
As vitórias de O Agente Secreto no Globo de Ouro, na madrugada desta segunda-feira (12), aumentaram a expectativa pelas indicações do filme brasileiro ao Oscar. O longa dirigido por Kleber Mendonça Filho venceu a categoria de melhor filme em língua não inglesa, enquanto Wagner Moura foi eleito melhor ator em filme de drama – feito inédito para uma produção brasileira na premiação. Mas será que esses resultados podem influenciar no Oscar?
Para o jornalista Rodrigo de Oliveira, crítico de cinema, editor-chefe da revista Almanaque21 e votante internacional do Globo de Ouro, o impacto das vitórias é direto e ocorre no momento mais sensível das campanhas para o Oscar: faltam poucos dias para o fim das votações, na sexta-feira (16), e para a divulgação da lista final de indicados, marcada para o dia 22 de janeiro, uma quinta-feira, às 10h30min (horário de Brasília).
— Assim como ocorreu no ano passado com Fernanda Torres e Ainda Estou Aqui, uma vitória no Globo de Ouro muda o patamar da campanha para o Oscar, pois aumenta a visibilidade da obra. As votações da Academia ocorrem nesta semana, e estar em evidência nesse período é fundamental. Embora os votantes do Globo de Ouro não sejam os mesmos do Oscar, o filme ganha chances reais.
Para a jornalista Miriam Spritzer, integrante da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood (HFPA) e votante do Globo de Ouro, o desempenho na premiação coroa uma trajetória que começou ainda em maio, no prestigiado Festival de Cannes, onde O Agente Secreto saiu com dois prêmios – de melhor direção para Kleber Mendonça Filho e melhor ator para Wagner Moura.
Em entrevista ao programa Timeline, da Rádio Gaúcha, a jornalista comentou que as conquistas em Cannes se repetiram no Globo de Ouro e são importantes também para o Oscar, pois ajudam a construir o prestígio internacional do filme.
— O Agente Secreto ganhou muita força ao vencer esses dois prêmios em Cannes, que é o maior festival do mundo. Quem vota acompanha a corrida desde os primeiros festivais, que funcionam como o "Grand Slam" do cinema.
Páreo mais difícil
Apesar do impulso, a corrida ao Oscar impõe desafios maiores, especialmente para Wagner Moura, conforme os especialistas. Isso porque, diferentemente do Globo de Ouro, o Oscar não divide o prêmio de atuação entre as subcategorias de drama e comédia ou musical, o que reduz drasticamente o número de indicados.
— Isso torna a disputa significativamente mais difícil. No Globo de Ouro, com a divisão em duas categorias, temos 12 indicados ao total, enquanto no Oscar são apenas cinco vagas em uma única categoria de melhor ator. Há nomes fortíssimos no páreo, como Timothée Chalamet, Leonardo DiCaprio, Ethan Hawke, Dwayne Johnson, Joel Edgerton e Michael B. Jordan — avalia Rodrigo de Oliveira.
Segundo ele, Moura vinha aparecendo bem colocado em listas de veículos especializados, mas perdeu fôlego ao ficar fora de algumas premiações importantes do circuito, como o BAFTA e o prêmio do Sindicato dos Atores (SAG). Agora, com a vitória no Globo de Ouro, volta a ganhar força entre os cotados.
— Essa conquista faz com que o Wagner também chegue forte para a disputa — diz.
Miriam Spritzer reforça que o prêmio dá novo gás à campanha do ator brasileiro, que tem a seu favor o fato de já ser um nome conhecido internacionalmente. Isso, somado às vitórias no Globo de Ouro e em Cannes, aumenta as chances do brasileiro na disputa.
— Fazer uma campanha dessas é trabalhoso, mas Wagner Moura é muito querido e carismático, já estando na indústria de Hollywood há bastante tempo. Então, convencer os votantes foi uma construção de anos, diferentemente da Fernanda Torres, que era um rosto novo para muitos ali — explica a jornalista.
Outro ponto que tem gerado preocupação na transição do Globo de Ouro para o Oscar é a composição do eleitorado. Isso porque, no Globo de Ouro, profissionais brasileiros chegam a representar cerca de 10% dos votantes – proporção bem menor na Academia.
Entretanto, para Rodrigo de Oliveira, a redução na representatividade de avaliadores nacionais não deve ser tão crucial para o desempenho de O Agente Secreto.
— A internacionalização dos votantes do Oscar é um movimento real. É importante ressaltar que o sucesso de O Agente Secreto não depende apenas de votos brasileiros ou latinos; a história aborda temas universais como ditadura e traumas geracionais, que tocam públicos de diversas nacionalidades — afirma Rodrigo.
Hora de "fazer barulho"
Além dos prêmios e da articulação de bastidores, a campanha para o Oscar depende de algo essencial: que o filme seja visto. Nesse ponto, o barulho em torno da obra é decisivo, conforme Miriam Spritzer:
— Metade do trabalho para receber um voto é garantir que o filme seja assistido, porque nem todos os votantes vão assistir a 500 filmes; às vezes, eles verão 10. Entre centenas de opções, os votantes tendem a ver os filmes que fizeram mais barulho. Quando O Agente Secreto participa de festivais com destaque e recebe elogios da comunidade cinéfila, surge uma curiosidade para que se assista ao filme e se acabe votando nele.
Rodrigo de Oliveira acrescenta que o engajamento nas redes sociais – algo que se tornou uma marca registrada dos brasileiros desde a campanha de Ainda Estou Aqui – pode ajudar a manter O Agente Secreto no radar, desde que com cautela.
— Quem não é visto não é lembrado e não é votado. O engajamento nas redes sociais ajuda a colocar o filme no radar de quem vota. Porém, é fundamental que essa participação seja saudável e não violenta; não se deve atacar outros indicados. Tem que ser uma participação que coloque o cinema brasileiro para cima, não coloque os outros para baixo.
Quais são as categorias com mais chances?
Os indicados ao Oscar serão anunciados em 22 de janeiro, e o cenário para o Brasil é de expectativa e esperança. Especialistas apostam que a indicação de O Agente Secreto a melhor filme internacional é praticamente certa, com grande possibilidade de vitória.
Para os críticos, o filme também deve ter boas chances nas categorias de melhor filme e melhor ator, para Wagner Moura. Rodrigo Oliveira ainda acredita que O Agente Secreto pode receber indicações de melhor roteiro original; melhor direção, para Kleber Mendonça Filho; e melhor direção de elenco, categoria nova na premiação.

