
— Esse ano está sendo como qualquer outro para mim — garante Jesuíta Barbosa.
Mesmo que a sensação do artista seja essa, os holofotes estão apontados para o pernambucano de 34 anos em 2025. O longa-metragem Homem com H, do qual Jesuíta é protagonista, foi um sucesso nos cinemas — com mais de 700 mil espectadores —, ficou entre os mais vistos da Netflix e a performance do ator, interpretando o icônico Ney Matogrosso, foi aclamada.
Mas, ao mesmo tempo em que o seu nome estava sendo amplamente comentado nos últimos meses, Jesuíta estava dedicado a voltar às origens: os palcos. Embarcou no projeto Sonho Elétrico, que terá duas sessões no Porto Alegre em Cena — neste sábado (13), às 21h, e no domingo (14), às 18h, no Teatro Simões Lopes Neto (Rua Riachuelo, 1089). Foi ensaio, uma certa reclusão e muito estudo para desenvolver o novo personagem.
— Homem com H foi muito importante para mim, porque foi a última coisa que eu fiz no cinema, no audiovisual. E o filme do Ney me deu uma liberdade para poder ir para o palco com toda a força e fazer essa peça. E ela me alçou, me tirou de um lugar e me fez entender, de novo, o que é um trabalho de equipe — comenta o pernambucano.

Plano-sequência
Jesuíta detalha, também, que o cenário é composto por paredes enormes, que criam uma "espécie de ambiguidade", como um ambiente refratário. São elementos assim, que exploram a profundidade da mente humana, que atraem o artista para os seus novos desafios. E foi assim que ele embarcou nesta jornada com a Companhia Brasileira de Teatro, da qual era um admirador.
Na montagem, escrita e dirigida por Marcio Abreu, o ator interpreta o integrante de uma banda que é atingido por um raio e entra em coma. A partir disso, a peça propõe colocar o espectador, juntamente com o personagem, em uma jornada onírica e poética, entre a vida e a morte, entre o passado e a possibilidade de um novo despertar. O espetáculo é inspirado livremente na obra do neurocientista e escritor Sidarta Ribeiro, especialmente em seu livro Sonho Manifesto: Dez exercícios urgentes de otimismo apocalíptico (2022).
— Me interessa muito habitar esse lugar de entender o que o texto está querendo dizer, como se pode melhorar ele, intervir, mexer em alguma coisa. E Sonho Elétrico teve muito isso, também permeado o tempo inteiro por uma espécie de câmera, como se a gente estivesse fazendo um filme. O texto, inclusive, fala sobre isso. A gente faz uma espécie de plano-sequência absurdo. E de uma estética absurda, também — conta Jesuíta.

"O teatro me salva"
Há quase uma década, o ator deixou o Rio de Janeiro, onde vivia, para morar em São Paulo. O objetivo era focar mais no teatro. Os muitos trabalhos no cinema e na TV o afastaram, temporariamente, do seu objetivo. Foram seis anos longe dos palcos — a última peça de Jesuíta havia sido Lazarus, em 2019. Agora, o ator celebra o retorno:
— Sou muito feliz fazendo teatro. O teatro me salva de diversas formas, mas acho que eu tendo a entender muito do teatro, trazendo o cinema para cena e vice-versa. Acho que a depender do filme que você faz, você tem que criar uma personagem muito mais teatral. Então, ainda que eu não esteja ali no palco, na caixa cênica, acho que o teatro me completa o tempo inteiro — salienta o ator.
Para Jesuíta, subir ao palco e sair em turnê é experimentar um cruzamento de culturas, com os diferentes sotaques, as comidas e as histórias. É dessa forma que ele acredita que se constrói a identidade de um país continental como o Brasil — e enfatiza que, após a pandemia, as pessoas ficaram com mais vontade de se encontrar e trocar ideias. Cabe aos artistas estarem atentos às diferentes formas de conversar com a plateia e, também, entre si:
— Precisamos criar linguagens possíveis para conseguir continuar se comunicando. Se a linguagem fica falha, se ela não acontece, se ela não é recriada, acho que a gente tem muito a perder. Vira uma espécie de ignorância cultural. E o Porto Alegre em Cena tem uma importância fundamental neste processo, fomentando os encontros.
Sobre o futuro, Jesuíta adianta:
— Acho que vai haver uma mudança em breve. Talvez, eu fique um pouco mais no Nordeste, minha terrinha. E vou continuar querendo fazer teatro.



