Com a adoção dos bondes elétricos, em 1908, o Menino Deus passou a atrair cada vez mais os porto-alegrenses. Um dos locais mais frequentados era o Prado Rio-Grandense, localizado entre as ruas Botafogo e Saldanha Marinho (hoje, a área é ocupada pela Secretaria de Agricultura do Estado). Ali, além de corridas de cavalos, eram realizadas as cavalhadas, celebrações lusitanas inspiradas em competições medievais, nas quais se simulava a luta entre cristãos e mouros. A partir de 1909, com o encerramento das atividades turfísticas, a área prestou-se a outras atividades, como exposições agropecuárias.
Mas havia também atrações inesperadas. Numa tarde ventosa de 1911, a várzea serviu de campo para a decolagem do primeiro avião a cruzar os céus de Porto Alegre. As acrobacias ficaram a cargo de Bartolomeu Cattaneo, um italiano de bigodes “a Kaiser”, sorridente e com pinta de aventureiro, conforme descreve o cronista Ary Veiga Sanhudo no livro Porto Alegre – Crônicas de Minha Cidade.
Já na chegada à Capital, formou-se um cortejo no cais do porto para oferecer as boas-vindas ao “homem que voava”, que desembarcou como celebridade – recentemente, havia sido o primeiro piloto a sobrevoar o Rio da Prata (de Buenos Aires a Colônia de Sacramento). No dia marcado para a proeza, com as presenças ilustres do presidente do Estado, Carlos Barbosa, e do intendente municipal, José Montaury, a multidão aglomerada nas arquibancadas irrompeu em aplausos quando Cattaneo acomodou-se no aeroplano Blériot e a saudou com um largo sorriso. “O aparelho movimentou-se e subiu roncando espetacularmente”, descreve Sanhudo.
Diante dos insistentes pedidos de bis, o aviador bigodudo repetiu a façanha por duas vezes. Antes da quarta investida, porém, vacilou por breves instantes por causa da forte ventania. Mas – ao ouvir as vaias da plateia, que não arredava pé, diante de sua atitude claudicante – tomou-se de coragem para alçar novamente voo. Desta vez, nem tudo saiu como esperado. A geringonça subiu 300 metros e, sacolejada pelo vento, precipitou-se sobre o morro do Menino Deus, “felizmente, sem maiores danos” para o aviador, conclui Sanhudo.
