
Independentemente do que acontecer no Dolby Theatre, em Los Angeles, no dia 15 de março, O Agente Secreto já fez história. Nesta data, o filme concorre a quatro estatuetas na 98ª edição do Oscar – número que empata com as indicações recebidas por Cidade de Deus em 2004.
Dirigido por Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto foi indicado às categorias de melhor filme, melhor filme internacional, melhor elenco e melhor ator, tornando Wagner Moura o primeiro brasileiro nomeado na categoria. Já Cidade de Deus concorreu nas categorias de direção (Fernando Meirelles), roteiro adaptado (Bráulio Mantovani), montagem (Daniel Rezende) e fotografia (César Charlone).
Para Daniel Rodrigues, jornalista e presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs), a principal diferença é que, desta vez, o representante brasileiro tem mais chances reais de vitória em ao menos uma categoria – ele aposta em melhor filme internacional. Cidade de Deus não conquistou estatuetas naquela ocasião.
— Isso mostra que estamos num momento muito mais maduro do cinema brasileiro em relação à sua visibilidade internacional — ressalta. — Somado ao sucesso de Ainda Estou Aqui (que venceu na categoria de melhor filme internacional em 2025) desde o ano passado e de vários outros filmes brasileiro, fica claro que estamos em um momento histórico para o cinema do país.
Fernando Meirelles, que dirigiu Cidade de Deus com Kátia Lund, avalia que esse reconhecimento do cinema brasileiro no último biênio indica que o país vive um ciclo virtuoso.
— Assim como havia outros fortes candidatos no ano passado, além de Ainda Estou Aqui, este ano também há outros filmes brasileiros que estão brilhando em festivais pelo mundo, como Manas, O Último Azul ou Pequenas Criaturas — celebra o cineasta. — É mesmo uma onda que está crescendo, e espero que vire um tsunami.
Aletéia Selonk, produtora da Okna Produções, destaca que essas indicações representam muito mais do que um reconhecimento pontual a um filme específico. Para ela, sinalizam que o audiovisual brasileiro tem capacidade de disputar espaço nos maiores palcos internacionais quando há continuidade de políticas públicas, investimento, formação de profissionais e articulação entre criação e mercado.
— É um estímulo enorme para produtores, realizadores e estudantes, e também um argumento concreto sobre a importância estratégica do audiovisual como setor cultural, econômico e simbólico do país. O sucesso de O Agente Secreto abre portas, fortalece a confiança internacional no Brasil e ajuda a consolidar um caminho para que mais histórias brasileiras circulem globalmente — avalia.
De Cannes para Los Angeles
O Agente Secreto teve sua primeira exibição mundial em maio de 2025, durante o 78º Festival de Cannes. A partir do tradicional festival francês, o longa começou a pavimentar sua trajetória internacional.
Na ocasião, o filme saiu vencedor nas categorias de melhor direção (Kleber Mendonça Filho) e melhor ator (Wagner Moura), foi eleito o melhor do festival pelo júri da crítica da Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) e ainda recebeu o Prix des Cinémas Art et Essai, reconhecimento concedido por exibidores independentes da França.
Ao longo de sua jornada, O Agente Secreto também se destacou em outras premiações, acumulando dezenas de prêmios. Após vencer na categoria de melhor filme internacional no Critics Choice Awards, um dos marcos de sua campanha foi a consagração no Globo de Ouro, quando foi laureado como melhor filme em língua não inglesa e melhor ator de drama (Wagner Moura).
A jornalista e integrante do Critics Choice Cleide Klock, que vive em Los Angeles e cobre Hollywood há mais de 15 anos, aponta que um fator determinante para que O Agente Secreto chegasse a tantas indicações ao Oscar foi a campanha conduzida pela distribuidora americana Neon nos Estados Unidos.
Não por acaso, quatro dos cinco títulos que disputam a categoria de melhor filme internacional foram distribuídos pela empresa – além da produção brasileira, a Neon trabalhou com Valor Sentimental, Foi Apenas um Acidente e Sirât.
De qualquer maneira, Cleide atesta que O Agente Secreto contou com uma campanha como nenhum outro filme brasileiro já teve nos Estados Unidos.
— Foi algo mais forte do que a Sony Classics fez no ano passado por Ainda Estou Aqui. Claro, nenhuma campanha se sustenta com um filme ruim — pondera. — Trata-se de um filme incrível, que despertou muita curiosidade do público daqui. Ajuda também o fato de o Brasil ter conquistado o Oscar em 2025, o que instigou a curiosidade das pessoas para assistir ao que o país traria neste ano.
Cyntia Gomes Calhado, professora do curso de Cinema e Audiovisual da ESPM, argumenta que Kleber Mendonça Filho frequenta o Festival de Cannes desde a época em que atuava como crítico e já é um nome consolidado no evento – seus últimos longas, Aquarius, Bacurau e Retratos Fantasmas, foram exibidos no festival francês.
Consequentemente, o cineasta tornou-se uma figura estabelecida no cenário internacional. Ela ressalta ainda que Wagner Moura é um ator conhecido no mercado dos Estados Unidos, o que facilitou a difusão do longa junto ao público estadunidense.
Contudo, Cyntia faz uma ressalva:
— Quando falamos de Oscar, não se trata necessariamente de mérito ou relevância artística. Os filmes que vencem são aqueles que conseguem conduzir a campanha mais bem-sucedida.
O triunfo do diretor de elenco
Além de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, outro mérito de O Agente Secreto é o elenco – reconhecimento que resultou na indicação do filme na nova categoria dedicada à direção de elenco, assinada por Gabriel Domingos. Sócio e diretor da O2 Filmes, Fernando Meirelles conhece bem o talento de Domingos, que trabalhou em séries como Cangaço Novo, Pssica e BR 70 para a produtora.
— Ele é, de fato, genial. Basta ver o elenco dos projetos que ele tem feito. Os personagens que o Gabriel encontrou dão sabor e são muito importantes para o impacto de O Agente Secreto. Claro que isso só funciona pela ótima opção do Kleber Mendonça de dar-lhes espaço — elogia Meirelles.



