
No dia 24 de agosto de 1954, há exatos 64 anos, data em que o presidente Getúlio Vargas se matou, eu estava servindo ao Exército, no 2º Regimento de Cavalaria Mecanizado, na Serraria, bairro de Porto Alegre.
Quando, pela manhã, a notícia chegou ao quartel, provocou grande comoção. Ao mesmo tempo, soube-se que, no centro da Capital, o povo, triste e revoltado com o acontecido, direcionou sua fúria contra o jornal Diário de Notícias, com o qual o jornalista Carlos Lacerda, principal articulador para a queda do presidente, tinha vínculos. Populares invadiram a sede do periódico, jogaram os móveis pela janela e atearam fogo a tudo. Depois, a Rádio Farroupilha, também do grupo Diários Associados, foi depredada.
Como éramos a força máxima do momento, fomos convocados pelo coronel Mauro, comandante do quartel, a deslocar-nos urgentemente para a região central, embora muitos tanques estivessem em manutenção. Na correria no pátio do quartel, aconteceu o primeiro incidente: um soldado tropeçou em seu fuzil (mosquetão, na época). Estando o mesmo engatilhado, disparou e a bala, passando por todos os que estavam no pátio, foi se alojar na traseira de um Jeep. Não é preciso dizer que o soldado foi detido por 15 dias. Passando pela praia de Ipanema, a lagarta de um dos tanques se rompeu e foi de encontro a um poste. Chegando ao Centro, tomado pelo clima de revolta e de violência, levamos um bocado de tempo, juntamente com a Brigada Militar, para acalmar os mais exaltados e restabelecer a ordem.
Quando a noite chegou, naquele terrível dia de inverno, os tanques rumaram para a frente do QG do III Exército, onde seria o pernoite. Para desilusão nossa, o quartel já estava superlotado de soldados, e a ordem que veio foi para que dormíssemos dentro dos tanques (o que seria muito desconfortável) ou mesmo sobre os paralelepípedos da Rua da Praia, o que fizemos, apesar de, na pressa, termos trazido somente duas mantas, cantil e marmita. Aquele sereno frio da madrugada que caía sobre nós foi torturante.
Na segunda noite, fomos montar guarda na ponte do Rio Gravataí, em Canoas, já que havia boato de que uma turma de baderneiros viria de Novo Hamburgo para atacar prédios públicos da Capital. Próximo da meia-noite, vimos cerca de 15 picapes, todas iguais, com lona por cima das carrocerias, vindo em comboio. Fechamos o cerco sobre as mesmas, e, diante da negativa dos motoristas para que removessem as lonas, o tenente que nos comandava mandou furá-las com baionetas. Os motoristas, diante da ameaça, concordaram em retirá-las. Para nossa surpresa, era apenas um grande carregamento de alpargatas, porém sem nota fiscal.
Nossa próxima missão foi patrulhar o aeroporto Salgado Filho. Nessa, fomos mais felizes, pois foi permitido dormirmos nas poltronas dos passageiros até que eles chegassem, às 5h. As comissárias de bordo, gentilmente, traziam para nós os lanches servidos nos aviões, pois nossa comida vinha da Serraria e chegava gelada. Depois de quase um mês montando guarda na cidade, apesar do ambiente estar mais calmo, fomos para o Parque Farroupilha, cujo gramado, para nós, era um verdadeiro colchão de molas. O coronel, nosso comandante, disse-nos que, “para dar o exemplo” (já que sabia que vínhamos sofrendo), apesar de ele ter alojamento garantido no quartel dos cadetes, na primeira noite, dormiria na grama no meio de nós.
A turma do frege (sempre existe) resolveu aplicar uma pegadinha num soldado, cujo apelido era Burro Branco, pois, no dia da primeira apresentação no quartel, apareceu de terno branco e gravata. Os gaiatos verificaram seu horário de vigia, que seria à 1h, viram o local onde o coronel iria dormir e disseram ao “burro branco” que o seu substituto estaria dormindo perto do comandante. Quando chegou a hora aprazada, com todos os soldados despertos para ver o que aconteceria, o soldado, não tendo resposta do substituto, que, nessa altura, já tinha mudado de local, tentava acordá-lo em altos brados e chutava os colegas que ali dormiam, acabando por chutar também o chefe, que, acordado, percebeu a brincadeira e ordenou ao assustado recruta que fosse dormir. A melhor parte foi quando, de volta ao quartel, após a longa jornada, o esforço dos soldados foi compensado com 15 dias de licença.
Colaboração de Dino Bertoglio

