
É a semana derradeira: termina neste domingo (1º) a 14ª edição da Bienal do Mercosul, que ocupa Porto Alegre e Viamão. Será a última oportunidade para conferir obras de 77 artistas de diversos cantos do mundo, que se espalham por 18 espaços — todos com entrada franca.
Neste ano, a Bienal volta a contar com espaços tradicionais, como o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e a Fundação Iberê Camargo. A Usina do Gasômetro, que estava fechada há mais de sete anos para reformas, foi reaberta justamente para a megaexposição.
Para transformar a capital gaúcha em uma grande exposição, a Bienal também conta com novos espaços: Cinemateca Capitólio, Pop Center, Museu da Cultura Hip Hop RS, Fundação Ecarta, unidades da Estação Cidadania da Lomba do Pinheiro e da Restinga e a Fundação Vera Chaves Barcellos, esta em Viamão.
Novo público
Como frisou Raphael Fonseca, curador-chefe da 14ª edição, em entrevista a Zero Hora publicada no final de março, a Bienal tem um histórico de acontecer no Cais e em instituições do Centro. Desta vez, houve uma tentativa de ampliar a presença em outras regiões de Porto Alegre e até da Região Metropolitana.
Conforme Margarita Kremer, coordenadora do Programa Educativo da Fundação Vera Chaves Barcellos, a Bienal é uma oportunidade para a instituição ampliar relações com artistas, além de conquistar um novo público que não conhecia o espaço:
— Tivemos um fluxo muito grande de pessoas que nunca tinham vindo à Fundação. Toma outra dimensão quando a gente tem um evento internacional com artistas que estão em mundos mais distantes do que normalmente a gente trabalha. Sempre é muito enriquecedor estabelecer novos diálogos.
O tema curatorial da 14ª edição é "Estalo", com a finalidade de refletir sobre a noção de transformação. Trabalhando com este conceito, há uma presença considerável de representantes da América Latina e da Ásia. Sessenta e cinco por cento dos artistas são internacionais e três quartos das obras são inéditas ou comissionadas (realizadas para a Bienal).
O que ver na última semana da Bienal?
Zero Hora pediu para críticos de arte indicarem atrações que vale a pena conhecer nesta reta final. Cada entrevistado destacou duas obras, sem ordem de preferência. Veja as respostas abaixo.
Dicas de Diego Groisman
Historiador da arte
1) Like an Event in a Dream Dreamt by Another — Insomnia, de Firas Shehadeh, na Fundação Vera Chaves Barcellos
2) Série de fotografias de Laryssa Machada no MACRS
"Em uma Bienal com muitos trabalhos de grande apelo visual e tecnológico, destaco duas obras por seu caráter conceitual e crítico: a do palestino Firas Shehadeh, exibida na Fundação Vera Chaves Barcellos; e a série de fotografias da brasileira Laryssa Machada, expostas no MACRS.
Da mesma geração, porém de maneiras distintas, os artistas exploram em suas produções os temas da identidade, pertencimento, representatividade, exclusão e violência. Com especial atenção aos aspectos estéticos, ambos criam uma instigante provocação e suscitam debate sobre o contemporâneo e suas contradições."

Dicas de Eduardo Veras
Professor de História da Arte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
1) Série de esculturas de Julia Isídrez na Fundação Iberê Camargo
"Gostei muito de ver o trabalho da artista paraguaia. Com refinamento e inteligência, ela combina a tradição cerâmica de seus ascendentes guarani, inclusive sua dimensão utilitária, para inventar estranhos animais e criaturas fantásticas. Pessoalmente, houve para mim uma nota comovente nesse encontro, porque há exatamente 10 anos tive a sorte de visitá-la em sua oficina, no interior do Paraguai, com uma turma de estudantes e colegas professoras do Instituto de Artes da UFRGS."
2) Like an Event in a Dream Dreamt by Another — Insomnia, de Firas Shehadeh, na Fundação Vera Chaves Barcellos
"Também recomendo com entusiasmo o trabalho do artista palestino. É um vídeo tão surpreendente quanto perturbador. Ele se apropria da feição e da linguagem do videogame Grand Theft Auto (GTA) para um mergulho nas contradições sociais e políticas do mundo contemporâneo."
Dicas de Fernanda Albuquerque
Professora do Programa de Pós-Graduação em Museologia e Patrimônio da UFRGS
1) Passatempo, de Rochelle Costi, na fachada do Museu do Trabalho
"O relógio sem números faz um comentário sobre a passagem do tempo e sobre o que fazemos dele, ao apontar para o duplo sentido da palavra que nos apresenta — e que dá título à obra. O trabalho foi exposto originalmente em 2018 no interior do museu, como parte de uma individual de Rochelle. Sua remontagem presta homenagem à artista, falecida tragicamente em 2022. Neste momento em que a instituição segue fechada por tempo indeterminado, em função dos estragos da enchente, Passatempo acaba por apontar, também, para essa indeterminação."

2) Série de pinturas de Marina Rheingantz no Farol Santander
"A artista apresenta uma série de pinturas a óleo, sendo duas em grande escala, que nos brindam com paisagens flertando com a abstração. São espécies de jardins retratados como se piscássemos os olhos rapidamente, percebendo como as imagens se borram e se recompõem a partir das cores, formas e luzes dispostos na tela. A experiência de nos demorarmos diante de suas pinturas nos oferece uma vivência de verdadeiro deleite."
Dicas de Sandro Ka
Artista visual e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
1) Passatempo, de Rochelle Costi, na fachada do Museu do Trabalho
"É uma das surpresas mais inusitadas desta edição da Bienal. Discretamente, a obra se mimetiza à fachada do Museu do Trabalho, lugar muito querido na cidade, no início da Rua da Praia. Num olhar passageiro, na loucura do dia a dia do caos urbano, é fácil perder-se e passar despercebida. Entretanto, ter o privilégio do encontro com essa obra, de olhar para cima e ver o relógio que ininterruptamente nos lembra que o tempo nunca para, é também ser convidado a olhar essa passagem de outro modo. A obra nos lembra, com delicadeza, que o tempo é sempre nosso."
2) Dumping Core, de Gretchen Bender, no Museu de Arte do RS (Margs)
"A icônica instalação celebra a vitalidade dos experimentos tecnológicos e da interação da arte e dos meios e suportes tecnológicos e midiáticos nos anos 1980. Um privilégio participar de uma experiência imersiva e sensorial ainda pulsante, cheia de vitalidade."

Como ver a Bienal do Mercosul
As obras de 77 artistas estão espalhadas em 18 espaços de Porto Alegre e Viamão, todos com entrada franca.
Veja a programação completa e os horários de funcionamento de cada instituição no site oficial da Bienal.
Atrações em galerias de arte e restaurantes
Além dos 18 espaços, há 63 exposições em 42 galerias de arte da capital gaúcha, que integram um projeto complementar da Bienal chamado Portas pra Arte. Conforme a organização do evento, a iniciativa convida galerias e espaços expositivos a transformar Porto Alegre em "uma grande exposição", onde "cada bairro respira arte e inspiração", prestigiando artistas gaúchos e nacionais.
A gastronomia também é agraciada pela Bienal com o Arte no Prato: cinquenta restaurantes oferecem pratos e drinques com o tema "Estalo".
Outras informações podem ser conferidas no site da megaexposição.
Programação paralela da última semana
A Bienal do Mercosul segue promovendo a série de atividades intitulada Programas Públicos, com curadoria assinada por Anna Mattos e Marina Feldens. Todas as atrações abaixo são em Porto Alegre.
Nesta terça-feira (27) — Cine Estalo
- Exibição dos curtas Se Eu tô Aqui É por Mistério (2024) e Vollúpya (2024) e do documentário Salão de Baile (2024). Das 19h às 22h na Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1.085 — Centro Histórico)
Nesta quinta-feira (29) — Cine Estalo
- Exibição dos longas Veraneio: Uma Antologia Negra (2024) e Terror Mandelão (2024). Das 19h às 22h na Cinemateca Capitólio (Rua Demétrio Ribeiro, 1.085 — Centro Histórico)
Nesta quinta-feira — Oficina de desenho: Crônicas de bairro com Andréa Hygino
- A oficina se debruça sobre a pesquisa artística de Felipe Veeck. Das 15h às 17h na Rua Dr. Arno Horn, 221 — Restinga
Neste sábado (31) — Aula de yoga
- Das 10h às 11h no Instituto Ling (Rua João Caetano, 440 — Três Figueiras)





