Dezoito anos após a estreia de Crepúsculo (2008), o filme que marcou uma geração segue mobilizando o público. Nessa quinta-feira (19), o longa voltou aos cinemas para celebrar as duas décadas da série literária de Stephenie Meyer, que deu origem à saga. O segundo título da saga, Lua Nova (2009), será reexibido em abril.
O relançamento atrai tanto fãs que acompanharam a história desde o início quanto novos espectadores interessados na experiência coletiva das telonas. A iniciativa acompanha uma tendência crescente de resgatar sucessos do passado, apostando na nostalgia e na renovação de público para levar produções consagradas de volta às salas.
— Eu sou muito fã, desde nova. Terminava o filme e botava de novo para olhar. Mas só em casa. Estou muito ansiosa, acho que vai dar uma nostalgia — afirmou a designer de sobrancelhas Kimberly Castro, de 24 anos, que foi ao GNC Cinemas do Shopping Praia de Belas, na noite desta quinta-feira, para rever o filme nas telonas.

Para especialistas, a possibilidade de revisitar fases da vida, como a adolescência ou a infância, e de se reconectar com sentimentos e referências daquele período ajuda a explicar o apelo das reexibições. Ao reviver histórias que marcaram uma geração, o público reencontra não apenas o filme, mas também a atmosfera de uma época que segue afetivamente relevante.
Apesar das discussões sobre seu rigor cinematográfico, Crepúsculo – com vampiros e lobisomens – tornou-se um fenômeno desde a estreia. O historiador da arte e professor de Cinema e Realização Audiovisual (Crav) da Unisinos, Giordano Gio, destaca o sucesso especialmente entre aqueles que viviam o início da juventude à época, o que ajuda a explicar o interesse que persiste quase duas décadas depois.
— Os adolescentes que acompanharam muito provavelmente estão próximos dos 30 anos agora. Tem um aspecto nostálgico, que se volta para o imaginário do que esses espectadores construíram na infância e na adolescência; tem essa tendência de retorno da década de 2000, que vemos na moda, na música; e, também, o interesse dos mais jovens, de assistir algo que era popular e de se conectar com o que os mais velhos gostavam — acrescenta o docente.
A servidora pública Juliana da Rosa Bueno, de 42 anos, levou a filha, de 14, para assistir ao longa. Apesar de ter nascido quatro anos após o lançamento do primeiro filme, a adolescente é fã da saga:
— Assim que aprendeu a ler, foi um dos primeiros livros que ela pegou. Eu até achei muito grande, que ela não ia conseguir, mas ela amou. A dinda dela assistia e apresentou para ela. Eu já vi o filme algumas vezes, mas só para acompanhar. Agora, é como se ela estivesse realizando um sonho de assistir sem ser na televisão de casa — contou a mãe da jovem.
O interesse duradouro também se explica pela forma como o filme ainda dialoga com o presente, defende o professor da Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da PUCRS Fabiano Grendene. Muitos dos dilemas continuam atuais, assim como o engajamento em torno dos personagens e dos fandoms – que, à época, se dividiam entre Team Edward (Robert Pattinson) e Team Jacob (Taylor Lautner), na disputa pelo amor de Bella (Kristen Stewart).

— Não assisti no cinema porque, quando lançou, eu era muito nova. Conheci a saga no colégio, o pessoal falava bastante. Marcou minha adolescência. Mas eu sempre fui Team Bella — brinca a estudante Kelly Ramos Henrique, de 29 anos.
A combinação de uma história envolvente com esse senso de pertencimento coletivo mantém o apelo da saga mesmo anos depois, entre públicos de diferentes idades.
— Quando relança um filme, leva os espectadores para um tempo em que eles eram mais jovens, tinham uma vida diferente. Ao revisitar a obra, eles também recuperam relações, laços e lembranças associados àquela história e àqueles personagens. Na época do lançamento, os diretores e as diretoras já sabiam que o casal principal era formado por ótimos atores e que valeria a pena acompanhar suas carreiras no futuro, como temos visto em outros trabalhos — pontua Grendene.
Por que a onda de reexibições faz sentido agora?
Crepúsculo não é um caso isolado. Nos últimos anos, grandes redes de cinema têm apostado no relançamento de títulos consagrados, como O Bebê de Rosemary (1968), Orgulho e Preconceito (2005) e Kill Bill Vol. 1 e Kill Bill Vol. 2 (2003 e 2004).
Em alguns casos, as reprises se apoiam em datas comemorativas, como o Halloween, ou em aniversários de estreia; em outros, surgem com propostas diferentes, como a exibição conjunta dos dois volumes de Kill Bill em uma única sessão. Há ainda situações em que o retorno às telonas ocorre sem um gancho específico, reforçando o apelo contínuo dessas obras junto ao público.
— Durante muito tempo, até os anos 1980, isso era bem mais comum, porque os filmes só passavam no cinema. Mas, de uns anos para cá, tem tido muitos relançamentos. Acho que parte é por uma certa crise criativa que o cinema hegemônico vem passando e a bilheteria tem esfriado. Também existe uma preocupação em manter vivas propriedades intelectuais, como franquias como Harry Potter e Senhor dos Anéis, que também tiveram reexibições recentes, por exemplo — explica Gio.
Além disso, o sucesso dessas reexibições também está ligado à forma como o público consome audiovisual hoje. Grendene ressalta que, com o avanço do streaming, a ida ao cinema deixou de ser a principal forma de acesso aos filmes, e as sessões especiais acabam recuperando esse caráter de experiência compartilhada e imersiva.
— Ao rever um filme conhecido no cinema, a pessoa vai experienciar a possibilidade de voltar a ficar duas horas em companhia, no escuro da sala de cinema, sem celulares. Isso é algo que hoje tem um peso diferente na forma como a gente consome imagens — conclui o professor da PUCRS.



