
Se Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura dominam as atenções pelas quatro indicações de O Agente Secreto ao Oscar 2026, outro brasileiro também está na disputa: o diretor de fotografia Adolpho Veloso, indicado por seu trabalho em Sonhos de Trem, produção da Netflix.
O paulistano terá pela frente um páreo duríssimo: Michael Bauman, por Uma Batalha Após a Outra, e Autumn Durald, por Pecadores, lideram as previsões do site especializado Gold Derby – o primeiro tem 43,75% e o segundo, 40,51%. Adolpho Veloso aparece fechando o pódio, com 15,05% de chances.
O próprio Veloso, em entrevista para à BBC, acredita que as suas chances são pequenas de sair vitorioso na noite deste domingo (15) – e diz até torcer para que, caso não ganhe, o prêmio fique com Autumn Durald. Ainda assim, afirma estar engajado na campanha.
— A única coisa que eu não faço e político faz é comer pastel e abraçar criança, porque o resto estou fazendo tudo. É um trabalho muito mais difícil do que filmar — afirma. — Me disseram que, se eu não fizesse nada, teria 0% de chance; se fizesse tudo o que me pedissem, teria 5%.
Mesmo que não leve a estatueta do careca dourado, Veloso já entrou para a história do Oscar ao se tornar o primeiro brasileiro nomeado para a categoria de melhor direção de fotografia. Mas, afinal, o que faz o trabalho de Veloso ser tão especial?
Para começar, Sonhos de Trem foi filmado, de acordo com o próprio artista, com 99% com luz natural em locações no noroeste dos Estados Unidos, trazendo uma atmosfera etérea para as memórias do protagonista Robert Grainier (papel de Joel Edgerton). É um trabalho que demanda tempo, já que depende inteiramente da natureza para a captação das cenas.
— É tudo muito naturalista. Foi feito de verdade. A gente tinha um plano, queríamos estar no lugar certo na hora certa, evitamos filmar cenas externas com o sol muito alto, com a luz muito dura, então procurávamos o pôr do sol. A gente trabalhou quase o filme todo com luz natural. Não tem interferência de luz artificial ou efeitos especiais — diz Veloso para a BBC. — É difícil não ter o controle, estar à mercê de estar chovendo, de o céu nublar, mas é mais inspirador estar no mundo real.
Quando a delicadeza vira vantagem

O diretor de fotografia Alex Sernambi, que trabalhou em clássicos gaúchos como O Homem Que Copiava (2003) e Meu Tio Matou um Cara (2004), reforça que o desempenho de Veloso em Sonhos de Trem, realmente, traz um olhar mais contemplativo e existencial. É nessa escolha do brasileiro que a produção ganha força.
— O trabalho de Veloso remete ao naturalismo de Néstor Almendros, fotógrafo cubano que dirigiu a foto de Cinzas do Paraíso, do Terrence Malick, que foi oscarizado. Me chamou atenção também o uso da luz fria e rebaixada para expressar melancolia. Ou seja, teve a sensibilidade de entender que a narrativa não precisava de estilismos forçados, que uma imagem orgânica teria muito mais impacto emocional — explica Sernambi.
Bruno Polidoro, que comandou a fotografia de sucessos recentes do cinema do Rio Grande do Sul, como A Nuvem Rosa (2021) e A Primeira Morte de Joana (2021), detalhou que Veloso manipula a luz de forma a evidenciar a força da natureza, conseguindo extrair mistério e intimidade através da imagem. O profissional acredita que o colega paulista consegue "congelar" a luz, mesmo sendo natural, fazendo com que a cena transcorra de maneira quase "mágica".
— Com a sua fotografia, Adolpho consegue inserir os personagens dentro desses universos que são muito únicos e efêmeros. Ele vê essa luz natural com muito afeto, de uma forma bela, densa. Ele também consegue trabalhar momentos mais frios, por exemplo, com cenas com fogo, que são super alaranjadas, gerando um altíssimo contraste.
Sobre as chances de Veloso no Oscar, Polidoro avalia que o desafio será grande, mas acredita que o trabalho do brasileiro pode fazer frente justamente por ser mais delicado:
— Ele se destaca justamente porque traz essa imagem que é um pouco mais etérea, talvez seja até pela experiência no Brasil, por não ter tanta estrutura, fazendo uma fotografia um pouco mais sincera, com um olhar humano, de saber esperar o momento em que o céu vai estar com uma densidade que combina com a cena. Ele respeita o tempo e a estética das coisas, diferentemente dos concorrentes, que trazem fotografias muito mais carregadas, muito menos delicadas.
Veja como assistir ao Oscar pelo Grupo RBS
- Gaúcha, GZH, Atlântida e ATL TV se reúnem em uma transmissão para comentar a principal cerimônia do cinema mundial neste domingo
- A transmissão começa às 19h30min no YouTube de GZH e ATL TV
- Também haverá cobertura na Rádio Gaúcha a partir das 20h
- Para quem não puder acompanhar ao vivo, no dia 16 de março, às 12h30min, haverá uma live com resumo dos melhores momentos no YouTube da ATL TV
Outros locais de transmissão
- A TV Globo transmite o Oscar 2026, logo após o Fantástico (por volta das 21h)
- A TNT fará a transmissão a partir das 18h30min, com o pré-show (tapete vermelho)
- Também é possível acompanhar o evento pelo streaming, nas plataformas da Globoplay e da HBO

