Caminhar pela Cidade Baixa é encontrar o antigo e o novo de braços dados, à espreita – além de reduto cultural e boêmio, é a região mais remota da Capital (depois do Centro Histórico). Um exemplo é o bar Avesso, recém-aberto num sobrado construído em 1913, na esquina da Rua Olavo Bilac com a Lima e Silva.
Há 40 anos, aquele casarão de 15 cômodos foi um agitado polo cultural da cidade. Era a sede do MAM Atelier de Litografia – a sigla tanto juntava as iniciais das artistas fundadoras (Marta Loguércio, Anico Herskovits e Maria Tomaselli) como brincava com o fato de Porto Alegre não ter, à época (e até hoje), um Museu de Arte Moderna.
Ex-alunas do Atelier Livre da Prefeitura, elas restauraram uma prensa adquirida em ferro-velho e, junto com Paulinho Chimendes, se instalaram na cozinha do sobrado, em 1981. A princípio, dividiam o imóvel com o pintor Fernando Baril, que também o usava como local de trabalho. Quando Baril viajou aos Estados Unidos, o MAM tomou conta da casa inteira para realizar cursos, debates e festas. Rapidamente, atraiu não só iniciantes, mas também artistas consagrados, como Iberê Camargo e Carlos Scliar, que ali imprimiam suas gravuras.
– Vasco Prado, Xico Stockinger, Alice Brueggemann, Clara Pechansky – toda essa gente passou por lá, assim como intelectuais de outras áreas, como o filósofo Renato Jeanine Ribeiro e o sociólogo Niklas Luhmann – relata Paulinho Chimendes.
Quando o MAM encerrou as atividades, em 1992, Tomaselli, Chimendes e outros artistas que frequentavam o espaço o mantiveram ativo por algum tempo com o grupo Oficina 11. Neste período, promoviam o evento “Se Essa Rua Fosse Minha” na calçada da Olavo Bilac, com ações de teatro, desenho, xilogravura e litografia abertas à população.
Em 1995, as prensas e pedras litográficas foram doadas ao Museu do Trabalho. De algum modo, a proposta do bar Avesso é reviver essa efervescência cultural – além de shows musicais, haverá saraus, cinemateca, clube de leitura e oficinas, como a de pandeiro, já em andamento, sob a batuta de Guilherme Feijão, pandeirista de mão cheia e um dos sócios. A rapaziada está com todo o gás:
– A ideia é respirar cultura nessa região do bairro, como acontecia nos anos 1980 – diz Fred Milheme, que completa a lista de empreendedores com Alex Oliveira e Cristine Rampi.




