
A expectativa por mais uma vitória brasileira no Oscar mobilizou cinéfilos em um bar da Cidade Baixa, em Porto Alegre, na noite deste domingo (15). Reunido para acompanhar a cerimônia no Brita Bar, o público assistiu com atenção às categorias em que o Brasil concorria — e reagiu com vaias quando as estatuetas escaparam por entre os dedos.
A maior frustração veio no anúncio de melhor filme internacional. Quando o prêmio foi entregue ao norueguês Valor Sentimental, superando o representante nacional O Agente Secreto, a reação no bar foi imediata: gritos de “roubado” ecoaram entre o público, que protestava diante da derrota na categoria que concentrava as maiores chances do país.
A torcida refletia a expectativa criada em torno do longa dirigido por Kleber Mendonça Filho, que chegou ao Oscar com quatro indicações — incluindo melhor direção de elenco, melhor filme e melhor ator, para Wagner Moura — em um feito inédito para o cinema brasileiro. Mesmo sem conquistar nenhuma estatueta para o país, o filme empolgou o público, que manteve o clima de celebração ao longo de toda a transmissão e vibrou a cada referência a O Agente Secreto exibida na cerimônia.
O espaço ficou cheio para a watch party organizada no bar. Os espectadores ocupavam praticamente todos os ambientes disponíveis. Logo em frente ao telão, cadeiras de praia reuniam quem queria acompanhar cada detalhe da cerimônia mais de perto. Atrás delas, as mesas concentravam grupos de amigos que comentavam os resultados, enquanto outra parte dos presentes acompanhava em pé, na área mais ao fundo do bar.
Entre reações e outros favoritos
Logo na entrada, o evento já indicava o espírito da noite. Os convidados passavam por um “pink carpet” montado para fotos e recebiam um “santinho” da atriz Fernanda Torres, em alusão à indicação dela ao Oscar no ano passado. O cartão virou uma espécie de amuleto.
Na primeira fileira diante do telão, acomodados em cadeiras de praia, os amigos Letícia Dall’Agnol, 29 anos, professora, e Rai Netto, 30, pesquisador, acompanhavam atentos a transmissão enquanto aguardavam as categorias em que o Brasil concorria.
— Acho que a nossa maior chance é em melhor filme internacional. Melhor ator eu acho bem difícil, porque a disputa é muito forte — avaliou Letícia antes dos anúncios.
Rai concordou com a amiga:
— Pelo contexto dos outros filmes e dos atores que estão concorrendo, acho que vai ser isso mesmo, melhor filme internacional.
Os dois decidiram acompanhar a cerimônia no bar justamente pelo clima coletivo da transmissão.
— A gente veio para estar junto com os amigos. Fizemos isso ano passado também e foi bem legal. A gente tenta acompanhar os filmes indicados; não vimos todos, mas a maioria, então é mais para curtir e torcer junto — contou Letícia.

A torcida, infelizmente, não foi suficiente. O Brasil não venceu em nenhuma categoria, mas o público também tinha outros favoritos. Quando os prêmios de melhor animação e melhor canção original foram anunciados para Guerreiras do K-Pop, por exemplo, a plateia comemorou com aplausos e gritos, demonstrando estar engajada na temporada.
Outro momento de empolgação aconteceu quando Wagner Moura apareceu na transmissão para anunciar a categoria de melhor direção de elenco. Assim que o ator brasileiro surgiu no telão, o bar reagiu com aplausos, assobios e até gritos de “gostoso”. A empolgação, porém, não se transformou em prêmio: O Agente Secreto acabou superado por Uma Batalha Após a Outra, o que provocou suspiros entre os espectadores.
A categoria de melhor fotografia trouxe outra chance de vitória brasileira. Adolpho Veloso concorria pelo trabalho em Sonhos de Trem, mas o prêmio acabou com Pecadores. Apesar da frustração inicial, o resultado foi recebido com admiração. Ao longo da noite, aliás, o filme estrelado por Michael B. Jordan arrancou aplausos dos frequentadores do bar em todas as suas vitórias, incluindo a de melhor ator para o protagonista, que venceu Wagner Moura.
Mas, se Pecadores e Michael B. Jordan pareciam ter conquistado um lugar especial no coração do público, outros nomes despertavam reações opostas. Sempre que referências a Marty Supreme apareciam na transmissão, por exemplo, parte da plateia respondia com vaias.
Algo parecido aconteceu quando Gwyneth Paltrow surgiu na tela e foi vaiada pelos presentes. Em 1999, ela venceu o prêmio de melhor atriz por Shakespeare Apaixonado, na mesma edição em que Fernanda Montenegro concorria por Central do Brasil. Os brasileiros ainda não superaram.
Nos intervalos dos anúncios, o público também participava de uma premiação paralela organizada pelo evento. Um “Oscar do Brita” distribuía estatuetas simbólicas — na verdade, pequenos chaveiros em formato de Oscar — em categorias bem-humoradas, como melhor sósia de Wagner Moura e perna mais cabeluda, referência à lenda urbana popularizada por O Agente Secreto.
Mesmo sem estatuetas brasileiras na noite, o clima foi de celebração, refletindo o momento histórico para o cinema nacional. Pela primeira vez, um filme brasileiro chegou ao Oscar disputando quatro categorias principais — e colocou, mais uma vez, o Brasil no centro das atenções da maior premiação do cinema mundial.




