
Autor do livro A Escultura Pública de Porto Alegre (2022), um dos mais completos registros sobre as obras de arte a céu aberto espalhadas pela Capital, o professor de escultura, pesquisador e historiador de arte, José Francisco Alves, trabalha em uma obra mais abrangente e ambiciosa com previsão para 2026.
Trata-se de um livro sobre a escultura pública do Rio Grande do Sul, envolvendo quase 200 municípios. O trabalho ganha importância maior pelo seu caráter de registro. Isso porque, nos últimos 25 anos, o Estado e sobretudo Porto Alegre, estão presenciando uma verdadeira devastação de seus monumentos públicos. Com as duas publicações, Alves espera ao menos preservar a memória deste acervo. Confira a entrevista.
De uma maneira geral, como é que você definiria a situação dos monumentos públicos aqui na capital Porto Alegre?
Eu acompanho os monumentos como foco quase que principal das minhas pesquisas há 30 anos. Realmente é quase que uma causa perdida. O espaço urbano já não comporta mais esse tipo de equipamento, por uma série de motivos, em que a falta de manutenção e conservação por parte da prefeitura é um fator importante. E há outro fator também, mesmo que tivesse uma conservação. Há pessoas que destroem de uma maneira muito acentuada qualquer coisa que está no espaço público. Então eu não tenho uma fórmula do que fazer. Detecto a situação, e é a pior possível. Isso, de modo geral, se iniciou em Porto Alegre já desde o ano 2000, (os monumentos) já estão há um quarto de século numa situação grave.
Desde o ano 2000 a situação vem se acentuando, é isso?
Isso, acentuando drasticamente, assim, de uma maneira muito forte, quase que uma perda significativa mesmo. E no Estado do Rio Grande do Sul também começou. Neste século, também em algumas praças, em cidades como Pelotas e Caxias (do Sul), Santa Maria. E agora mesmo saiu no Pioneiro, pelo site do GZH, que revitalizaram o monumento ao Duque de Caxias com vidro blindado em praça pública. Então isso mostra a gravidade da situação.
Na sua opinião, qual foi o caso mais emblemático de depredação aqui na Capital ou no Estado?
Teria vários exemplos em Pelotas também, em Rio Grande. Mas em Porto Alegre o que aconteceu com o monumento ao Bento Gonçalves é algo incrível, uma devastação de guerra em questão de pouco tempo. Um monumento precioso foi devastado, destruído, roubado, quebrado, sujo e está numa situação gravíssima. Até tem a perspectiva de a iniciativa privada fazer um restauro no monumento, o que é bem-vindo. Agora, vamos ver se após esse restauro não acontece como a iniciativa privada tem feito com o Parque Farroupilha: recuperou em duas oportunidades, 2014 e 2016.
Alguns desses monumentos estão sendo mais respeitados? Alguma obra está sendo tratada com mais zelo, tanto pela população quanto pelo poder público?
O que a gente vê é o Laçador, por ser o símbolo do Estado, e de fato ele atingiu esse status. Embora durante esses anos todos, inclusive (foi noticiado em) várias capas de Zero Hora, ele já foi depredado, já foi pichado violentamente. Volta e meia as pessoas fazem atos que prejudicam a estátua do Laçador, mas ele é o que está mais bem cuidado. Ou seja, quando há um atentado contra o Laçador, como já houve, ele logo é reparado por causa dessa pressão de ser um monumento amado.
Você falou que nos últimos 25 anos vem ocorrendo isso. Tem alguma ideia do que seria a causa?
É um processo que não é em toda cidade ibero-americana, porque a gente tem cidades menores, como Montevidéu (capital do Uruguai), cidades no Equador, Bolívia, Chile ou mesmo cidades no interior da Argentina, que não têm uma manutenção ideal, mas isso não significa que o povo deva destruir tudo, né? Então, o fator da educação do povo, a sua condição intelectual e cultural, também influenciam, eu acredito. A destruição tem alguns fatores: falta de conservação, o roubo organizado e o vandalismo fortuito. E a fiscalização fraquíssima.
Lembrando de um episódio que também é bastante emblemático lá na Praça da Alfândega, a Carta Testamento de Getúlio Vargas. Hoje o que tem lá é uma peça plástica no lugar da antiga placa em metal. Esse é um tipo de solução que você considera ideal?
É, pode ser. No caso da placa, já teve uns dois roubos assim. Mas aí quando não é o roubo pelo material, às vezes trocando por um outro tipo de placa, mesmo que seja metálica, tudo é roubável, não é? Se é que pode ser dito isso. Às vezes é o vandalismo puro e nem se sabe o que é a Carta, quem foi Getúlio. Mas se quebra pelo prazer de poder exercer esse poder de quebrar. Nesse caso, a destruição é bem democrática. Todas as classes sociais fazem a destruição e não conhecem os monumentos.
Qual o impacto dessa destruição na memória cultural da cidade?
O ideal, o status cultural do espaço urbano é alguma coisa reveladora da sociedade porto-alegrense, em especial, que é um povo que viaja razoavelmente.
Há classes sociais que conseguem viajar, adoram visitar lugares e achar tudo bonito. Mas quando se está aqui, o comportamento muda. Eu vejo isso em professores, doutores da Universidade Federal, que viajam e tiram fotos em museus e tudo, das áreas humanas, científicas. Mas nunca botaram os pés num museu em Porto Alegre, que são museus ótimos.
JOSÉ FRANCISCO ALVES
Historiador
Então tem esse comportamento, que é a mesma coisa para o espaço urbano. Aqui pode-se tudo no trânsito, mas quando vão para Gramado, se comportam diferente. Quando vão dirigir em Lisboa, se comportam diferente. Então o porto-alegrense tem essa coisa estranha de ter um amor pela cidade, mas ele não se materializa em comportamento.
Como a população poderia ajudar a mudar essa situação?
Conservar, estar vigilante. É uma população que é razoavelmente vigilante na parte ambiental, procura cuidar o corte de árvores. Estão sempre cuidando, patrulhando, exigindo da prefeitura — o que está certo. Então a população que usa uma praça deveria colaborar em cuidar um pouco, denunciar um pouco melhor. Às vezes, quando há um atentado contra um monumento, se consegue chamar a Guarda Municipal. E às vezes ela vem. Então é ficar atento e fazer a sua parte, principalmente fazer a sua parte.

Pelo que você fala, o ataque ao monumento público, na verdade, ele está dentro de um contexto maior, que é o ataque ao bem público, o descaso ao bem público.
Exato, é o descaso da coisa pública. Ele nem chega ao ponto de outros países, onde há uma questão mais política, militante. Aqui não se chega nem a isso. Aqui é pelo simples mau trato mesmo. Embora o pessoal reclame das obras de arte, que não gostam desse estilo ou do outro. É como se isso fosse um problema. Não existem obras de arte ao ar livre, sejam monumentos ou obras de arte decorativas, que sejam dirigidas a todo mundo ao mesmo tempo. E por isso é que deveria ter a tolerância. O pessoal também reclama muito quando há uma coisa que não gosta. Bom, é só olhar pro outro lado. Porque são tão pequenos os monumentos, né? São tão simples, perto de tantos problemas.
Na sua opinião, falta isso também no ensino básico, com respeito ao espaço público?
Não, acho que não. Acho que é uma questão familiar, de cultura geral mesmo, da família. Eu acho que o ensino formal não deveria entrar nessa área, porque não é necessário. Agora, é bom que nas disciplinas normais, dentro de história, para as crianças, dentro de arte, trabalhem com isso. E também a prefeitura e outros órgãos, com eventos como a Noite dos Museus. Eles fazem um projeto patrimonial e há sempre um bom público. Eu faço caminhadas. O memorial do Ministério Público começou a fazer algumas caminhadas comigo. E há um bom público. Então, acho que essas ações culturais funcionam mais do que ter na escola a educação patrimonial.
A iniciativa deve vir também do poder público?
A prefeitura já teve um projeto muito pioneiro, muito bacana, Viva o Centro a Pé, que trocou de nome para Viva Porto Alegre a Pé, sempre com grandes públicos e tal, mas um projeto sem verba, zero verba, sem uma importância. São eventos pontuais. Questões como tradicionalismo, que envolve também o que seria, entre aspas, o patriotismo gaúcho. Então, um lugar em que tu precisas ter subsídio pra ser farroupilha. É complicado, né? Só para complementar, enquanto o patriotismo e o fervor rio-grandense são muito fortes, os monumentos farroupilhas são os mais abandonados, os mais quebrados, os mais sujos. Pichados, quebrados, abandonados, esquecidos completamente dos próprios que os cultuam. Então justamente os monumentos a Garibaldi e a Bento Gonçalves foram sempre os mais abandonados e justamente os mais importantes para essa coisa tão presente na nossa cultura que é a questão do gauchismo e de ser farroupilha.
Poderia falar um pouco do seu livro A Escultura Pública de Porto Alegre?
O livro sobre a estatuária de Porto Alegre, a escultura pública de Porto Alegre, que é o livro que teve a segunda edição comemorativa em 2022, que foi o melhor livro em comemoração os 250 anos de Porto Alegre, o melhor livro porque foi o único. Porto Alegre fez 250 anos e não tivemos uma obra histórica a não ser o livro, a obra comemorativa que eu fiz. Surpreendentemente, o único livro e graças à iniciativa privada. Não teve nenhum apoio público para fazer uma enciclopédia. E agora vem outro projeto pela Lei Aldir Blanc, que é um livro sobre a escultura pública do Rio Grande do Sul. Vai ser exemplificativo, mas nós vamos ter quase 200 municípios falando sobre os monumentos, estabelecendo alguma conexão entre si, desde a arte cemiterial, questões farroupilhas, monumentos políticos, obras de arte contemporâneas, fazendo essa ligação para ver que há bastante acervo também no Rio Grande do Sul, que é um Estado com muitas obras de arte ao ar livre. Eu espero que preservem.
Quando vai ser lançado esse livro sobre o Rio Grande do Sul?
Eu creio que no primeiro semestre agora do ano que vem. Vai ser enviado para todos os municípios do Rio Grande do Sul para que se veja um acervo. Porque é importante que se fale agora em Missões, 400 anos (em 2026). Em 2035 vamos ter os 200 anos da Revolução Farroupilha, e nem os monumentos do centenário provavelmente talvez estejam de pé. E o monumento ao Júlio de Castilhos, que foi entregue com recursos federais em 2017 e já apresenta sinais de degradação, de pichação. Então é isso, a cidade recebe os monumentos e não cuida. Mas, enfim, a gente vai continuar contando a história, porque pelo menos vira memória. E as próximas gerações vão ficar sabendo o que existiu.



