
No próximo domingo (15), o cinema brasileiro volta a prender a respiração com a 98ª edição do Oscar, no Dolby Theatre, em Los Angeles. Os olhos do país estarão voltados, sobretudo, para Wagner Moura, indicado ao prêmio de melhor ator por seu papel em O Agente Secreto. Mas será que o brasileiro tem chances na disputa?
Para o jornalista Daniel Rodrigues, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, o fato de Wagner chegar à cerimônia com um prestígio internacional raramente visto para atores sul-americanos torna a conquista da estatueta mais provável.
Isso porque, diferentemente de Fernanda Torres — que concorreu ao Oscar de melhor atriz no ano passado, mas não era conhecida em Hollywood —, Moura já tem uma carreira consolidada nos Estados Unidos, devido a sucessos como Narcos, Elysium e Guerra Civil. Para Rodrigues, isso coloca o baiano em vantagem.
— O Wagner Moura não é só conhecido em Hollywood. É quase como se ele já tivesse virado "um deles", o que acaba sendo muito importante para o Oscar, uma premiação feita, com raras exceções, para premiar as produções e os artistas de Hollywood. E como os Estados Unidos importam muitos talentos, eles têm esse orgulho de dizer: "Olha só, esse já virou um norte-americano". Isso reduz a barreira da xenofobia e aumenta as chances do Wagner — analisa.
Ainda assim, o páreo é duro para o baiano, que concorre com nomes de peso na indústria, como Timothée Chalamet e Michael B. Jordan. Os dois atores são os mais cotados para vencer a categoria de atuação e vêm sendo aclamados em premiações por seus trabalhos em Marty Supreme e Pecadores, respectivamente.
Já Wagner Moura surge como uma terceira alternativa, mas pode ser beneficiado por fatores que atravessam as campanhas dos rivais.
Chalamet, apontado como favorito na rodada inicial de apostas, perdeu o posto após se envolver em uma polêmica pouco antes do encerramento das votações. Durante uma entrevista, o ator deu a entender que "ninguém mais se importa com o balé e a ópera", e a declaração repercutiu de forma negativa.
A polêmica tem tudo para frear o desempenho de Chalamet no Oscar. A revista Variety, famosa por suas previsões acerca da premiação, apostou que as chances de vitória do ator "praticamente evaporaram" após o episódio.

Entretanto, como pondera o crítico de cinema Matheus Machado, gaúcho que está entre os votantes do Globo de Ouro, a queda de um favorito nem sempre garante a subida de outro:
— O Wagner até poderia se beneficiar disso, mas entendo que o Michael B. Jordan está com mais evidência agora, após vencer o Actor Awards (antigo SAG Awards, promovido pelo Sindicato dos Atores de Hoollywood). Acredito que ele seja o mais cotado para a categoria, não somente por esse prêmio prévio, mas pela própria atuação dele em Pecadores. Ele encontrou uma forma muito interessante de dar vida ao roteiro do Ryan Coogler, que escreveu dois personagens parecidos, mas com nuances bem importantes — opina.
Daniel Rodrigues concorda com o favoritismo de Jordan, mas pondera que a atuação dele em Pecadores não é consenso entre a imprensa especializada. Para uma parcela da crítica, os personagens soam "excessivamente parecidos" e não representam a melhor atuação de Jordan, mais elogiado por Creed e Pantera Negra — pelos quais, vale lembrar, ele não foi indicado ao Oscar.
O presidente da ACCIRS destaca, ainda, que Wagner Moura também desempenhou personagens duplos em O Agente Secreto, com uma amplitude que ele considera maior:
— Wagner é um ator que estuda profundamente os seus papéis. É impressionante a capacidade dele de representar tanto o protagonista Armando quanto o filho dele, anos mais tarde, em uma cena final que é curta, mas poderosa. Ele conseguiu captar a essência daquele menino que vimos pequeno ao longo do filme, e acredito que isso também pode ser valorizado pelo júri.
Outro ponto que pesa a favor do brasileiro são as vitórias em premiações renomadas, como o Globo de Ouro e o Festival de Cannes, além dos prêmios conquistados por O Agente Secreto. Em contrapartida, o filme ficou de fora do BAFTA e das principais premiações de sindicatos, como o Actor Awards. É algo que entra na lista dos contras, uma vez que as honrarias sindicais são termômetros importantes.
As projeções da imprensa norte-americana também não são favoráveis para Wagner e O Agente Secreto. Na Variety, o ator é citado como "quem deveria ganhar". Contudo, para a revista, a Academia premiará Michael B. Jordan. Já no The Hollywood Reporter, que utiliza método pautado em estatísticas matemáticas, Jordan será o vencedor, seguido de Chalamet e Wagner Moura, respectivamente.

Quanto às chances de O Agente Secreto –que concorre ainda nas categorias de melhor filme, melhor filme internacional e melhor direção de elenco –, as apostas também não são promissoras. As duas revistas projetam que o filme não conquistará nenhuma estatueta — apesar da campanha conduzida pela distribuidora Neon, descrita como superior a qualquer outra já feita para um título brasileiro no Oscar.
Para a imprensa especializada, O Agente Secreto não vencerá nem mesmo na categoria de melhor filme internacional — que, acredita-se, concentra as maiores chances do longa de Kleber Mendonça Filho —, perdendo para o norueguês Valor Sentimental.
Contudo, Matheus Machado destaca que as projeções não exercem tanta influência sobre a votação e não precisam ser encaradas ao pé da letra, pois há espaço para surpresas:
— Mantenho a crença em uma possível vitória como melhor filme internacional, que considero a categoria mais acessível para nós. A disputa está centralizada entre O Agente Secreto e Valor Sentimental, dois filmes excelentes. Talvez, por Valor Sentimental contar com atores mais conhecidos pela Academia, possa ter alguma vantagem. Mas acredito que O Agente Secreto tem boas chances.
Seja qual for o resultado anunciado no domingo, Machado afirma que o mérito de Wagner Moura e O Agente Secreto já está posto. Para ele, o recorde de quatro indicações conquistadas pelo filme prova que o cinema nacional possui qualidade para disputar em pé de igualdade com as produções de Hollywood.
— O legado dessa campanha é entendermos que no cinema brasileiro temos filmes de extrema qualidade. Não devemos nada para nenhum dos outros indicados, seja em atuação, roteiro ou direção. É um reconhecimento da nossa potência enquanto indústria cinematográfica.




