
Um casal gaúcho já percorreu ao menos 12 mil quilômetros a bordo de uma Kombi Picape 1983 que, há alguns anos, virou a casa deles. Jaqueline Garcia Silveira, 57 anos, e Luís Carlos Silveira, 58, decidiram alugar o apartamento onde moravam em Taquara, no Vale do Paranhana, e adotar a estrada como endereço.
A Kombi é como uma casa sobre rodas: tem chuveiro, TV, internet, forno elétrico, frigobar, máquina de gelo, fogão e até máquina de lavar. O veículo foi comprado em 2018 já em formato de motorhome, mas desde então vem sendo adaptado conforme as preferências do casal.
Para adquirir a parceira de estrada, eles entregaram o carro e financiaram o restante. Os dois estimam que a Kombi tenha custado em torno de R$ 60 mil.
O nome do veículo resume a trajetória do casal: Kombi Katarina Fábrica de Sonhos, uma referência ao desejo de viajar, que os acompanha desde a adolescência.
Essa história faz parte da série de reportagens Tem Gaúcho na Estrada (confira abaixo outras aventuras).
Tem Gaúcho na Estrada
Já fez ou conhece alguém que topou uma viagem como essa? Compartilhe com isadora.garcia@zerohora.com.br.
Sonho de adolescentes

Jaqueline, natural de Taquara, e Luís, de Santana do Livramento, na fronteira oeste, estão juntos há 40 anos. O sonho de cair na estrada tem praticamente a mesma idade: nasceu ainda na adolescência, no início do namoro. Ao longo da vida do casal, porém, a criação dos filhos e as demandas do trabalho fizeram as prioridades mudarem. Depois, com a chegada dos netos, eles decidiram permanecer perto da família.
— Sempre falávamos que, no dia em que nos aposentássemos e pudéssemos estar na estrada, nós iríamos. Quando nos aposentamos, antes da pandemia, compramos o veículo. Só que logo veio a pandemia e acabamos, de novo, dando uma segurada no nosso sonho — lembra Jaqueline.
Até que surgiu a oportunidade: era hora de vender a Kombi ou colocá-la na estrada. Jaqueline sugeriu que os dois fizessem um teste por alguns meses.
Novo estilo de vida
— Aí retornamos para o nosso apartamento. No mesmo dia, decidimos alugar e ir morar na estrada. No outro dia, o apartamento já estava alugado. Nós tínhamos, acho, que 15 ou 20 dias para entregar. Esvaziamos ele, entregamos a chave e caímos na estrada — resume Luís.
Parte dos itens que tinham no apartamento ficou guardada na casa de uma familiar. Outra parte foi doada ou vendida, segundo Jaqueline.
— Realmente, hoje a nossa casa é na Kombi — reforça ela.
Embora o espaço seja pequeno, Luís gosta de dizer que "o quintal é grande". Durante a noite, o casal costuma estacionar em postos de combustível, praças e parques.
Antes de adotarem esse estilo de vida, o maior receio era dividir-se entre o medo do desconhecido e a sensação de perder o convívio com a família.
— Eles (a família) nos incentivam a continuarmos na estrada. Eu sempre digo: enquanto Deus me der força e coragem para continuar, não voltamos mais para o apartamento. A nossa ideia é que, enquanto eu conseguir trocar pneu, vamos continuar — pontua Luís.
Uma viagem sem prazo
A nova vida começou oficialmente em novembro de 2024. Desde então, o casal já viajou pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, chegando à divisa com o Pará e passando pela Bolívia e pelo Paraguai. Depois desse roteiro, voltaram para as terras gaúchas para matar a saudade da família.
Agora, eles planejam ficar pelo Estado até o início de dezembro. Depois, pretendem ir à Santa Catarina, atravessar Goiás e Tocantins e alcançar Belém, no Pará. Após esse percurso, querem visitar as praias do nordeste brasileiro. No futuro, sonham em percorrer toda a América do Sul.
Em todos os casos, há um ponto em comum: não existe prazo. O casal, inclusive, chega a se perder no calendário.
— Hoje temos qualidade de vida — destaca Jaqueline.
Mecânica preventiva
No dia a dia, Jaqueline e Luís tentam ter um teto máximo de R$ 1,5 mil para combustível ou eventual ajuste necessário no veículo.
Jaqueline é professora aposentada e hoje faz cartas artesanais para uma empresa. Luís atuava no comércio e, no trajeto, faz instalações de sistemas fotovoltaicos.
A Kombi já exigiu manutenções. A principal delas foi pneu e roda, mas Luís ressalta que faz "sempre uma mecânica preventiva" para evitar que fiquem empenhados na estrada.
A parceria

As amizades feitas em diferentes regiões e o acolhimento de desconhecidos são os pontos que mais têm chamado a atenção do casal.
O tempo maior de convívio dos dois também amadureceu a relação, como avalia Luís. Sem a opção de "dormir na sala", como brinca, a tolerância e a cumplicidade foram reforçadas.
Nessa parceria, um elemento gaudério também se faz presente:
— Hoje, temos tempo de poder levantar a hora que queremos, tomar o nosso chimarrão sem ficar pensando: "Vamos ligeiro que temos que fazer outra coisa".
Para quem pensa em um dia colocar o pé na estrada, eles sublinham: o importante é ir, viver e criar histórias para contar para os netos.









