Houve época em que a área central da Capital era “vastamente infestada de feras”, conta Ary Veiga Sanhudo em seu livro Porto Alegre – Crônicas de Minha Cidade. No início da colonização açoriana, o perigo andava à espreita. O Guaíba — ainda chamado de Lagoa de Viamão — convertia-se num banhado espesso ao receber o Arroio Dilúvio, “por esse tempo, coalhado de jacarés amparados em canarinhos papos reluzentes”.
Mas vou dizer para vocês que isso era o de menos. Nas primeiras décadas do arraial, felinos cruzavam sangas e arroios. Entre eles, uma onça malhada. Ela tinha a sua toca numa trilha íngreme, que vinha da Rua da Igreja (atual Duque de Caxias), no topo da colina, até próximo às margens do Guaíba. Não à toa, a ladeirinha sinuosa era conhecida como a Rua da Cova da Onça.
Sanhudo explica: “O que os antigos chamavam de Rua da Cova da Onça pode ser identificado como aquele trecho da moderníssima Rua Gal. Cipriano Ferreira, precisamente entre as Ruas Duque de Caxias e Cel. Fernando Machado”. Pois bem: aquele era o território da onça e ai de quem a importunasse. À noite, ela emitia urros de arrepiar transeuntes desavisados, só para mostrar que ainda era a dona do lugar. Bem que “pistoleiros e fanfarrões, munidos das mais esquisitas armas”, tentaram desentocá-la, relata o cronista. No mais das vezes, desceram a lomba em desabalada corrida, como se a fera fosse “arrancar-lhes o calcanhar ou cravar-lhes as garras no lombo”.
Foi preciso que o governador José Marcelino de Figueiredo mandasse vir de Viamão (sede da Capitania do Rio Grande de São Pedro) “gente destemida e afeita a tais rasgos de temeridade e heroísmo” para matar a onça, cujo couro malhado foi estaqueado e erguido em pontas de vara, como troféu, na Praia do Arsenal (ali perto de onde, hoje, está a Usina do Gasômetro). Resta contar que, em 1936, a ruela torta ganhou o nome oficial de Rua Gal. Cipriano Ferreira, homenagem ao militar natural de Santana do Livramento, que havia falecido três anos antes.





