
Em quase cem anos de história do Oscar, o cinema brasileiro, amplamente elogiado e reconhecido no cenário internacional, conquistou apenas uma cobiçada estatueta na principal premiação do cinema mundial: em 2025, com Ainda Estou Aqui. Embora tenha sido indicado a três categorias – melhor atriz, para Fernanda Torres, melhor filme e melhor filme internacional –, o longa de Walter Salles venceu apenas esta última.
Agora, a torcida nacional se renova com O Agente Secreto, que recebeu quatro indicações, inclusive a de melhor filme, principal estatueta da noite. Resta saber se a produção dirigida por Kleber Mendonça Filho conseguirá trazer, pelo segundo ano consecutivo, pelo menos mais um careca dourado para o Brasil. A 98ª edição do Oscar ocorre no dia 15 de março.
Quando tudo começou?
A história do Brasil no Oscar começou em 1959, quando o país foi representado por Orfeu Negro, adaptação da peça Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes. O filme foi indicado e venceu a categoria de melhor filme internacional no Oscar de 1960 – porém, o prêmio foi para a França, que coproduzia o longa com Brasil e com a Itália.
Apesar da língua da história ser a portuguesa e a trama ter sido filmada no Brasil, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas classificou a produção como apenas francês, devido à nacionalidade de seu diretor, Marcel Camus. Ou seja, vencemos juntos, mas não ficamos com o prêmio — na época, a repercussão foi bem negativa.
Então, a primeira empreitada do Brasil no Oscar, de fato, foi com O Pagador de Promessas (1962), que havia conquistado a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No ano seguinte, o filme do diretor Anselmo Duarte foi nomeado ao prêmio de melhor filme internacional no Oscar, mas perdeu a estatueta para Sempre aos Domingos, da França — olha ela aí de novo.
Raoni (1978), coprodução entre Brasil, França e Bélgica, foi nomeada ao Oscar de melhor documentário em 1979. O filme, que foi dirigido pelo belga Jean-Pierre Dutilleux, foi narrado, na versão inglesa, pelo prestigiado ator estadunidense Marlon Brando. O prêmio daquele ano foi para Scared Straight! (1978).
Já a coprodução entre Brasil e Estados Unidos — basicamente falada em inglês —, O Beijo da Mulher-Aranha (1985), foi o único filme com participação nacional a figurar ao prêmio principal do Oscar até então, o de melhor filme, sendo superado por Entre Dois Amores.
Mas, além desta nomeação, o filme estrelado por Sônia Braga foi indicado aos prêmios de melhor direção, para Hector Babenco, melhor roteiro adaptado e melhor ator, para William Hurt, que conquistou o troféu.
O Rio Grande do Sul também já apareceu pelo Oscar, é claro. Na premiação de 1996, o longa O Quatrilho (1995), de Fábio Barreto, foi indicado ao prêmio de melhor filme internacional. A obra, baseada no livro homônimo de José Clemente Pozenato, acabou perdendo o prêmio para A Excêntrica Família de Antônia, da Holanda. Na época, dizia-se que o filme nacional não teve um forte circuito de exibição nos Estados Unidos, o que diminui muito as chances do Brasil faturar a estatueta.
A história se passa em uma comunidade rural gaúcha, em 1910, onde dois casais amigos decidem morar na mesma casa para sobreviver. Com a convivência, a esposa (Patricia Pillar) de um deles (Alexandre Paternost) se interessa pelo marido (Bruno Campos) da outra (Glória Pires), sendo correspondida, o que gera uma série de situações complexas. O filme foi rodado na região de Antônio Prado.
Comandado pelo irmão do diretor de O Quatrilho, Bruno Barreto, O Que é Isso, Companheiro (1997) foi o próximo brasileiro a ser indicado ao Oscar de melhor filme internacional, na cerimônia de 1998. O careca dourado, na época, foi conquistado pela Holanda, com o seu Caráter.

Um dos mais representativos filmes nacionais no Oscar até a chegada de Ainda Estou Aqui leva, inclusive, o nome do país no título. É Central do Brasil (1998), também de Walter Salles, que foi nomeado aos prêmios de melhor filme internacional e melhor atriz, em 1999. Infelizmente, não conquistou nenhuma das duas categorias.
Na época, houve uma ampla discussão na categoria de atuação, já que o italiano A Vida É Bela, que se saiu vencedor, era franco favorito para o prêmio de filme internacional — inclusive, sendo nomeado à categoria principal da distinção. Mas, no duelo entre as atrizes, muito se diz que Fernanda Montenegro foi "roubada", uma vez que a vencedora, Gwyneth Paltrow, por Shakespeare Apaixonado, teve uma grande campanha de Harvey Weinstein por trás.
Em 2001, Uma História de Futebol (1998), de Paulo Machline, foi indicado ao prêmio de melhor filme em curta-metragem. O filme apresenta a infância do lendário jogador Pelé, narrada de forma ficcional por seu amigo Zuza (voz de Antônio Fagundes). A produção, baseada no livro de José Roberto Torero, acabou perdendo para Quiero Ser (I want to be...), do México e da Alemanha.
O fenômeno Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, foi esnobado pela Academia e não chegou a conseguir uma vaga para concorrer ao prêmio de melhor filme internacional em 2003 — de maneira surpreendente, visto que, até hoje, figura nas listas de melhores obras de todos os tempos.
Porém, em 2004, conquistou, quase como um pedido de desculpas, nomeações às categorias de melhor direção, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Até hoje, é o único filme brasileiro a conseguir o feito de ter quatro indicações ao Oscar.
Em 2011, a coprodução entre Brasil e Reino Unido Lixo Extraordinário (2010), dirigido por João Jardim, Lucy Walker e Karen Harley, foi indicada ao prêmio de melhor documentário, mas não venceu — o vitorioso foi Trabalho Interno (Inside Job), do estadunidense Charles Ferguson. Já em 2015, outro documentário brasileiro brigou na mesma categoria. Foi O Sal da Terra, de Juliano Ribeiro Salgado e Wim Wenders, sobre o fotógrafo Sebastião Salgado. A produção entre Brasil, França e Itália perdeu para Cidadãoquatro (Citizenfour), outra produção dos Estados Unidos.
Entre os mais recentes, o belíssimo O Menino e o Mundo (2013), de Alê Abreu, conseguiu, em 2016, um feito inédito para o Brasil: ser indicado para o Oscar de melhor animação. Esta foi uma batalha difícil para o cinema nacional, visto que havia concorrentes de grandes estúdios, como da Disney/Pixar — e, que de fato, levou o prêmio. A estatueta ficou com o popular Divertida Mente.
Uma das últimas indicações que o Brasil teve na premiação foi em 2020, com Democracia em Vertigem (2019), de Petra Costa, como melhor documentário. A produção misturou relatos políticos e memórias pessoais da diretora, fazendo uma análise sobre a ascensão e queda dos governos de Lula e Dilma Rousseff e a polarização da nação. Naquele ano, o vencedor foi Indústria Americana (American Factory).
Em 2022, Onde Eu Moro, do brasileiro Pedro Kos, concorreu na categoria de melhor documentário em curta-metragem. No entanto, perdeu para The Queen of Basketball, que aborda a trajetória da atleta pioneira do basquete estadunidense Lusia Harris.
O primeiro representante
Vale lembrar, porém, que a primeira nomeação ao Oscar para um brasileiro veio antes de todos estes filmes. Foi para o compositor Ary Barroso. Em 1945, sua música Rio de Janeiro disputou como melhor canção pelo filme estadunidense Brasil (1944), de Joseph Santley. Ele acabou perdendo para Swinging On a Star, do clássico natalino O Bom Pastor (Going My Way).
E, falando em música, Real In Rio, canção original da animação Rio (2011), do diretor Carlos Saldanha, também foi nomeada ao Oscar, em 2012. A obra da dupla de brasileiros Sergio Mendes e Carlinhos Brown, porém, perdeu para a composição do neozelandês Bret McKenzie Man or Muppet, do filme Os Muppets (2011).



