E se a icônica estátua do Laçador ganhasse vida e saísse de seu sítio, ali pertinho do Aeroporto Salgado Filho, para desfilar seus imponentes 4m45cm pelo Estado e, até mesmo, fora dele? Se esta cena, que remete ao filme Uma Noite no Museu, só que versão gaudéria, está fora de cogitação, o Rio Grande do Sul já vive uma edição compacta desta história. Mais precisamente, com 1m70cm.
Esta é a altura de Pablo Espindola, 43 anos, ator que tem sido visto pintado e fazendo a pose emblemática do Laçador em diversos eventos, inclusive oficiais do Estado, ao lado do governador Eduardo Leite. Seu papel é ser a estátua viva da obra mais famosa do pelotense Antônio Caringi (1905-1981), mas ele faz questão de ressaltar que vai além da representação visual: também é um propagador da história.
Embora atue como estátua viva do Laçador há pelo menos dois anos, algo que Pablo nunca havia feito até então, depois de assumir a pilcha e a tinta, foi encontrar-se com a estátua verdadeira. Isso aconteceu com a reportagem de Zero Hora, quando o artista se reuniu pela primeira vez com a grande obra de Caringi.
— Esse primeiro encontro vestido de escultura viva com o Laçador foi muito emocionante. Representar ele, que é o símbolo de Porto Alegre e do nosso Estado, tem um peso muito grande. Só de olhar tu vês que ele transmite muita força, vontade e um senso de firmeza. O nosso povo é assim, por isso ele é o nosso símbolo. Eu, como escultura viva, sinto e tento passar isso também — destaca Pablo, replicando a pose do Laçador com orgulho.
Como tudo começou
Pablo é formado em Educação Física e pós-graduado em acupuntura. Praticou patinação durante a infância e a adolescência e nunca se viu como artista. Tudo mudou em 2005, quando sua irmã, Janaína Espindola, também patinadora, organizou uma apresentação de final de ano focada na cultura gaúcha. Foi então que surgiu o convite para que interpretasse o Laçador.
— Foi um número muito legal. Dancei com a minha irmã. Ela de patins e eu vestido de Laçador, usando botas. Dançamos um chamamé. Essa foi a primeira vez — recorda Pablo, destacando que o coreógrafo, na ocasião, foi Mauro Schneider.
Nada menos que 18 anos depois, em 2023, a banda Alma Gaudéria, conhecida por divulgar as riquezas do Estado em suas músicas, é convidada para participar de uma feira de turismo no Rio de Janeiro. Ao invés do grupo levar um banner do Laçador, o cunhado de Pablo, Fernando Espíndola, que é vocalista do conjunto, sugeriu levar a escultura. Viva.
— O Fernando me ligou e eu topei. Foi uma correria para fazer a roupa. Foi neste momento que fui estudar. Sou honesto, não sabia quem era o escultor, só quem era o Paixão Côrtes, que tinha servido de modelo. Mas quis fazer isso para caso alguém me perguntasse alguma coisa lá. Foi um sucesso por lá — relembra o intérprete da estátua viva, que vive no bairro IAPI, em Porto Alegre.
Aprovado pela família Caringi
As aparições de Pablo como Laçador foram se tornando mais frequentes e, neste processo, entrou em contato com Antonella Caringi, neta de Antônio e responsável pelo licenciamento da obra do avô. Recebeu a bênção para interpretar o personagem e também o pedido de seguir divulgando a história do escultor – algo que o artista segue à risca.
— A relevância do trabalho do Pablo, além da importância simbólica e cultural como escultura viva do Laçador, é valorizar, atualizar e perpetuar o legado de Antônio Caringi, reinterpretando a arte. Ele fortalece a identidade gaúcha enquanto símbolo pulsante e educa culturalmente o público — salienta a neta do escultor, que estaria completando 120 anos em 2025.
Antonella, que tem um grande cuidado com o legado do avô, complementa afirmando que o cuidado e o respeito de Pablo com a obra de Caringi se assemelham ao modo de trabalhar de Paixão Côrtes (1927-2018):
— O trabalho não apenas é aprovado pela família, mas também documentado por meio de um termo de licenciamento de uso, o que dá credibilidade ao novo artista e assessoria por parte da gestão do Caringi. É muito importante frisar o cuidado e o respeito aos direitos autorais, com os quais Pablo sempre se importou, e os desdobramentos de seu trabalho, assim como o carinho pessoal pela obra monumental de Caringi.
Passo a passo
Apesar de todo o conteúdo histórico que carrega, o artista não abre mão de ser um Laçador com capricho estético. Só a caracterização leva cerca de meia hora: vestir a pilcha, colocar a peruca e, claro, aplicar a pintura corporal – que chega até os dedos dos pés, deixados à mostra pelas botas que replicam as de garrão de potro do Laçador original.
Se a tinta sai facilmente no banho, no canto das unhas ela insiste em ficar. A roupa ele já tinha em casa, mas precisou pintá-la com spray para alcançar o tom acinzentado da estátua.
— Eu não me achava parecido com o Laçador, mas, depois, comecei a ver melhor e tenho algumas semelhanças. A maçã do rosto lembra bastante. Quem me encontra, diz: "Nossa, é muito igual" — diz Pablo. — Precisei mudar a barba. Usava barba inteira e, agora, precisei deixar o bigode. Então, o bigode é meu, não é que nem o do Guri de Uruguaiana (risos).
Requisitado
Hoje, Pablo é convidado para diversos eventos de destaque pelo Estado – da reabertura do Aeroporto Salgado Filho, bem próximo da obra original, até a reinauguração da Usina do Gasômetro. Em setembro, a agenda está cheia: vai da Expointer ao Acampamento Farroupilha.

Inclusive, em agosto último, estrelou uma peça teatral, ao lado de Mauro Schneider — aquele que o coreografou há 20 anos — e com a esposa, Vívian Casassola, que é bailarina. O espetáculo Laçador: Inspiração, Paixão e Força estreou no palco do Teatro Renascença e a ideia da trupe, agora, é levar a montagem para todo o Rio Grande do Sul.
Em 2024, foi eleito, pelo Blog Repórter Farroupilha, do g1, como o personagem do Mês Farroupilha. Apareceu na RBS TV e viu a sua popularidade aumentar.
— Ainda não vivo de ser o Laçador, esse é objetivo, mas não dá para reclamar. Como trabalho por conta, consigo ajustar a minha agenda para ser a escultura viva quando aparece algum evento — explica o artista, que também divulga o seu trabalho nas redes sociais.
