
O baiano tem mesmo o molho: depois de vencer o Festival de Cannes e conquistar o Globo de Ouro, Wagner Moura foi indicado ao Oscar de melhor ator nesta quinta-feira (22), pelo papel em O Agente Secreto, tornando-se o primeiro brasileiro nomeado na categoria.
Com mais três indicações — melhor filme, melhor filme internacional e melhor elenco —, o longa de Kleber Mendonça Filho consagra a carreira do artista soteropolitano de 49 anos, que iniciou sua trajetória nos teatros de Salvador e chegou à premiação máxima do cinema mundial.
Para o cineasta gaúcho Jorge Furtado, que dirigiu Wagner Moura em três ocasiões, todas no início dos anos 2000, a indicação ao Oscar é a coroação de um artista que sempre se mostrou excelente.
— O Wagner está onde deve estar: entre os melhores atores do mundo. Ele é um dos melhores atores do mundo, e já falo isso há algum tempo — orgulha-se.
Promissor desde a juventude
Aos 21 anos, Wagner Moura já chamava atenção na cena artística de Salvador, chegando a ganhar o troféu de ator revelação no Prêmio Braskem de 1997 pela atuação no espetáculo teatral Abismo de Rosas. Em 2000, após o sucesso da peça A Máquina, encenada ao lado dos igualmente promissores Lázaro Ramos e Vladimir Brichta, Wagner foi morar no Rio de Janeiro, onde sua carreira deslanchou.
A primeira participação em longa-metragem ocorreu naquele mesmo ano, em Sabor da Paixão. Embora o baiano tenha assumido um papel secundário, o filme era uma coprodução entre Brasil, Estados Unidos e Espanha e contava com Penélope Cruz no elenco. Serviu, assim, como um ensaio da carreira internacional que ele consolidaria tempos depois.
Em 2003, Wagner firmou seu nome no cinema nacional com papéis em filmes importantes como Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues, e o clássico Carandiru, de Hector Babenco. Também estreou na televisão aberta com participações no seriado Carga Pesada e, posteriormente, como um dos protagonistas da série de comédia Sexo Frágil.

De Capitão Nascimento a Olavo
Mas o "ano de ouro" da carreira dele até então veio em 2007, quando o ator ganhou enorme projeção com o controverso Capitão Nascimento, personagem de Tropa de Elite. No mesmo período, ele conquistou a nação noveleira do país ao interpretar Olavo, o inesquecível vilão de Paraíso Tropical, que vivia um romance apimentado com a prostituta Bebel, interpretada por Camila Pitanga.
A cineasta e crítica de cinema Kelly Demo Christ, que é diretora de comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre, enxerga 2007 como uma virada de chave na trajetória de Wagner Moura, colocando em evidência a versatilidade artística do ator.
— É interessante notar que, no mesmo ano em que interpretou o Capitão Nascimento, um personagem sério e que exigia traços de agressividade, ele também exercia a sua sensualidade na novela, naquele jogo de sedução com a Camila Pitanga — observa.

Ainda em 2007, Wagner Moura estrelou Saneamento Básico, comédia de Jorge Furtado rodada no Rio Grande do Sul. O filme também teve o protagonismo de Fernanda Torres, indicada ao Oscar de melhor atriz no ano passado, o que faz do diretor gaúcho uma espécie de "amuleto da sorte" para a presença do Brasil na premiação.
O cineasta se diverte com a alcunha, revelando que o longa estreitou seu contato com o trabalho de Wagner Moura.
— Saneamento Básico foi a nossa experiência mais intensa, por ele ser o protagonista. Naquela época, já era evidente que ele é um ator completo, que consegue transitar desde a cena dramática mais séria e intensa até o humor mais rasgado e a palhaçada. Existem atores que sempre interpretam "o mesmo papel" e os atores "de composição", que mudam completamente a cada trabalho. O Wagner pertence a esse segundo grupo; ele é muito inteligente e preparado, o que facilita a direção.

Deslanche na carreira internacional
O ano de 2007 também foi importante por aproximar Wagner Moura de José Padilha, diretor de Tropa de Elite que, anos depois, dirigiria também Narcos, série da Netflix na qual o brasileiro interpretou o narcotraficante colombiano Pablo Escobar.
Pouco antes de ganhar fama mundial com o seriado, Wagner Moura havia integrado o filme de ficção científica Elysium, produção norte-americana que o colocou em cena com Matt Damon e Jodie Foster. Entretanto, como observa Kelly Demo Christ, foi mesmo a partir de Narcos que a carreira internacional do brasileiro deslanchou.
— Diferente de Elysium, onde teve um papel secundário, em Narcos ele foi o grande protagonista. O papel de Pablo Escobar exigiu muita dedicação, incluindo aprender espanhol e ganhar peso, e Wagner mostrou que se entrega totalmente para tudo o que faz. Depois deste destaque, ele fez cada vez mais trabalhos internacionais — pontua.
Wagner Moura esteve em diversas outras produções do streaming após o sucesso de Narcos. Exemplos são Wasp Network: Rede de Espiões, filme em que contracena com Ana de Armas e Penelope Cruz; Sergio, drama biográfico sobre o diplomata Sérgio Vieira de Mello, interpretado por ele; Agente Oculto, filme de ação com Ryan Gosling e Chris Evans; e Iluminadas, série em que ele contracena com Elisabeth Moss e interpreta um jornalista brasileiro – coincidência curiosa, pois antes de investir na atuação, Wagner Moura se formou em jornalismo e chegou a trabalhar como repórter de TV.
Outro flerte com a antiga profissão ocorre em Guerra Civil, filme futurista distópico da A24 que teve uma das maiores bilheterias da produtora. No longa, Wagner Moura é um repórter de guerra que viaja pelos Estados Unidos em meio a um conflito civil, a fim de conseguir uma entrevista com o presidente.
Kelly Demo Christ destaca que, apesar do currículo de trabalhos internacionais já bastante extenso, Wagner Moura conduz com sabedoria sua carreira fora do Brasil, sem se deslumbrar com a abertura do mercado mundial.
— Ele está engajado em interpretar personagens complexos, evitando estereótipos rasos. Ele é cuidadoso nas escolhas para não ficar marcado por um único tipo de papel; pois, se o ator não tiver cuidado, a indústria pode levá-lo a reproduzir sempre o mesmo perfil. Ele atingiu um estágio que permite selecionar os projetos que quer realizar — analisa, lembrando que o artista não abandonou o mercado brasileiro, tendo estrelado filmes como Praia do Futuro e dirigido Marighella, seu primeiro longa atrás das câmeras.
Coroação em "O Agente Secreto"
A jornada de Wagner Moura é coroada em O Agente Secreto. Marcelo, protagonista da história, foi criado por Kleber Mendonça Filho para ser interpretado pelo artista, que entregou a ele diferentes camadas emocionais.
O filme é ambientado em Recife, em meio à ditadura militar, e mostra como a repressão do regime sufocou diferentes áreas da sociedade brasileira. O personagem de Wagner, um professor universitário, é mais uma das vítimas da violência – ora escrachada, ora simbólica – dos anos de chumbo.
Para Jorge Furtado, a indicação ao Oscar de melhor ator se justifica pela forma como ele conseguiu conduzir as diferentes nuances que compõem o personagem de maneira sutil e, ainda assim, visceral.
— A atuação do Wagner, assim como a da Fernanda em Ainda Estou Aqui, possui a qualidade da contenção. É difícil não exagerar ao representar situações extremas, como viver sob a perseguição de uma ditadura. Na atuação, há uma ideia de que, se o personagem chora na tela, o público não chora; mas se ele está no limite do choro, o público se emociona. O Wagner tem o controle desse limite, sabe traduzir a alma do personagem mesmo em momentos de silêncio — analisa o cineasta.

Kelly Demo Christ destaca, também, a habilidade de transformar o personagem através da composição corporal e a capacidade de modular sua performance entre diferentes gêneros no mesmo filme.
— No início, ele apresenta uma expressão corporal e, conforme os segredos do personagem são revelados, ele altera sutilmente a sua atuação para refletir uma nova identidade. Em vários momentos do filme ele transita entre o suspense e a comédia, entregando camadas que harmonizam — explica.
Para a diretora de comunicação do Clube de Cinema de Porto Alegre, a indicação de Wagner Moura ao Oscar deve ser celebrada por todos, independentemente do resultado. Mais do que uma conquista pessoal do artista, trata-se de uma vitória brasileira.
— Este destaque ajuda a combater o preconceito contra o cinema nacional, mostrando que nossas obras têm tanta qualidade quanto as de qualquer outro país. Isso também reforça a necessidade de investimentos, especialmente investimentos públicos, para gerar empregos e fortalecer a nossa cultura.


