
Vocês não imaginam o alvoroço que foi. O acontecido se deu no rastro da instabilidade política dos primórdios da República. Tudo começou em novembro de 1891, quando o Marechal Deodoro, primeiro presidente do Brasil, dissolveu o Congresso para assumir poderes ditatoriais. Foi criado, então, um movimento nacional contra Deodoro, ao qual o presidente do RS, Júlio de Castilhos, não aderiu. Ele preferiu uma posição neutra – nem contra, nem a favor. A hesitação custou caro: Castilhos foi deposto em ação liderada por Barros Cassal para que uma junta governativa assumisse o comando do Estado.
Só que o novo governo tinha estrutura frágil – pejorativamente, era chamado de “governicho” pelos apoiadores de Júlio de Castilhos. Em 17 de junho de 1892, os castilhistas retomaram o poder. Barros Cassal se refugiou com alguns revoltosos na canhoneira Marajó, da Marinha, que estava atracada no Guaíba. De lá, às 9h do dia 24 de junho, mandou um ultimato aos militares que apoiavam Castilhos: “Concito-vos a abandonar a posição de que estais investidos e na qual só vos podereis conservar à custa do sangue rio-grandense”.

Das palavras à ação: às 12h40min, a Marajó passou a disparar balas de canhões Armstrong e metralhadoras Nordenfeldt em direção à costa, enquanto se deslocava pelas mansas águas do Guaíba “desde a frente da embocadura da Rua Marechal Floriano, no lado norte da península, até a volta do Gasômetro”, registrou Sérgio da Costa Franco, no livro A Velha Porto Alegre. Mas ela foi rechaçada pelas forças leais a Castilhos, entrincheiradas nas imediações do Mercado Público, no cais da Praça da Alfândega e defronte à Igreja das Dores.
O bombardeio durou meia hora. Um soldado da Guarda Cívica (antecessora da Brigada Militar) morreu e prédios como Mercado Público, Tesouro do Estado, Catedral e Theatro São Pedro saíram chamuscados, bem como residências nas Ruas Duque de Caxias, Riachuelo, Marechal Floriano e Bento Martins. Já a Marajó, bastante avariada, bateu em retirada, descendo o Guaíba em direção à Lagoa dos Patos. Perto de Rio Grande, foi rendida pela Marinha de Guerra, mas, a essa altura, Barros Cassal “já desembarcara a meio caminho, em Itapuã, tomando rumo ignorado”, conforme Costa Franco. De imediato, o bombardeio da Marajó teve poucas consequências, mas foi o prelúdio da Revolução Federalista, que encharcaria de sangue o solo gaúcho de 1893 a 1895.




