
O Agente Secreto já está na história do cinema brasileiro. O filme de Kleber Mendonça Filho conquistou quatro indicações ao Oscar, igualando o recorde de Cidade de Deus na premiação de 2004, mas com nomeações consideradas mais importantes: melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco e melhor ator, para Wagner Moura.
É motivo suficiente para comemorar, ainda mais vindo na esteira de um 2025 fantástico, com o prêmio inédito conquistado por Ainda Estou Aqui: o de melhor filme internacional. Mas será que o longa-metragem que se passa em Recife vai conseguir repetir o feito do seu parceiro que veio no ano anterior e deixar os brasileiros ainda mais orgulhosos?
A briga pelo prêmio principal, o de melhor filme, é algo muito difícil de ocorrer, por conta da força dos concorrentes — e seus orçamentos pomposos. Uma Batalha Após a Outra e Pecadores faturaram distinções que servem como termômetros para o Oscar — como os prêmios dos sindicatos dos produtores e dos atores, respectivamente, além de terem obtido grande destaque no Bafta.
Na quarta-feira (11), no Gold Derby, site especializado em previsões para as premiações, O Agente Secreto foi colocado em quarto lugar na corrida pela principal estatueta da noite, mas com apenas 0,6% de chances. Uma Batalha Após a Outra domina com 76%, enquanto Pecadores vem na sequência, com 21,2%. Hamnet fecha o pódio, bem distante das cabeças, com 1,2%.
Logo, este é um sonho muito distante, mas as outras categorias podem guardar boas surpresas para o Brasil. Para o montador e professor do curso de Realização Audiovisual da Unisinos Milton do Prado, ao contrário de festivais, em que os jurados se reúnem e debatem sobre quais filmes serão premiados, o Oscar conta com mais de 10 mil votantes ao redor do mundo, o que pode trazer alguma imprevisibilidade.
— Temos duas categorias mais possíveis: de melhor filme internacional e de melhor ator, para Wagner Moura. Mas vale lembrar que ele está um páreo duro. Para se ter uma noção da dificuldade, o Leonardo DiCaprio é o azarão. O Michael B. Jordan está muito bem em Pecadores e acabou de ganhar o prêmio do Sindicato dos Atores, enquanto o Timothée Chalamet está em evidência, é ambicioso — comenta.
Rodrigo de Oliveira, crítico de cinema, editor-chefe da revista Almanaque21 e votante do Globo de Ouro, premiação da qual Moura saiu prestigiado, diz que o ator baiano tem algumas armas que o colocam em evidência na temporada de premiação. E isso pode ter reflexo na escolha dos votantes da Academia:
— O Wagner Moura tem um carisma de milhões. Ele vai nos lugares, dá entrevistas, sempre bem recebido, conversando muito bem e com uma simpatia muito grande. Isso também ajuda. E outra coisa que é importante é a própria força do brasileiro que, no ano passado, com Ainda Estou Aqui, mostrou-se ativo nas redes sociais. Então, os programas de televisão e as revistas entenderam que damos muito engajamento. Isso coloca o ator em evidência, com mais votantes indo assistir ao filme, até por curiosidade, o que aumenta as chances do Wagner.
Oliveira aponta que a atuação do protagonista de O Agente Secreto é contida e naturalista, o que é mais difícil de entregar. E isso o diferencia na disputa, uma vez que, para desenvolver este tipo de performance, o ator tem que "incorporar o personagem".
— Inclusive, para as ceninhas que o Oscar divulga para mostrar o ator indicado, a pessoa aparece geralmente gritando ou em uma cena que tem um grande movimento emocional. Já a que selecionaram do Wagner é a dele falando que não é um homem violento, mas que mataria uma pessoa com um martelo. Só que ele não fala isso raivoso. É muito calculado, ele está pensando no que está falando. Ele não usa as palavras de maneira leviana. Isso gera um impacto — diz Oliveira.
Moura aparece, no Gold Derby, na terceira posição na corrida pelo careca dourado de melhor ator, com 10,1%. B. Jordan lidera, com 56,4%, seguido por Chalamet, que vem com 30,1%.

Campanhas
Os dois títulos que estão liderando as predileções para o Oscar de melhor filme internacional são o norueguês Valor Sentimental, com 71,8%, e O Agente Secreto, em segundo lugar, com 26,1% das chances. É distante, mas se trata do melhor desempenho do filme nacional na disputa por uma estatueta na premiação.
E alguns pontos ajudam a nutrir esta esperança. A Neon, distribuidora internacional do longa-metragem brasileiro, também é responsável por Valor Sentimental. Ainda assim, a empresa não priorizou apenas um título na campanha nos Estados Unidos, deixando ambos os títulos em pé de igualdade — mesmo que o norueguês tenha conquistado nove nomeações.
— Tanto Valor Sentimental quanto O Agente Secreto tiveram forte penetração nos Estados Unidos. E um amigo meu de Los Angeles fala que, nas últimas semanas, O Agente Secreto estava aparecendo mais por lá. Valor Sentimental teve mais indicações, claro que isso pesa, mas essa arrancada final pode fazer diferença para o brasileiro — conta Milton.
Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, então, abraçaram a divulgação do filme, aproveitando todos os espaços disponíveis. Fizeram sessões comentadas, participaram de talk shows, posaram para ensaios de revistas, gravaram conteúdos para as redes sociais. E este tipo de ação engrandece o longa-metragem e faz cair nas graças dos votantes, que valorizam deste tipo de dedicação e proximidade dos envolvidos na produção.
— É importante apontar também que a votação já se encerrou, mas, durante o período de votação, mais pessoas viram O Agente Secreto porque ele foi indicado ao prêmio de melhor filme. Isso sempre é muito importante, porque os membros da Academia têm que assistir a esses 10 filmes, pelo menos, para votar. Então, nesta reta final, o longa brasileiro foi bem visto e teve muita exposição. E isso pode fazer com que o votante decida optar pelo filme nacional — enfatiza Oliveira.

O ineditismo
A nova categoria do Oscar que, no Brasil, entre vários nomes, está sendo chamada de melhor direção de elenco, tem O Agente Secreto como um dos concorrentes. E, como é inédita, os especialistas ainda não sabem exatamente quais os critérios que os votantes vão priorizar na hora da escolha do vencedor.
— Pecadores tem essa visibilidade recente de vencer a categoria no Sindicato dos Atores. Mas essa é uma categoria que a gente não entende como os votantes se comportam ainda. Eu diria que está mais para Pecadores do que para O Agente Secreto, mas ainda está em aberto — salienta Milton.
No momento, no Gold Derby, o filme brasileiro aparece como a segunda opção, mas com apenas 3,81% das chances. Pecadores lidera de muito longe, somando 90,5%. Apesar disso, por não haver precedente, O Agente Secreto pode ainda estar no páreo.
— Será que os membros da Academia vão decidir premiar a força do elenco? A maneira como escalaram atores que não são tão conhecidos para fazer um filme que seja coeso? Vai ser pelos nomes? A gente não sabe direito. Então, com isso, talvez O Agente Secreto possa surpreender. Acho que essa é a carta coringa — completa Rodrigo.
Veja como assistir ao Oscar pelo Grupo RBS
- Gaúcha, GZH, Atlântida e ATL TV se reúnem em uma transmissão para comentar a principal cerimônia do cinema mundial neste domingo
- A transmissão começa às 19h30min no YouTube de GZH e ATL TV
- Também haverá cobertura na Rádio Gaúcha a partir das 20h
- Para quem não puder acompanhar ao vivo, no dia 16 de março, às 12h30min, haverá uma live com resumo dos melhores momentos no YouTube da ATL TV
Outros locais de transmissão
- A TV Globo transmite o Oscar 2026, logo após o Fantástico (por volta das 21h)
- A TNT fará a transmissão a partir das 18h30min, com o pré-show (tapete vermelho)
- Também é possível acompanhar o evento pelo streaming, nas plataformas da Globoplay e da HBO



