
Dizem que a profissão está em extinção, mas Antônio Araújo, de 65 anos – um dos mais antigos sapateiros em atividade na Capital –, teima em provar o contrário. A sapataria que abriu na subida da Rua General João Manoel, entre a Duque de Caxias e a Riachuelo, em 1986, continua em plena atividade. Pudera, ele tem fama de fazer milagres com as mãos.
– Amo a minha profissão. Faço com muito gosto. E, a cada dia, aprendo algo novo. Nenhuma sola é igual a outra.

A fama de milagreiro, que se espalhou na internet, às vezes, atrapalha. É que alguns calçados não têm solução. Ele até fica chateado quando isso acontece.
– Não sou Santo Antônio, sou só Antônio – brinca.
Natural de Faxinal do Soturno, conheceu os segredos do ofício, aos 12 anos de idade, com um mestre de Novo Hamburgo (Odi Hinkel). Foi quem o ensinou a ser caprichoso.
– Quando eu fazia algo errado, me xingava até acertar. Levei aquilo para a vida. Se for preciso, desmancho dez vezes o que já fiz para ficar direitinho.
Ao chegar a Porto Alegre, trabalhou como empregado durante um ano e meio até abrir o ponto. No começo, não tinha clientes. Mas ele batia o martelo no pé de ferro, no fundo da loja, para fingir que trabalhava. Quem passava na calçada achava que estava cheio de serviço.

Com o tempo, dispensou a estratégia de marketing. A Sapataria Antônio deu certo, o que permitiu criar os dois filhos – Ismael e Cleison – com tranquilidade. Maria Helena, com quem está casado há 44 anos, é responsável pelo atendimento ao público.
Lá atrás, as crianças faziam os temas de casa no balcão e, quando se cansavam de brincar, dormiam num sofá no canto da loja. Mesmo assim, nenhum quis seguir a profissão do pai. De algum modo, Maria Helena dá graças a Deus.
– É uma vida de muita luta e sacrifício – explica ela.
Além de meticuloso, Antônio é obcecado com prazos de entrega. Não é raro vê-lo trabalhar no domingo à noite. A falta de novos profissionais, aliás, é uma das dificuldades da profissão.
Há 40 anos, havia cinco sapatarias na João Manoel e outras três ou quatro nas redondezas. Os sapateiros de mais idade foram morrendo. Só sobrou Antônio. Ele resiste:
– Não fiquei rico, nem vou ficar. Mas adoro esse destino que foi escolhido para mim – conclui.




