
O fim de ano está sendo diferente para um casal que foi até o Alasca a bordo de um carro e de uma van. Desde fevereiro de 2023 viajando, a dentista Renata Piassarollo dos Santos, 32 anos, e o analista de sistemas Leonardo Daltoe, 36, devem voltar ao Rio Grande do Sul.
— O nosso plano é matar a saudade da família — explica Renata, gaúcha de Rio Grande.
Antes da aventura, ela e Leonardo, natural de Porto Alegre, moravam em Esteio. Por cerca de 10 anos, ficaram guardando dinheiro para fazer um ano sabático, que, no fim das contas, está virando três.
Ao todo, a viagem já teve 66 mil quilômetros rodados (cerca de 50 mil quilômetro até o Alasca), somando quase R$ 36 mil gastos em combustíveis.
Essa história é a última de 2025 na série de reportagens Tem Gaúcho na Estrada (leia abaixo outras aventuras), que deve seguir ao longo de 2026.
Tem Gaúcho na Estrada
Um carro com mais de 30 anos
A maior parte do trajeto até o Alasca foi feita com uma Pajero GLX ano 1993, apelidada de Guaipeca. Segundo o casal, o carro foi comprado em 2021, por R$ 28 mil. O que Renata e Leonardo não imaginavam eram todos os desafios que viriam pela frente. Ainda assim, o nome já mostra o apego emocional.
— Queríamos carregar um nome que remetesse à nossa infância, ao nosso aconchego. Guaipeca é o nome pelo qual sempre chamamos os cachorros de rua e, como geralmente o pessoal faz (o trajeto) com a Defender (outro carro), quando compramos a Pajero, todo mundo dizia que ela não sairia do pátio, que não chegaríamos nem na esquina — conta Renata, afirmando que as pessoas passaram também a conhecer o casal como "os guaipecas".
Com o carro, ela e o marido saíram do Rio Grande do Sul e passaram por 16 países: Uruguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá, Costa Rica, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Guatemala, Belize, México e Estados Unidos.
Um perrengue atrás do outro
Antes de pegar a estrada, o carro passou por manutenção. Em poucos dias, também teve algumas transformações: parte dos bancos foi retirada e uma cama improvisada foi montada. O veículo ganhou itens como armário, geladeira, bagageiro, barraca de teto, caixa d'água, mangueira para chuveiro e vaso sanitário portátil.
— Estávamos morando nos fundos da casa do meu sogro para poder juntar mais dinheiro. Batemos a porta, vendemos os nossos móveis e pedimos demissão dos serviços, que acho que foi o mais difícil — lembra a viajante, sobre o início da aventura.
Ainda antes de sair do Estado, Guaipeca teve um problema no motor e fez o casal parar por 40 dias. Entre os perrengues, no Peru, um novo problema fez o casal precisar de uma oficina mecânica. E, nos Estados Unidos, após tentativas para arrumar o motor, os viajantes tomaram a decisão de deixar a parceira de estrada na casa de amigos e conseguir outro veículo para chegar ao Alasca.
A bordo de uma van

Os viajantes trabalharam nos Estados Unidos, fazendo entregas de e-commerce, para juntar dinheiro a fim de comprar outro veículo. Eles encontraram uma Chevy Van Express 1500 ano 2006, no valor de 3,8 mil dólares (cerca de R$ 21 mil, na cotação atual).
Com a nova parceira, Renata e Leonardo passaram pelo Canadá e chegaram ao Alasca em julho de 2025. Ao cumprir a meta, se deram conta de que o que mais gostaram, na verdade, foi do estilo de vida:
— Ficamos muito mais felizes quando reencontramos os amigos (da estrada) do que quando chegamos na placa do Alasca — detalha Renata hoje, ainda que feliz com a conquista.

Sem roteiro
Para Leonardo, a melhor parte da viagem foi na América do Sul, especialmente no Equador, onde viram vulcões e compartilharam momentos com diferentes pessoas.
No início da viagem, até Ushuaia, na Argentina, o casal costumava seguir uma programação. Mas, depois, começou a montar o roteiro durante o caminho. A ideia, como esclarece Leonardo, era desconectar da rotina, curtir a viagem, conhecer pessoas e aprender com outras culturas:
— Quando chegamos em Ushuaia, percebemos que aquele tipo de viagem com programação que tínhamos não era o que queríamos ter, então começamos a viajar mais devagar.
"Queremos levar ela de volta para o Brasil"

Depois de chegar ao Alasca, o casal retornou de van, que já foi vendida, até o local onde estava Guaipeca.
— Eu abri o motor novamente para tentar dar uma arrumada para conseguirmos chegar até Miami, fazermos cinco mil quilômetros, para conseguirmos colocar ela num barco para levar de volta ao Brasil porque queremos, de todos os modos, levar ela de volta para o Brasil — reforça Leonardo.
Ele e a esposa iniciaram o trajeto, mas, no meio do caminho, um novo problema: a roda caiu junto ao eixo. Eles relatam que estavam em um lugar mais desértico, sem apoio ao redor. Com estabelecimentos fechados devido ao feriado de Ação de Graças, o resultado foi terem ficado quase uma semana fracionando água e se alimentando com comida enlatada.
Após conseguirem retornar à estrada, chegaram ao México, de onde Guaipeca parte em navio rumo à Argentina.
O que vem por aí

Renata e Leonardo têm o sonho de seguir viajando pela América do Sul, incluindo o Brasil, para, um dia, comprar um terreno no Nordeste. Mas esse plano requer um novo planejamento financeiro. Para 2026, o que já está claro é que o casal quer manter a Guaipeca na família. Os dois brincam, rindo:
— Eu quero que os nossos filhos vejam ela — afirma Renata.
Leonardo completa:
— Nem que ela fique exposta no pátio.
Nas redes sociais, toda a aventura é mostrada em @tripdaguaipeca.
Já viveu algo parecido? Compartilhe a história pelo e-mail: isadora.garcia@zerohora.com.br
















