lugar de salvação, de sobrevivência. Vim de uma família extremamente pobre, no sertão do Ceará, sendo uma pessoa pobre, nordestina, LGBT e estudante de escola pública.
Tudo isso poderia ter feito de mim uma figura completamente fora do que sou hoje. Tive muitas adversidades para atravessar, mas me agarrei à arte. Ser um artista multifacetado, para mim, é agarrar todas as oportunidades que aparecem.
Qualquer coisa que me ofereçam para fazer, por mais que eu não esteja totalmente preparado, vou me dedicar, entender mais, estudar. E isso me coloca nessa posição de multiartista. Essa é a minha profissão. Tenho que ficar o tempo inteiro me adaptando para conseguir fazer com que o meu trabalho seja um sustento.
Já estiveste em Porto Alegre interpretando canções do Belchior, venceste o The Masked Singer e li que estás preparando um show dedicado a Ney Matogrosso. Como é tua relação com a música?
Quem me levou para a música foi o teatro, foi o BR-Trans. Durante a criação do espetáculo, percebi que seria mais interessante cantar ao vivo. Meu pai era apaixonado por música, me apresentou a vários grandes artistas. A partir desse momento, pensei: "Caramba, acho que tenho um pezinho na música".
Desde 2012, venho estudando música e me aprimorando. O show Silvero Interpreta Belchior é resultado disso. Em 2018, eu já tinha feito o Show dos Famosos. Fiquei como vice-campeão, mas ainda estava muito imaturo, me considerava bem iniciante na música. E aí o The Masked Singer surge 12 anos depois, comprovando que esse estudo estava dando certo.
Acho que a música, para mim, ainda é algo teatral. Consigo cantar e deixar a minha mensagem. Por isso, o Belchior foi o meu primeiro projeto. O Ney Matogrosso também está nesse caminho, mas o projeto ainda é um embrião. Espero que, em breve, eu possa estar no palco o interpretando.

Por falar no teu pai, há pouco tempo fizeste uma postagem de despedida para ele. Como era a relação entre vocês?
Meu pai era um sertanejo, tinha 78 anos. A estrutura social em que ele viveu foi muito diferente da minha. Era o primogênito de uma família de 18 filhos. Teve que trabalhar muito cedo. Esse homem criou uma carcaça com essa figura de macho, responsável por uma família que era muito grossa. Durante a minha infância e adolescência, tive a ausência do meu pai. Quase não tive relação com ele. E isso me deixou muito mal.
Com o tempo, me tornando uma pessoa adulta, madura, tendo os privilégios que tenho hoje, da minha educação, formação, consciência, terapias, tudo a que meu pai não teve acesso, fui percebendo que muito mais do que um filho que precisava de um pai, existia um pai que precisava de um filho. Fui entendendo que esse homem não podia dar aquilo que não recebeu. Não teve amor na infância, na adolescência.
Desde então, o que mudou entre vocês?
Fiz um movimento inverso e resgatei o meu pai nos últimos anos. Fui atrás dele para sentar, conversar, abraçar, dizer que amo. Graças a esse movimento, minha relação com ele mudou muito nos últimos 10 anos.
Meu pai partiu, mas não tenho arrependimentos. Pelo contrário. Me sinto orgulhoso de que a partida dele foi sem dívida nenhuma: nem minha com ele nem dele comigo. Me sinto em paz.
Com o tempo, fui percebendo que muito mais do que um filho que precisava de um pai, existia um pai que precisava de um filho.
SILVERO PEREIRA
Sobre a relação com o pai, morto recentemente
Interpretaste serial killers em Maníaco do Parque e no já citado A Febre de Kuru. Como o Silvero Pereira, um cara tão gente boa, se prepara para viver personagens assim? E o que, na tua visão, fascina as pessoas nesse universo do true crime?
Quando fui fazer Bacurau, o Kleber (Mendonça Filho, codiretor do filme) disse que eu tinha cara de quem matava alguém. Ele disse que foi isso que o levou a me selecionar para fazer o Lunga. Acho que o mercado meio que me levou para esse lugar, me entendeu como uma figura que constrói esse tipo de personagem.
Fazer o Maníaco do Parque ou A Febre de Kuru levou um tempo de muita investigação, muito estudo, muita ciência da minha parte enquanto ator. Na prosódia, no olhar, na mimese. Entender essas histórias, tentar ser fiel. Afinal de contas, o true crime é isso: um personagem que existe. As pessoas buscam essa semelhança com o real.
E acho que o grande barato do true crime, gênero do qual sou fã, é que você, às vezes, tem informações muito superficiais sobre um assunto. Quando vem um filme, uma série, um documentário sobre isso, você se aprofunda. E é isso que nos causa interesse de entender, quase participar um pouco dessa história, para ter mais clareza sobre como tudo isso aconteceu. Acho que é por isso que o true crime chama tanta atenção.

Foi anunciado, em 2021, que ias fazer uma série sobre o Clodovil Hernandes. Como está essa produção?
Essa série não andou. Teve esse anúncio, mas depois a plataforma declinou do projeto. E nunca mais retornou com relação a isso.
No momento, estou mais focado no Dança dos Famosos. Afinal de contas, sou um colecionador de realities na Globo. E esse é um dos mais difíceis. Não é só sobre dançar e ser feliz dançando. É sobre, a cada semana, aprender um ritmo que você não sabe. São quatro dias de ensaio, duas horas por dia, em um total de oito horas, para fazer uma apresentação nacional, sendo julgado tecnicamente e pelo público.
Os realities trazem essa figura do multiartista de que a gente falou antes, que não está ali só para a teledramaturgia: chama atenção no canto, na dança, na culinária.
Sou um artista que consegue transitar por todos esses lugares com leveza, graciosidade, carisma. Me sinto feliz fazendo, é algo que me dá prazer.
