
O que explica a fascinação do brasileiro por filmes espíritas? Não faltam exemplos de produções bem-sucedidas, mostrando que o brasileiro se interessa pelo tema. Em 2010, Nosso Lar, baseado na obra de Chico Xavier, levou mais de 4 milhões de pessoas às salas de exibição. Hoje, é o 32º título brasileiro mais visto de todos os tempos.
Catorze anos depois, apesar da disseminação dos streamings e os altos preços dos ingressos de cinema, Nosso Lar 2 – Os Mensageiros estreou com mais de 1,6 milhão de espectadores e faturou quase R$ 32 milhões, segundo a Ancine – sucesso que já garantiu um terceiro filme para 2027.
E não é um caso isolado: em 2023, Ninguém É de Ninguém ficou entre os 10 nacionais mais vistos, com cerca de 140 mil ingressos vendidos. No ano anterior, Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz (mais de 260 mil espectadores) e Nada É por Acaso (145 mil) também figuraram na lista.
— A gente percebe que o público gosta desse tema, que não é reducionista, não é divisor. Ele é congregador, porque é espiritual, não somente espírita. Ao ser espiritual, oferece inúmeras capacidades de compreensão, até de contraposição. Não passa batido. É isso que a gente gosta como realizador, propor e conversar sobre o tema — detalha o cineasta Wagner de Assis, responsável pela direção da franquia Nosso Lar e o também do já citado Ninguém É de Ninguém.
Pela Cinética Filmes, Assis lança, nesta quinta-feira (16), um novo filme dentro do segmento espírita: O Advogado de Deus. Protagonizado por Nicolas Prattes, o filme é baseado na obra de Zíbia Gasparetto, psicografada pelo espírito Lucius, e acompanha uma história de amor ligada a crimes do presente e a erros de vidas passadas.
O cineasta explica que, para além do espiritismo, produz filmes que abordam a espiritualidade. Embora uma pequena fração da população siga a doutrina codificada pelo francês Allan Kardec (1804-1869), mais de 90% dos brasileiros possuem algum tipo de fé. Por isso, acredita Assis, essas produções têm tamanha aderência pelo país e figuram entre as mais vistas – entre cinema, home video e streaming, ele contabilizou que Nosso Lar já foi visto por mais de 50 milhões de pessoas.
— Essa ideia da continuidade da vida, olhando do ponto de vista espírita, traz responsabilidades, além do consolo de que a vida não termina — diz Assis. — De onde nós viemos e para onde nós vamos? Essa é uma pergunta clássica, filosófica, que ainda deveria ser feita hoje. Produzir filmes, livros, peças, músicas que façam essa pergunta, às vezes, é muito mais potente que uma simples resposta.
Entre mistérios e polêmicas
Entre as religiões praticadas no Brasil, o espiritismo representa uma fatia modesta: apenas 1,8% da população se declara adepta da doutrina, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2022. Para efeito de comparação, 56,7% dos brasileiros são católicos e outros 26,9% afirmam ser evangélicos.
Olhando apenas para os números, pode não parecer lógico produzir filmes voltados a esse público – dos 203 milhões de brasileiros, apenas 3,66 milhões alegam ser espíritas. A sétima arte é cara e exige grandes audiências para se pagar ou, ao menos, não dar prejuízo.
A cineasta Luciana Tomasi, que é sócia da Prana Filmes, enquanto fez a curadoria do cinema do Farol Santander, de 2018 a 2020, desenvolveu a mostra Consciência e Espiritualidade, na qual apresentou aos porto-alegrenses produções que também permeavam o tópico em questão. Para ela, a explicação para a procura é simples:
— Muitos católicos também são espíritas, mas, nas pesquisas, sempre respondem apenas católicos. Isso acontece com outras religiões também. Isso se soma com o fato de o tema da vida após a morte ser muito atraente para o grande público. Espiritismo é um assunto coberto de mistério e polêmica. As plateias amam isto.
Sincretismo
Para Vinícius Lousada, vice-presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul (Fergs), a divulgação de sua doutrina através do cinema é vista com otimismo, mas não dentro de um proselitismo, visto que a sua entidade, por exemplo, não tem como objetivo angariar mais adeptos. A sua visão é que a temática ajuda a levar esperança e transmitir uma mensagem positiva.
Dentro deste cenário, ele destaca que o sincretismo religioso é um traço importante da cultura no Brasil. E, inclusive, reforça como a novela A Viagem angariou uma multidão de fãs no país, sendo vista e referenciada por pessoas dos mais diferentes credos.
Nesse contexto, o sincretismo religioso aparece como um traço marcante da cultura brasileira. Lousada destaca, por exemplo, como a novela A Viagem conquistou uma ampla audiência e segue sendo referência entre pessoas de diferentes crenças.
— Esses saberes do espiritismo sobre a imortalidade da alma, a vida após a morte, a comunicação entre encarnados e desencarnados também estão presentes em várias religiões mediúnicas e de caráter cristão. Na própria Bíblia, encontramos vários fenômenos espirituais de intercâmbio entre vivos e mortos, ou sempre vivos, porque, de fato, ninguém morre. É muito interessante ver esse mix de crenças dialogando. É importante para uma demanda contemporânea, que é o diálogo interreligioso e a tolerância religiosa — destaca Lousada.

