
Algumas coisas simplesmente não saem de moda, e O Diabo Veste Prada é uma delas. Lançado em 2006, o filme nasceu como um retrato afiado do universo editorial, mas, ao longo dos anos, ganhou novas leituras e se firmou como um fenômeno que atravessa gerações.
Às vésperas da estreia da sequência, marcada para quinta-feira (30), o interesse renovado reforça como a obra continua atual e segue abrindo espaço para discussões sobre trabalho, comportamento, imagem e, é claro, estilo.
Para Paula Puhl, professora da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), o sucesso do longa à época do lançamento pode ser explicado pelo fascínio que cercava o universo da moda de luxo. Naquele momento, ainda não havia criadoras de conteúdo que tornassem esse ambiente mais acessível e explicassem seus códigos com a mesma facilidade e alcance que se vê hoje.
— Esse filme é um símbolo da cultura pop relacionado à moda, porque o filme tratou de como as tendências aconteciam, como elas chegavam no varejo, e, também, dessa ideia muito estereotipada sobre o que era uma revista de moda. Foi muito importante para desvendar um mundo muito nichado e que poucas pessoas conheciam — afirma Paula, que também pesquisa moda e identidade.
Já a comunicadora e crítica de cinema Stephanie Espindola acredita que o elenco — formado por Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e até pela modelo gaúcha Gisele Bündchen — é um dos fatores que ajudam a explicar a popularidade do filme mesmo após duas décadas. A produção marcou uma transição importante na carreira de Anne, sendo uma de suas primeiras atuações em um papel adulto, após estrear no cinema como protagonista de Diário da Princesa (2001).
Além disso, muitos debates apresentados na trama de 2006 continuam surpreendentemente atuais. Questões como o equilíbrio entre vida profissional e pessoal, ambição, empoderamento feminino, relações afetivas, dinâmicas de poder e a influência da imagem seguem no centro de conversas e atravessam gerações.
— Mesmo que a gente não viva a realidade da alta-costura e das revistas de moda, a gente consegue se ver naquelas situações e se identificar com vários dos percalços desses personagens, que são muito humanos. A Andy, com a questão do relacionamento. A Miranda, que é uma grande líder, mas que na vida pessoal passa por problemas e coisas tristes. São personagens que cometem erros, fazem escolhas motivadas pelas próprias ambições, na tentativa de acertar — avalia Stephanie.
Expectativa de melhorar a história

Com a onda de reexibições, continuações de franquias clássicas e o forte retorno da estética dos anos 2000, fica evidente que a nostalgia voltou a ocupar um lugar central tanto no cinema quanto na moda. Por isso, o carinho do público não surpreende. A história conquista fãs de diferentes idades não apenas pela relevância cultural ou pelos debates que provoca, mas também por funcionar como uma ponte afetiva para uma época presente no imaginário de muitas pessoas.
— A nostalgia sempre é um ponto de contato entre o antigo e o novo. A gente acompanha muitas séries, filmes e produtos dos anos 2000 que seguem relevantes. Essa continuação não vai apagar o primeiro filme, vai atualizar e manter esse engajamento do público que assistiu quando lançou, ou assistiu depois, e até os que vão procurar assistir agora — acrescenta Paula.
No evento de pré-estreia do filme, realizado na noite desta terça-feira (28), no Shopping Iguatemi, em Porto Alegre, o saudosismo estava por toda parte. Com direito a tapete vermelho, os convidados desfilaram looks inspirados no primeiro filme. Para a influenciadora e advogada Tati Possebon, o que marcou a obra lançada em 2006 foi uma lição considerada valiosa para as mulheres:
— O filme mostra o quanto temos que acreditar no nosso potencial. E isso é algo muito engrandecedor, ainda mais nos dias de hoje.
O influenciador César Nascimento defende que a sequência é necessária para atualizar alguns temas que poderiam tornar o primeiro filme mais datado:
— Na época, estava no auge das revistas físicas. E hoje o filme volta com uma nova roupagem, que é a transição da revista física para o digital. Acho que vai ser muito importante para mostrar que tem mais diversidade e pluralidade dentro da moda e mostrar, também, que a moda vive.

