A história dos cabarés está ligada às cidades portuárias. Vejam o exemplo de Rio Grande, no sul do Estado, que foi, durante boa parte do século 20, parada obrigatória de artistas que vinham de navio de Buenos Aires ou faziam o caminho inverso para RJ e SP.
— Muitos deles se apresentavam no Cabaré da Mangacha, ambiente sofisticado e cosmopolita, com mulheres bonitas e shows espetaculares — anota Roberto Jung, autor do livro O Cabaré da Mangacha (lançamento da Errejota Editora).
Como a maioria das casas noturnas que viram lenda, o cabaré rio-grandino é cheio de mistérios. Não há absoluta certeza sobre a nacionalidade da proprietária, embora o atestado de óbito indique que fosse espanhola. As imprecisões rondam seu nome verdadeiro — Luvodina ou Lidovina Orallo? Há consenso de que chegou a Rio Grande em 1917. Antes, havia sido vedete do Club dos Caçadores, na Capital, e em boates de Pelotas e Bagé. Depoimentos a descrevem como “voluntariosa, exigente e perfeccionista”.

Ela abriu o cabaré ao final dos anos 1920 com Juan Raphael de Mugica, pianista espanhol de uma companhia teatral que passou pela cidade e se tornou marido e sócio. Ficava na Rua Uruguaiana (atual Silva Paes), de frente para a estátua do marinheiro imperial Marcílio Dias. Diz-se que, à certa altura, a estátua foi pichada: “Mangacha, por ti me rasgo todo”. Com capacidade para 200 pessoas, o salão foi palco de artistas e orquestras como Mascarenhas e Conchita, Suspiros de España e Ensueño Tropical (orquestra feminina de Cuba).
O Cabaré da Mangacha durou até 1970. Quando a fundadora faleceu em 1953, aos 66 anos, perdeu muito de seu glamour. Após o fechamento, o casarão foi demolido, dando lugar a um posto de gasolina. Já lançado na Feirinha do Cassino, em Rio Grande, a obra de Jung — jornalista e pesquisador com 23 livros publicados, entre eles, biografias de Djalma do Alegrete, Maria Baderna e Barão da Barra do Chuí — terá lançamento na Capital no dia 21 de março, na Feira do Livro do Chalé da Praça XV.




