— Pega, Petzhold!
O grito de meu pai, junto ao alambrado, é uma das recordações remotas de minha infância. Ele se dirigia ao goleiro do Internacional, que já havia buscado mais de uma vez a bola no fundo das redes. Naquela tarde cinzenta dos anos 1960, estávamos na arquibancada fria de cimento do velho Estádio da Montanha (no bairro Medianeira, na Capital), também chamado de Colina Melancólica, por conta dos cemitérios das redondezas. O apelido era um presságio de seu futuro — em 1972, o próprio campo do Esporte Clube Cruzeiro virou o Cemitério Ecumênico João XXIII.
Leão da Montanha, Estrelado, Cruzeirinho. São algumas das alcunhas do valoroso clube fundado em 1913 (antes do homônimo mais famoso, o Cruzeiro de Minas Gerais, que surgiu em 1921). Chegou a ser campeão gaúcho em 1929 e teve sua glória na década de 1950, quando foi o primeiro clube do Estado a excursionar à Europa — empatou com o poderoso Real Madrid, em 8 de novembro de 1954. Mas, em termos de popularidade, jamais se aproximou da dupla Gre-Nal.
Como provocação, os rivais diziam que a torcida do Cruzeirinho cabia dentro de uma Kombi. Pura maldade. Toda a família tinha um cruzeirista (lembro de meu tio Toninho — ele torcia pelo Cruzeiro). Havia também adeptos ilustres, como os escritores Erico Verissimo e Moacyr Scliar. Seria o time azul e branco opção à polarização histórica que marca o Rio Grande, com chimangos e maragatos, gremistas e colorados etc.? Receio que não. No fundo da alma, a maioria dos cruzeiristas torcia para Grêmio ou Internacional. Erico, por exemplo, era do Grêmio, como suspeitava o filho Luis Fernando. Scliar, ao que parece, simpatizava com o Inter.
Quando foi inaugurado, em 1941, o Estádio da Montanha era o mais moderno do RS, sendo o único com vestiário subterrâneo por essas bandas. Como homenagem, o cemitério preserva algumas de suas estruturas, como parte da arquibancada, dois portões de ferro e o túnel de acesso dos jogadores ao gramado.





