
Não é preciso esperar o verão para degustar uma boa cerveja. Cervejarias da região das Hortênsias vêm desafiando essa velha lógica com produtos de qualidade reconhecida e experiências pensadas para quem não abre mão da bebida em qualquer época do ano, inclusive no inverno.
Impulsionada pela consolidação da cultura cervejeira, da gastronomia e do turismo de experiência, a sazonalidade do consumo é cada vez menor, conforme destaca Gustavo Cunha, executivo da Associação Gaúcha de Microcervejarias (AGM).
— O consumo de cerveja deixou de ser um hábito restrito ao verão. Nos meses mais frios, o principal movimento ocorre na mudança do perfil de consumo. Cresce a procura por cervejas mais encorpadas, maltadas e com maior teor alcoólico, que harmonizam muito bem com pratos típicos da estação e seguem entre os estilos artesanais mais consumidos durante todo o ano — explica Cunha.
A mudança é uma realidade nos estabelecimentos da região. Fernando Neumann, diretor da Cervejaria Farol, de Canela, menciona as opções stout, ris, dunkel e red ale, cervejas escuras e mais alcoólicas, como mais indicadas para os dias mais frios.
— São cervejas mais encorpadas. As escuras normalmente remetem a notas de café e têm teor alcoólico até próximo do vinho, combinando com pratos quentes. Além disso, a IPA vem ganhando cada vez mais espaço com o público — comenta.
A gerente comercial da Urwald, Licete Martiny, concorda. Segundo ela, os clientes da cervejaria, que fica em São Vendelino, demonstram mais interesse pelas linhas bock e dunkel alemã, além da inglesa porter.
Na Faraó, localizada em Picada Café, entre os tipos de cerveja mais procurados no inverno, está o barley wine, com 11% de álcool, remetendo a notas de pão e tostado.
O empresário Marti Bauer explica que ela é maturada em barris de carvalho, amburana ou cumaru. Depois vem o dry stout, com menos álcool (4,2%), permitindo um consumo maior para saborear esse estilo que faz sucesso entre o público.
Também entra nessa lista a english IPA, menos amarga e aromática do que a american IPA, mas também encorpada. Por fim, Bauer destaca a red ale, que considera fácil de tomar, com um toque de malte torrado para deixar na cor certa e emprestar esse sabor.
O inverno também abre uma oportunidade para lançar novos rótulos. É o caso da Edelbrau, localizada em Nova Petrópolis, que lançou uma edição limitada para esta temporada.
Voltou ao portfólio uma das receitas sazonais da empresa, a Winter Oatmeal Stout, criada em 2015 pensando justamente na harmonização com o clima serrano e os hábitos típicos da estação. Serão comercializadas mil unidades da garrafa, que vem com um cachecol simbolizando a proposta.
Turismo cervejeiro

Gustavo Cunha observa que o inverno é um bom momento para promover harmonizações gastronômicas, festivais e experiências em brewpubs e fábricas. São formas de fortalecer o turismo cervejeiro e ampliar o consumo durante um período que, há alguns anos, era considerado de menor movimento.
— O turismo cervejeiro vem se desenvolvendo e é considerado um dos principais caminhos para ampliar a conexão entre as cervejarias, os territórios e os consumidores. As empresas estão compreendendo que podem oferecer não apenas a bebida, mas uma experiência completa: visita à fábrica, contato com os mestres cervejeiros, degustações orientadas, harmonizações, gastronomia, história da marca, eventos culturais e conhecimento sobre o processo produtivo — afirma o executivo da AGM.
Uma das primeiras da região, quando a ideia de se fabricar cerveja artesanalmente ganhou força no Brasil, foi a Cervejaria Edelbrau, de Nova Petrópolis.
Em 2011, Fernando Maldaner e Samuel Zang haviam passado um ano na Irlanda, de onde voltaram com a ideia de empreender no ramo. Mas só depois da pandemia que nasceu o projeto da Experiência Edelbrau, atração interativa que convida o público a explorar a história e a fabricação de cerveja artesanal, em um espaço com 300 metros quadrados.
Os visitantes percorrem o caminho abrindo portas, interagindo com telas, sentindo aromas e ouvindo histórias. É onde o Cuco, mascote da cervejaria, dá o ar da graça.
É possível até mesmo entrar em um tanque para fazer uma foto. O ingresso custa R$ 79 para maiores de 18 anos, com direito a degustação, e R$ 20 para quem tem entre 10 e 17 anos. Crianças não pagam e quem optar por não beber, pode converter 50% do valor em compras na loja – que além da bebida tem souvenirs como canecas, copos e bonés.
Já o bar e restaurante serve petiscos de quarta a sábado, à noite, e almoço servido à mesa, em formato de rodízio, aos sábados e domingos.
Mais de 40 estilos de cerveja já foram produzidos desde a fundação. Hoje são 13 à venda pelo site e na loja física. O cardápio inclui algumas mais lupuladas, como IPA, leves como a pilsen e cervejas envelhecidas em barrica de carvalho americano.
— Temos um foco muito grande na qualidade. Já conquistamos mais de 50 premiações, inclusive na questão da sustentabilidade. Desde 2016, produzimos 100% da energia consumida aqui – destaca Maldaner.
Em relação à sustentabilidade econômica e ambiental, outras duas ações se destacam. Por ser útil ao trato bovino, o bagaço da cevada é enviado a um produtor da região, que em troca cede lenha para a caldeira da cervejaria.
Além disso, mais de 50 mil litros de água de reuso são empregados na irrigação do jardim e na limpeza do piso. A ideia, segundo Maldaner, é fazer com que a empresa seja um fator de transformação do ambiente em que está inserida.
A Edelbrau também apoia e desenvolve ações de cunho social. Este ano, lançou quatro rótulos com desenhos feitos por alunos da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e que representam seus próprios sonhos.
A partir de um deles, que consistia em andar de barco, a turma toda foi levada até Porto Alegre, pela empresa, para um passeio de catamarã pela orla do Guaíba.
Três cervejarias para visitar no inverno
Nem só de vinho se faz o inverno na serra gaúcha. O conhecimento acumulado por cervejarias locais encontra uma combinação de sucesso na vocação turística e gastronômica da região, aliando sabor e experiência e oferecendo opções variadas. A seguir, veja três cervejarias que vale a pena conhecer.
Faraó surge em momento histórico

Fundada em janeiro de 2020, a Cervejaria Faraó fica em Picada Café, na divisa com Morro Reuter. A chegada da pandemia logo nas primeiras semanas de atividade não abalou o sonho de Marti Bauer e seu sogro e sócio, Márcio Schneider.
Eles já produziam cerveja para consumo próprio, mas tinham resolvido transformar a paixão em negócio e começaram a se estruturar para isso. Quando tudo ficou pronto, veio a recomendação para ninguém sair de casa.
O período de distanciamento social fez com que o serviço de telentrega funcionasse bem e, assim, as vendas ao consumidor não demoraram a decolar. A venda para lojas e bares parceiros ampliou a distribuição.
Quando o coronavírus deu sinais de arrefecimento e tudo foi voltando ao normal, a Faraó lançou seu biergarten, um espaço dedicado a eventos. A estrutura conta com 12 torneiras, mas que podem chegar a 20 dependendo do número de participantes.
— Somos nós que promovemos tudo. O último foi o kerb, e antes tivemos a festa junina. Também fazemos festa anos 1980, caminhada, noite da pizza, do hambúrguer, entre outros eventos – conta Bauer.
O biergarten chega a receber cerca de 700 pessoas. A operação, nestes casos, conta com parceiros terceirizados na cozinha. Já os domingos com parrilla, por exemplo, são promovidos pela própria equipe, geralmente restritos a menos de 50 pessoas.
E se a opção for por eventos fechados, eles também atendem: os grupos podem confraternizar ou até mesmo fazer uma caminhada antes, escolhendo um dos 14 percursos mapeados nos arredores da fábrica.
Uma nova planta fabril está em construção, ainda sem data para inauguração. Os empresários não têm pressa, pois querem que seja um espaço de visitação para o público e estão de olho em cada detalhe.
De qualquer forma, será um reforço importante para a fabricação dos 29 tipos de cerveja e chope que saem da empresa atualmente – com sucesso de público e crítica.
A czech lager ficou com a medalha de ouro na Copa Sul-Americana de Cervejas em 2025, enquanto a pilsen levou a prata. English IPA e Red Ale também já conquistaram prêmios, em nível estadual, nos anos anteriores.
Banquete alemão

Quem vai para o Vale dos Vinhedos corre o risco de ficar pelo caminho ao passar por São Vendelino. É lá, na encosta da serra, que a Cervejaria Urwald atrai visitantes, com seus mais de 40 tipos da bebida, sendo a lager uma das especialidades da casa.
A fábrica tem um espaço exclusivo para receber o público, e a loja oferece souvenirs e um empório com produtos importados diretamente da Alemanha.
Na sexta-feira e no sábado, o lugar funciona como um restaurante e pub, e um domingo por mês é servido o banquete alemão, com clássicos da gastronomia germânica como pretzel, bolinho de batata, spätzle, bockwurst e schnitzel.
Em Canela, uma das pioneiras

Fazendo chope há mais de 20 anos, a Cervejaria Farol, de Canela, tem capacidade mensal para fabricar mais de 25 mil litros da bebida. Entre os estilos que saem dali estão pilsen, IPA, stout e cacau lager.
Os produtos são comercializados em bares e restaurantes da cidade, alcançando também cidades como Gramado, Nova Petrópolis, Igrejinha e Três Coroas. A fábrica tem visitação guiada, permitindo conhecer o processo de produção, a história da empresa e curiosidades do mundo da cervejaria artesanal.
Na sequência, os visitantes experimentam alguns tipos de chope da casa e são apresentados às suas principais características, diferenças e opções de harmonização. Entre os eventos promovidos pela equipe estão a sunset com música eletrônica ao ar livre, nas tardes de sábado, avançando para a parte interna à noite, oktoberfest, summerfest e winterfest.
O restaurante é aberto ao público em geral e também pode ser reservado para eventos privados, como casamentos, aniversários ou encontros corporativos.


