Imagine uma estrada de ferro com ponto de partida junto ao Parque da Redenção, na Capital, estendendo-se até o porto de Laguna, em Santa Catarina. Pois ela quase existiu! Tinha até nome: Estrada Dom Pedro I. O marco inaugural foi achado por acaso — pasmem — no vestíbulo do Colégio Militar de Porto Alegre.
A descoberta foi registrada em crônica de Sérgio da Costa Franco, em Zero Hora, no dia 7 de maio de 1988. Oculta por mais de um século, a peça de madeira tinha sido encontrada por conta de obras de reforma no prédio da escola. Comunicado do fato, o mestre não titubeou em arregaçar as mangas para decifrar o mistério. Logicamente, decifrou! “Tratava-se de uma ferrovia imaginada como meio de garantir para a capital gaúcha um acesso ao mar”, explicou o historiador. Segundo ele, o idealizador do projeto foi o capitão engenheiro Sebastião Antônio Rodrigues Braga Júnior, que “passou a vida a bater-se pela ideia”, convicto de que ela destravaria a economia da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul.
Um decreto do Imperador Dom Pedro II, de 13 de janeiro de 1883, chegou a conceder à empresa inglesa The Railway Company, Limited a garantia de juros de 6% ao ano sobre o capital para a construção da estrada, conforme Leonardo Araujo, tenente da reserva e ex-chefe de Comunicação Social do CMPA. Prova de que havia mesmo a intenção de construí-la foi o lançamento do marco fundamental, com toda pompa e circunstância, em 19 de dezembro daquele ano, pelo presidente da Província, José Júlio de Albuquerque Barros, junto à entrada do colégio. Detalhe: a escola ainda estava em construção, já que as obras do prédio militar haviam se iniciado em 1872 e só foram concluídas em 1887.
Mas a ideia jamais saiu do papel. Os críticos alegavam que só a abertura da barra de Rio Grande resolveria o estrangulamento da economia gaúcha. Restou o marco inaugural, hoje guardado como relíquia no Espaço Cultural do Colégio Militar. De acordo com a 1º tenente Gislaine dos Santos, responsável pelo espaço, por razões de preservação da peça, ela não está exposta de forma permanente, sendo exibida ao público em ocasiões especiais.


