
A família de Vitor Marques Ferreira, de quatro anos, leva a sério o distanciamento social. O menino saiu de casa apenas uma vez desde o começo da quarentena, quando conseguiu estrear uma das quatro máscaras de pano estampadas que a mãe, a auxiliar administrativa Marilia Marques, 40 anos, comprou para ele.
Foi no domingo de Páscoa, que passou na casa do pai. E ele mostrou que aprendeu direitinho tudo o que treinou com a família em casa.
— Desceu no elevador com as mãos no bolso, sabendo que não podia encostar em nada. E só tirou a máscara quando chegou à casa do pai — conta Marilia.
A máscara de pano é uma ferramenta recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde para tentar reduzir os casos de coronavírus. Mas não há um consenso entre infectologistas se devem ser usadas por crianças, pois vestir essa proteção não é tão simples quanto parece.
Entre uma série de cuidados que precisam ser tomados, não se pode tocar na frente do tecido sem higienizar as mãos, antes e depois. Se adultos já têm dificuldade de se policiar o tempo inteiro, nem todas as crianças conseguem ter a disciplina do Vitor.
Infectologista pediátrico da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS), Luis Carlos Ribeiro afirma que, se os pais necessitarem tirar os filhos de casa por algum motivo inevitável, é indicado que vistam máscaras do tamanho adequado na criança a partir de dois anos. Ele recomenda que a família explique, de acordo com a capacidade de entendimento da faixa etária do filho, que ele vai ter que usar o pano sobre a boca e o nariz até voltar para casa e que não poderá encostar na proteção. Os pais devem pôr a máscara na criança com as mãos limpas, e a retirada precisa ser feita pelas alças laterais. Uma máscara caseira pode ser usada por, aproximadamente, duas horas.
O especialista comenta que a principal finalidade do uso da máscara de pano por crianças é impedir que elas, mesmo assintomáticas, acabem transmitindo o vírus. E ressalta o risco de crer que os filhos — ou mesmo os próprios pais — estão a salvo só pelo fato de usar a proteção.
— Que a máscara não sirva para que pessoas deixem de cumprir outras regras de higiene e afastamento. Nesse ponto, especialmente para a criança, a máscara é secundária. O mais importante é criar o hábito de não levar a mão no rosto e lavar as mãos com água e sabão.
Outra questão destacada por especialistas é que, com escolas e creches fechadas, são raríssimos os motivos que justifiquem tirar crianças de casa — o distanciamento social é a principal arma para combater o coronavírus. Em um ambiente como um mercado, exemplifica Luis, o perigo de contaminação é grande.
— A criança passa a mão em tudo. Ela vai tocar no olho, no nariz, na boca. O ideal é não sair.
Já o infectologista do Serviço de Controle de Infecção da Santa Casa de Misericórdia e professor da Ulbra Claudio Stadnik não recomenda o uso de máscaras por crianças, em razão da já citada dificuldade de manter os cuidados durante o uso.
— A criança vai ficar mexendo, vai ficar coçando, vai usar inadequadamente — afirma. — Aquele objetivo de prevenção através da gotícula, que iria ficar presa na máscara, acaba, porque o vírus vai passar da máscara para a mão e a criança pode acabar se contaminando.
Para ele, a máscara pode ser usada por pré-adolescentes que já tenham disciplina para seguir os cuidados necessários — acredita que pelos 12 anos seja uma faixa possível.
Bebês não devem usar máscara
Mas se o uso de máscaras por crianças gera divergências, definitivamente não é recomendado para bebês. Luis Carlos Ribeiro afirma que, em crianças com menos de dois anos, existe um risco de sufocamento:
— Às vezes o nariz está escorrendo, (os bebês) salivam muito, e há risco de sufocamento maior. Não é recomendado por esse risco.
Claudio Stadnik acrescenta que quem deve usar a máscara é a mãe na hora de amamentar seu bebê, em razão da proximidade do rosto.
— Essa é uma recomendação oficial: sempre que for amamentar, higienizar o seio e usar uma máscara.



