Duas décadas após a estreia de O Diabo Veste Prada, a figura imponente de Miranda Priestly continua inabalável. Não é por acaso que a personagem interpretada por Meryl Streep permanece viva no imaginário de cinéfilos e fãs da cultura pop – seja pelo estilo, seja por seu jeitinho workaholic de ser. Mas por que ela foi marcada como a vilã do filme?
Miranda não pede desculpas por priorizar a carreira, toma decisões difíceis e não se molda para agradar ninguém. Afinal, ela comanda uma revista que literalmente tinha grande influência na moda mundial.
Para o jornalista e crítico de cinema Matheus Pannebecker, mulheres em posições de liderança, como Miranda Priestly, ainda são vistas como "vilãs" por comportamentos que, em homens, costumam ser interpretados como sinais de competência.
Segundo ele, isso acontece por questões estruturais que ainda reverberam lógicas profundamente enraizadas, já que, historicamente, fomos ensinados a enxergar o masculino em posições de autoridade.
— Miranda se tornou uma personagem icônica, entre outras coisas, por trazer à tona essa reflexão sobre a inversão de papéis em um filme tão pop, que, desde seu lançamento, atravessa gerações. Ela, de certa forma, faz parte de uma mudança de perspectiva que, felizmente, vem acontecendo desde a estreia de O Diabo Veste Prada — afirma o jornalista.

"Atitudes problemáticas"
Contudo, Pannebecker ressalta que, por mais que Miranda seja lembrada como uma "diva glamourosa ocupando um posto importante na comunicação", também é preciso pontuar que ela apresenta atitudes consideradas problemáticas no ambiente de trabalho:
— É também uma personagem que suscita reflexões sobre o que é saudável ou não quando pensamos em lideranças, vida profissional e nas próprias relações interpessoais.
Para Stephanie Espindola, crítica de cinema e cofundadora do portal Emerald Corp, Miranda apresenta traços tóxicos na forma como encara o trabalho, especialmente pela cultura workaholic, além de um estilo de liderança nocivo — herdado de um sistema historicamente criado e sustentado por homens.
— Acho que, antes de tudo, nenhum líder deveria agir como Miranda ou como muitos líderes corporativos. Muito desse comportamento se sustenta em um sistema que coloca o trabalho acima de tudo e que adoece as pessoas — opina.
— Quando as mulheres são muito determinadas e sabem exatamente o que querem, essa postura acaba sendo interpretada como dificuldade de convivência. As novas gerações vêm quebrando parte desses padrões, muito também por enxergarem o mercado de trabalho de forma diferente da que nós, millennials, fomos ensinados a considerar ideal — completa.
A versão 2.0 de Miranda Priestly
A continuação de O Diabo Veste Prada, que chega nesta quinta-feira (30) aos cinemas, tem um papel importante na relação do público com Miranda. Segundo Pannebecker, após 20 anos, a indústria da comunicação mudou e as hierarquias de poder também. Agora, no filme, vemos uma profissional que já não detém o mesmo controle de antes e precisa negociar mais diante dos tempos difíceis para o jornalismo – especialmente o impresso.
— É uma sacada interessante porque mostra como o roteiro se atentou aos efeitos do tempo sobre as dinâmicas profissionais, a desglamourização do poder e a importância da colaboração. Alguns podem dizer, em tom crítico, que Miranda está mais "suavizada", mas eu diria que talvez ela esteja mais empática, uma característica essencial para os dias de hoje. É bom perceber que até Miranda Priestly é capaz de se reavaliar — afirma o crítico.
Para Stephanie, hoje o público tem uma compreensão mais ampla sobre o status que Miranda carrega e sobre o fato de ela ser uma mulher forte em uma indústria extremamente exigente. Neste novo filme, ela espera que a personagem também reveja seus próprios comportamentos:
— O mais interessante é que o filme trabalha com personagens complexas, que tomam decisões questionáveis em busca de um ideal de sucesso que nem sempre se sustenta. É fácil para o público se identificar com Miranda, e o desfecho da história contribuiu para que ela se tornasse uma personagem querida por muitos.


