
Meu caso de amor com o Rio de Janeiro começou no ano em que completei a maioridade. Com 18 anos recém-feitos, comprei uma passagem da Varig em 10 vezes e fui conhecer a tal "Cidade Maravilhosa", a convite de uma amiga carioca.
Foi amor à primeira vista. Ela morava em Laranjeiras e, antes mesmo de conhecer a Zona Sul, já estava apaixonada. Não só pela paisagem, mas pelo jeito de ser daquele povo alegre e descolado.
Costumo dizer que o Rio é um estado de espírito. É por isso que quase todos os anos reservo uns dias das férias de verão para reencontrar essa cidade que me encanta e ultimamente me assusta.
Quando o avião começa o processo de descida, "minha alma canta". Samba do Avião é a trilha sonora desse Rio em que se pode ir ao melhor restaurante calçando uma havaiana e o chope é cremoso em todos os botecos.
Boteco... Eis um ponto no qual o Rio é imbatível. A gente chega, senta no tonel que virou banco e em poucos minutos já está conversando com o vizinho de mesa.
Sim, os vizinhos de mesa sempre reconhecem o nosso sotaque e puxam assunto sobre o Rio Grande do Sul.

Nessas mais de quatro décadas, já passei alguns anos sem ir ao Rio. Por medo da violência, dos arrastões, das barricadas. Depois penso que o Rio até quando é ruim é bom e que os artistas dos nossos afetos moram lá, caminham no calçadão, vão à praia, levam uma vida parecida com a nossa.
E retorno, com a família, de mala e sem cuia, porque a cidade não está para água quente. É água de coco todo santo dia e sol na cabeça. Na praia só molho as canelas, porque o banho de mar é para os fortes – e tenho medo de ser tragada por aquelas ondas traiçoeiras.
Tendo visitado mais de uma vez os pontos turísticos, como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar, meu roteiro é bem trivial. Segue a lista – em ordem alfabética – dos lugares que não podem faltar numas curtas (ou nem tanto) férias no Rio:
Alfaia
Meu restaurante preferido. Português legítimo, com atendimento incrível e o melhor bacalhau que já experimentei (em diferentes versões). Polvo e camarão nota 10, com vinho da terrinha a preço de custo. Fica em Copacabana (Rua Inhangá, 30).
Arpoador
Sim, é um clichê, mas o pôr do sol visto da Pedra do Arpoador é um espetáculo diário. Os turistas se amontoam para ver o sol cair no mar, ao lado do Morro Dois Irmãos, outro monumento que a natureza esculpiu.
Casa Roberto Marinho

O lendário sobrado da Cosme Velho, 1105, onde o dono da Globo morou até morrer, é hoje um centro cultural fantástico, ao pé do Corcovado, com um acervo permanente das obras que ele adquiriu ao longo da vida e exposições temporárias que justificam a visita recorrente.
Jardim Botânico
É um dos meus lugares preferidos no mundo, com aquela variedade de plantas tropicais que não canso de admirar. Melhor ainda se for janeiro, quando floresce o abricó de macaco, uma das árvores mais bonitas do mundo.

Jobi
É o boteco dos botecos, no coração do Leblon (Ataulfo de Paiva, 1166). O chope cremoso, os petiscos que são sempre uma delícia e aquele clima de eterno happy hour. Depois do terceiro ou quarto copo, você corre o risco de achar que na árvore em frente esculpiram um deus, mas é só o Thiago Lacerda encostado, esperando mesa – juro que vi.
Leme
Na Pedra que marca o começo da Zona Sul há uma estátua de Clarice Lispector lendo. Lugar para ficar contemplando a orla antes de iniciar uma caminhada que pode se estender até o Leblon. Caminhar na areia é um dos encantos do Rio.
Mureta da Urca
O bairro onde fica o Pão de Açúcar é um dos mais bonitos e seguros do Rio. A mureta é onde o povo fica comendo pastel e tomando cerveja enquanto vaga uma mesa no Bar Urca, o restaurante de frutos do mar que é uma festa para o paladar e para os olhos, com a vista da Baía da Guanabara.
Museu do Amanhã

Difícil resumir em poucas linhas o que recheia o incrível prédio desenhado por Santiago Calatrava. Interativo, surpreendente, rico em informações que podem ser exploradas em diferentes tempos – e sempre atual. Boa chance para andar de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), a partir do Aeroporto Santos Dumont.
Tropeço
É o nome do boteco do restaurante Degrau, no Leblon (Ataulfo de Paiva, 517). Dizem que no passado, era onde se esperava a vaga para o restaurante. Hoje é um boteco/restaurante com vida própria e com o melhor bolinho de bacalhau da Zona Sul.




