
A mobilização em torno de O Agente Secreto ao longo da temporada de premiações evidenciou a dimensão que o filme alcançou. Mesmo sem conquistar estatuetas no Oscar 2026, especialistas avaliam que a projeção internacional e o debate em torno da obra já representam um marco para a visibilidade do cinema brasileiro dentro e fora do país.
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o longa fez história ao receber quatro indicações na premiação. Para o jornalista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), Daniel Rodrigues, o cenário já era considerado menos favorável em algumas categorias.
— O Oscar de melhor filme internacional, que acredito que fosse a categoria com mais chance, ficou muito bem dado. É doloroso dizer isso, mas Valor Sentimental é um ótimo filme, essencial para tempos como os de hoje. O que, para mim, ficou mais como uma pena foi o de melhor ator, porque acho que o Wagner Moura, por merecimento, deveria ter ganho — avalia.
Rodrigues explica que o Oscar costuma ser uma premiação marcada por circunstâncias que vão além da qualidade das atuações ou do filme em si. Fatores como o momento da indústria, o histórico dos indicados, as campanhas de divulgação e até polêmicas externas podem influenciar o resultado. Nesse contexto, critérios de mérito artístico nem sempre são os únicos determinantes.
Ainda assim, a cineasta e professora do curso de Produção Audiovisual da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Daniela Israel, comemora o rigor cinematográfico de O Agente Secreto e acredita que essa valorização é importante para consolidar o espaço que o cinema nacional vem conquistando:
— Para competir de igual para igual com o cinema norte-americano, a gente precisa de um desenvolvimento na indústria audiovisual brasileira, de recursos, de qualidade técnica. Chegar ao Oscar com quatro indicações é uma comprovação da crescente capacidade técnica de a gente fazer mais e melhor. Isso já é um grande mérito de vencer aquelas barreiras de que o cinema brasileiro é ruim.
Novos polos do cinema brasileiro

Marcada pelo reconhecimento internacional e por uma sequência de prêmios, incluindo o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards, a trajetória do longa representa um ganho relevante para o audiovisual brasileiro. Especialistas defendem que a visibilidade do filme abre portas no mercado internacional, reforça o interesse por produções feitas no país e deveria ser motivo de orgulho para os brasileiros.
— É uma questão de a gente fazer as pazes com a gente mesmo. De olhar para o Oscar, que é uma competição clássica, e mostrar o que a gente está fazendo, que existe algo no cinema brasileiro que está diferente, que vale dar uma chance. Ter entrado com um filme do Kleber mostra que além da capacidade técnica, a gente tem variações de linguagens, e traz essa perspectiva de que o cinema brasileiro não vive só nos grandes centros (Rio de Janeiro e São Paulo) — pontua Daniela.
Para Rodrigues, o fato de o Brasil ter estado por dois anos consecutivos no Oscar e de ter ampliado o número de indicações em comparação com Ainda Estou Aqui já simboliza a evolução do cinema brasileiro, que, na visão dele, tende a ser muito beneficiado por essa exposição.
É uma prova de maturidade do cinema brasileiro estar figurando tanto no Oscar e em diversos outros festivais e premiações no mundo. Isso nos coloca em uma prateleira de grande valor. O Wagner Moura, por exemplo, já está dentro da indústria do cinema norte-americano. Ele já não é mais um estranho, então isso já está abrindo portas. Outros atores, como o Selton Mello, estão ascendendo de novo dentro do cinema norte-americano, e uma série de técnicos e profissionais que, com certeza, vão ser cogitados para trabalhar em produções internacionais.
DANIEL RODRIGUES
Presidente da ACCIRS
Além disso, a projeção internacional, o reconhecimento em diferentes festivais e o debate em torno das produções nacionais ajudam a atrair a atenção de investidores, distribuidores e plataformas, além de estimular novos projetos. Especialistas enfatizam que momentos de destaque como esse ampliam as oportunidades de financiamento, incentivam a criação de outras obras e contribuem para consolidar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do audiovisual brasileiro.
Como não existe cinema sem público, a jornalista e cineasta Camila de Moraes destaca que um dos efeitos mais imediatos dessa visibilidade é despertar o interesse dos espectadores. Segundo ela, quando produções brasileiras ganham destaque em premiações internacionais, cresce a curiosidade do público e o movimento em torno das obras que circulam nesse mesmo circuito. Para Camila, esse processo gera um ganho cultural mais amplo.
— Isso faz com que seja um incentivo para que a população brasileira consuma mais obras audiovisuais. Essas premiações ajudam até no senso crítico, porque, no domingo (15), percebemos a qualidade das críticas, da população assistindo a essa cerimônia e dialogando sobre os aspectos técnicos e narrativos das obras que estavam concorrendo. E conseguindo fazer, também, comparações com produções brasileiras, sobre o quão qualificadas são — defende Camila.

