
Após o fenômeno de Vale Tudo, Bella Campos está de volta — agora nas telonas — com Cinco Tipos de Medo, que marca sua estreia no cinema e entrou em cartaz na última quinta-feira (9). Vivendo um momento de consolidação na carreira, transitando entre a TV e o cinema, a atriz descreve a experiência na sétima arte como um “rito de passagem”.
— O cinema exige um tipo de presença diferente, mais silenciosa e contida, onde o detalhe fala muito alto. Na TV, a gente constrói personagens ao longo do tempo, com margem para ajustes. Foi desafiador, mas libertador, porque me colocou num lugar de escuta muito profunda comigo mesma como atriz — afirma.
A estreia nas telonas teve ainda um significado especial: o filme foi rodado em Cuiabá, sua cidade natal. Na trama, ela interpreta Marlene, uma enfermeira que ficou desempregada após a pandemia de covid-19 – um papel com camadas complexas.
Segundo a atriz, essa escolha reflete a busca por personagens que a provoquem e a tirem de lugares confortáveis:
— Gosto de mulheres contraditórias, cheias de camadas, que não cabem em uma definição só. A complexidade me atrai porque ela se parece mais com a vida real. Quero contar histórias que gerem conversa, reflexão, desconforto às vezes… isso, para mim, é potente.
Na televisão, Bella conquistou grande visibilidade ao interpretar Maria de Fátima no remake de Vale Tudo, exibido na TV Globo em 2025. Marcada por ambição e contradições, a personagem gerou debates e tendências, além de forte identificação com o público jovem.
Para a atriz, o papel foi um divisor de águas, tanto na forma como passou a ser vista pelo mercado quanto na sua trajetória pessoal.
— Foi uma personagem que gerou amor, rejeição e discussão. Isso é sinal de impacto — ressalta.
Em entrevista a Zero Hora, a cuiabense de 28 anos fala mais sobre o protagonismo ao lado de Taís Araújo no horário nobre da Globo, o reconhecimento pela Forbes Under 30 de 2025, figurando na capa da edição que celebra jovens talentos, e a importância de preservar sua imagem pública.

Confira a entrevista com Bella Campos
Cinco Tipos de Medo foi filmado em Cuiabá, sua cidade natal. Como foi voltar para casa e encarar essa estreia profissional?
Foi simbólico. Foi como fechar um ciclo e abrir outro ao mesmo tempo. Estava estreando profissionalmente no cinema justamente no lugar onde sonhei pela primeira vez em ser atriz. Houve muita emoção e muita responsabilidade também. Era como dizer para aquela menina de anos atrás que tudo valeu a pena.
A repercussão de Maria de Fátima entre o público jovem foi enorme, seja pelos looks, pelo corte de cabelo ou até pelas falas. Como foi, para você, esse diálogo e essa identificação com os jovens?
Foi uma das coisas mais bonitas que vivi. Ver meninas e meninos se reconhecendo na estética, nas falas, nas inquietações da Maria de Fátima foi muito especial. Houve uma identificação genuína porque ela falava de desejos, frustrações e ambições que atravessam essa geração. Eu me senti muito próxima desse público.
Você contracenou com Taís Araújo, uma das maiores atrizes da dramaturgia brasileira. Como foi essa troca em cena e nos bastidores? O que você leva dessa experiência para a vida e para a carreira?
A Taís tem uma generosidade imensa em cena e fora dela. Observá-la, ouvir seus conselhos e trocar experiências foi transformador. Levo comigo não só aprendizados técnicos, mas também uma inspiração de postura, ética e humanidade. É uma referência que vou carregar para sempre.
Vale Tudo marcou o horário nobre ao trazer duas mulheres negras como protagonistas. Como você avalia hoje a presença de mulheres negras no audiovisual brasileiro? Acredita que houve avanços significativos ou ainda há muito a ser transformado?
Tiveram avanços importantes, sem dúvida, especialmente em termos de visibilidade e protagonismo. Mas ainda há muito a ser transformado, principalmente nos bastidores e nos espaços de decisão. A presença de mulheres negras no horário nobre, como em Vale Tudo, é um marco, mas precisamos que isso deixe de ser exceção.
Estava estreando no cinema justamente no lugar onde sonhei pela primeira vez em ser atriz. Houve muita emoção e responsabilidade. Era como dizer para aquela menina de anos atrás que tudo valeu a pena.
BELLA CAMPOS
atriz
Maria de Fátima era movida por ambição. Você acha que a ambição feminina ainda é julgada de forma diferente da masculina?
Sim. A ambição masculina costuma ser vista como força; a feminina, como defeito. E Maria de Fátima escancarou isso. Avalio como fundamental que a gente continue questionando esses rótulos e permitindo que mulheres sejam ambiciosas, complexas e contraditórias sem culpa.
Estar na lista da Forbes em 2025 deve ter sido um marco importante na sua trajetória. Como esse reconhecimento dialoga com tudo o que você viveu e construiu ao longo do último ano?
Estar na lista da Forbes foi um reconhecimento muito importante e especial, porque dialoga com um ano de muito trabalho, entrega e coragem. Não vejo como um ponto de chegada, mas como um sinal de que estou no caminho certo, construindo algo com propósito e consistência.
Em um mercado que ainda cobra muito das mulheres, especialmente em relação à aparência, como você cuida da sua relação com o próprio corpo e com a autoimagem?
Tenho buscado uma relação mais gentil comigo mesma. O mercado cobra, a internet cobra, mas aprendi que minha saúde mental vem primeiro. Tento me ouvir, respeitar meus limites e não me definir apenas pela aparência. É um exercício diário, mas necessário.
Com tanta visibilidade pública, o que mais mudou na forma como você se enxerga e o que faz questão de preservar?
A visibilidade me fez olhar para mim com mais responsabilidade, entendendo o impacto que posso ter. Mas faço questão de preservar minha essência e minhas raízes. Não posso perder quem sou no meio do caminho, preciso seguir cuidando da minha base, da Bella lá de Cuiabá que chegou aqui hoje.
E, olhando para o futuro, quais são seus próximos desejos profissionais?
Quero continuar me desafiando. Fazer mais cinema, explorar personagens ainda mais complexos, talvez produzir meus próprios projetos no futuro, não sei. Mais do que títulos, busco histórias que me atravessem e que tenham algo real a dizer pro público.

