
Casting, direção de elenco, seleção de elenco ou escalação de elenco: a categoria do Oscar é tão nova que ainda não há consenso sobre como chamá-la no Brasil. Porém, logo na estreia na premiação — que será realizada neste domingo (15), em Los Angeles —, o país já terá representante: o carioca Gabriel Domingues, 36 anos, por seu trabalho em O Agente Secreto.
Ele atua como diretor de elenco e acumula trabalhos como pesquisador e roteirista — como foi em Corpo Elétrico (2017) e Baby (2024). Domingues começou na função como assistente na seleção de elenco em Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, mesmo diretor de O Agente Secreto.
Ao longo dos anos, esteve por trás da curadoria de atores para produções nacionais elogiadas, como Divino Amor (2019), Propriedade (2022) e O Último Azul (2025), além de minisséries como Cangaço Novo, Pssica e Brasil 70: A Saga do Tri, que deve chegar à Netflix em maio.
Diretor de elenco do thriller político que representa o Brasil em quatro indicações da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (melhor filme, melhor ator com Wagner Moura, melhor filme internacional e melhor direção de elenco), Domingues foi quem reuniu o time de atores que sustenta a história ambientada no Brasil dos anos 1970.
Se O Agente Secreto receber a estatueta na categoria de direção de elenco, é ele quem subirá ao palco do Teatro Dolby, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Em entrevista a Zero Hora, Domingues falou sobre a indicação, sobre O Agente Secreto e seu trabalho na direção de elenco.
Leia a entrevista com Gabriel Domingues

Como é concorrer ao primeiro Oscar de direção de elenco? Sente que está fazendo história?
Essa sensação de estar fazendo história é muito pesada. É um jeito simples para descrever a complexidade das coisas que estão acontecendo comigo. Tento lidar com isso dentro de uma certa normalidade, dia após dia.
Nas primeiras vezes em que fui a Los Angeles, estava muito concentrado em pleitear minha indicação. Participei de um evento chamado "Bake-Off", em que você faz uma defesa de seu trabalho no filme. Foi uma luta, algo bem exigente do ponto de vista físico e psicológico. Depois que rolou a indicação, pensei: "Algo deu certo aqui".
Entre os outros quatro filmes indicados, os casting directors têm muitos anos nessa carreira. São responsáveis pela inclusão da categoria na premiação, se engajando no lobby. Então, tive que chegar lá, compreender o que é Hollywood, quem são as pessoas que estão lá fazendo o babado para a roda girar. Foi muita coisa para assimilar. O Oscar tem muitas regras até entender como funciona a votação, as etapas, enfim.
Tenho uma carreira muito consolidada no Brasil, mas lá fora ninguém me conhecia. Houve um trabalho muito brutal da Neon (distribuidora internacional do filme) de publicizar minha imagem e meu trabalho.
GABRIEL DOMINGUES
Diretor de elenco de "O Agente Secreto"
Com a criação da categoria no Oscar, pode haver mais reconhecimento da direção de elenco como peça criativa fundamental, a exemplo da fotografia e da direção de arte?
Essa é a grande questão. Talvez já fosse fundamental porque não acho que seja possível fazer um filme sem alguém responsável por escalar os atores. Por alguma razão histórica, que não sei qual é, as figuras que tinham essa responsabilidade eram menosprezadas. Não havia o reconhecimento da importância da função. Quando a Academia do Oscar reconhece, portanto, significa que vai reverberar em muitos lugares, inclusive no Brasil.

Você declarou em entrevista que durante muito tempo a direção de elenco era vista como algo prático, mas é um trabalho com assinatura. Poderia falar sobre isso?
Tudo depende do projeto, mas acho que talvez meu trabalho tenha se consolidado muito com Cangaço Novo, por conhecer atores de João Pessoa (PB), Natal (RN), Recife (PE) e de Alagoas. Pude trazer muita gente interessante.
Essa é a função de alguém que faz casting/direção de elenco: ir além do sentido da representação humana do projeto. Sempre pode ser mais verdadeira e aproximar do que realmente é a essência.
GABRIEL DOMINGUES
Diretor de elenco de "O Agente Secreto"
O Brasil tem uma complexidade. É muito comum pessoas que vivem no Sudeste rodarem filmes e séries na Amazônia, no Nordeste, no Cerrado, enfim, em diferentes lugares do país. Só que em cada local a população brasileira tem características fenotípicas e físicas muito específicas.
Cabe a quem está fazendo casting refletir sobre isso, por uma questão geopolítica do projeto. É uma geografia humana no Brasil. Fizemos isso muito bem em muitos projetos: Central do Brasil, Pixote e Cidade de Deus são ótimos exemplos disso.
Acho que essa assinatura aparece quando alguém pensa nessa geografia humana, levando em consideração várias questões econômicas, políticas e culturais. É um trabalho complexo, que tem muito a ver com antropologia, etnografia, sociologia, com pensamento crítico em relação à sociedade brasileira.
Você está concorrendo por O Agente Secreto, que tem um elenco que mistura nomes estabelecidos, como Wagner Moura e Maria Fernanda Cândido, com rostos novos. Como foi o trabalho com Kleber?
Kleber escreveu um roteiro poderoso e fascinante. Ele estava bastante seguro do que queria. Por exemplo, tem aquele personagem que o Udo Kier faz, um costureiro alemão que mora em um sobrado no centro de Recife, casado com um homem negro brasileiro. Os policiais vão lá com o (personagem de) Wagner para fazer chacota do costureiro, uma cena superbizarra.
Me questionei na primeira vez que li isso no roteiro, pois não entendia a função dessa cena nessa história, para onde isso iria. Porém, Kleber tinha muita segurança de que era algo muito importante para o projeto. E ele falava detalhadamente como deveria ser o marido e o personagem do Udo. Kleber estava muito possuído pela própria onda e pela própria aspiração nesse filme. Discutíamos detalhadamente cada personagem nas nuances e nas possibilidades.
Que outros exemplos poderia dar?
O papel do Gabriel Leone era importante que fosse interpretado por um grande ator, porque não possuía muita fala, mas tinha presença cinematográfica. Gabriel fez algo incrível.
Agora, para outros papéis, a gente podia experimentar pessoas que a gente não conhecia ainda. Tânia Maria já era alguém com quem o Kleber tinha trabalhado desde sempre, é maravilhosa e fascinante. É muito importante, na verdade, porque se a pessoa vai ver um filme que só tem gente que ela conhece, pode ser um pouco cansativo.

Alguma expectativa para o Oscar?
Nunca assisti ao Oscar na vida. Verei pela primeira vez só agora, ao vivo. Nunca acompanhei a temporada de premiações. Nem o Globo de Ouro, nem nada.
Também nunca torci para nada, o que é muito curioso. Não tenho time de futebol, não torço para o Brasil na Copa do Mundo. Não estou acostumado a torcer para coisas, não opero dessa maneira.
Vejo que as pessoas estão torcendo muito agora, assim como foi no ano passado (quando Ainda Estou Aqui ganhou o Oscar de melhor filme internacional). É óbvio que fiquei feliz pela produção brasileira, o filme é bom e as pessoas estão reconhecendo isso, mas não assisti (ao Oscar). Não sou uma pessoa da torcida. Agora estou tendo que ver tudo isso, o que é muito louco.
É o segundo ano consecutivo do Brasil sendo representado no Oscar. O audiovisual nacional vive um bom momento, mas ainda enfrenta barreiras estruturais. Como você enxerga esse momento?
Precisamos de um investimento sério e rigoroso a longo prazo, que sustente uma cultura cinematográfica sólida. Vivo de cinema há 11 anos, me alimento trabalhando com cinema, e boa parte dos meus amigos também vive assim. Só que precisa ser reconhecido como uma indústria. Já está mais do que comprovado que é uma indústria que tem um entorno, que é tão importante quanto a indústria automobilística. Precisa ser levada a sério.
Tem um lugar cultural no Brasil de imaginar o trabalho com cinema como uma coisa lúdica, quase como crianças brincando de fazer filme, o que é problemático.
Convivendo com os americanos, vejo como foi importante eles criarem aquele aparato bilionário para fazerem esse domínio cultural de soft power.
GABRIEL DOMINGUES
Diretor de elenco de "O Agente Secreto"
Se a gente conhece todos os detalhes da cultura dos americanos, é porque a gente viu muita série, muito filme etc. Eles exercem o domínio político do mundo com o audiovisual, com as narrativas, com a contação de histórias e tudo mais. E a gente aqui no Brasil não entendeu isso ainda.
Aí a gente teve falta de investimento de quatro anos de um governo horroroso, que era inimigo da cultura. Apesar disso, conseguimos nos reerguer e fazer todos esses filmes maravilhosos e séries incríveis. Somos muito resilientes. É preciso que haja um espaço sagrado de segurança, de garantir que a cultura visual permaneça saudável, livre, diversa, rica e descentralizada, que cubra todo o território.
Não à toa, um filme de Recife está indicado ao Oscar. São vários pontos de vista diferentes do Brasil para serem contados. Temos muita vida.
GABRIEL DOMINGUES
Diretor de elenco de "O Agente Secreto"

Voltando no tempo, o que o atraiu para trabalhar com cinema e como começou na direção de elenco?
Meu pai me levava muito ao cinema, mas decidi que queria trabalhar com isso quando vi Kill Bill em um cinema de rua aqui no Rio de Janeiro (RJ).
Cursei Comunicação Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com especialização em Audiovisual. Depois fiz um curso de roteiro na (Escola de Cinema) Darcy Ribeiro. Eu escrevia na época por conta do meu interesse por literatura.
Nesse contexto, conheci o Marcelo Caetano, com quem escrevi dois filmes: Corpo Elétrico (2017) e Baby (2024). Ele dirigiu ambos. Na época de Corpo Elétrico, fui para São Paulo trabalhar no roteiro e na pesquisa do longa. No mesmo período, Kleber (Mendonça Filho) estava fazendo Aquarius e chamou o Marcelo para fazer o casting. Então, fui assistente de casting. Foi o meu primeiro trabalho nesse campo.
O cineasta Fernando Meirelles descreveu você da seguinte maneira: "O cara é o melhor, não sei onde acha tanta gente boa e desconhecida". Seu próximo projeto a ser lançado é "Brasil 70: A Saga do Tri", em maio, pela produtora O2, de Meirelles. O que foi necessário para a construção desse elenco?
É uma série da Netflix gigantesca sobre a Copa do Mundo de 1970 que foi muito difícil de trabalhar nesse aspecto de elenco, pois tivemos que fazer a escalação de toda a Seleção Brasileira da época. As pessoas tinham que atuar e jogar bola. Precisavam de um nível muito específico de domínio da prática do futebol. Foi muito surto (risos). Levou meses, houve muita luta, mas a gente conseguiu. A Netflix ficou superfeliz.
Falando em minissérie da O2, "Pssica" chegou há alguns meses à Netflix. O thriller se passa nas profundezas da Amazônia paraense, abordando o tráfico humano. Qual foi o desafio aqui?
Também foi difícil, pois é uma série gigantesca, com uma protagonista que precisava ser menor de idade na trama, mas que seria interpretada por alguém com mais de 18 anos (Domithila Cattete, que vive Janalice). É algo que quase não existe. Para você achar essa protagonista, é como achar um Wagner Moura. Porém, foi um dos melhores projetos que já fiz.
Essa é a coisa boa de fazer séries que têm muito orçamento e tempo, com uma pesquisa muito legal. Fui para Belém (PA) e fiquei lá com um mergulho bem profundo na cena. Depois, fui para Manaus (AM), uma cidade incrível.
Acho que por isso tenho sido bem-sucedido fazendo meu papel no casting, pois tenho muita curiosidade. Não chego a Belém falando "eu sei fazer algo que vocês não sabem". Eu quero ver, entender e aprender.
GABRIEL DOMINGUES
Diretor de elenco de "O Agente Secreto"
É necessário ter humildade para chegar aos lugares e não achar que está acima de alguém. É uma questão do audiovisual brasileiro, que é muito concentrado no Sudeste, mas o Brasil é gigante e muito rico.



