
Dez mil quilômetros pedalados são o resultado de duas viagens feitas pelo gaúcho Atila Valadares, 38 anos, nas últimas décadas. O editor de vídeo percorreu parte da América do Sul de bicicleta e, ao contrário do que se poderia imaginar, não houve preparo físico, mas a certeza de que estava saudável para conseguir seguir no caminho. E o mais importante: sem pressa.
A inspiração para a aventura partiu das histórias de um primo mais velho, que fazia viagens de moto. De um amigo, Atila ouviu certa vez que viajar de bicicleta era algo que existia. Foi aí que, embora sem se ver como um apaixonado pelo ciclismo, Atila percebeu que o veículo de duas rodas seria uma alternativa.
— Na época, era um pouco mais escassa a informação, mas já tinha muito relato (de cicloviajantes, os viajantes de bicicleta) em blog, em coisas desse tipo, que eu usei para entender um pouco o que eu encontraria nesses lugares — explica.
Essa é mais uma história da série de reportagens Tem Gaúcho na Estrada. Entre os relatos, Zero Hora já contou sobre o casal de dentistas que decidiu viajar em motorhome distribuindo escovas de dente pelo caminho. E também sobre a família que transformou um ônibus em casa e chegou ao Alasca.
Tem Gaúcho na Estrada
Uma comunidade unida

A primeira viagem de Atila começou em novembro de 2013 e terminou quase um ano depois. O plano era audacioso: conhecer a América do Sul, especialmente a região do Deserto do Atacama, e dali talvez partir para o Alasca.
Atila lembra que gastava uma média de apenas R$ 400 por mês, à época. Na bicicleta, levava quatro alforges, espécie de malas acopladas. Uma era para casa e cama (com barraca e saco de dormir), outra para cozinha (incluindo panela e frigideira), uma terceira para alimentação e a quarta para roupas.
A hospedagem variava, mas sempre a um custo baixo ou inexistente. Atila costumava acampar, ir para hostel e até ficar em quartéis de bombeiros, mas principalmente em casas de desconhecidos.
Uma plataforma ajudava o viajante a localizar pessoas que topavam abrir as portas para recebê-lo. Ao mesmo tempo, os cicloviajantes que encontrava pelo caminho davam indicações de lugares onde ficar — até mesmo de moradores que aceitavam simplesmente ter uma barraca no pátio de casa.
— São encontros malucos que vão acontecendo, de pessoas que vão te apresentando para pessoas de uma cidade diferente. Pessoas que não te conhecem, que não têm muito por que te receber, mas que simplesmente decidem abrir as portas para um desconhecido que está viajando, porque têm interesse na viagem e acham meio maluca essa ideia — descreve Atila.
Três países
A primeira viagem partiu de Imbé, no litoral gaúcho. Depois, entre as cidades visitadas, Atila passou por Colônia do Sacramento, no Uruguai. Em terras argentinas, esteve em Buenos Aires e em Rosário, onde foi assaltado, mas também fez grandes amigos.
De trem, ele foi a San Miguel de Tucumán. E, pedalando, passou "por algumas centenas de quilômetros" pela Rota 40, conhecida rodovia argentina.
Depois, cruzou para o Chile, em San Pedro de Atacama. Já era março de 2014 e o dinheiro começou a escassear.
— Eu fiquei no Atacama com a ideia de fazer dinheiro ali, procurar trabalho, que eu consegui na época, e depois seguir viagem. Mas acabei ficando seis meses no Atacama, e essa viagem meio que acabou por aí — resume.
O retorno ao Rio Grande do Sul foi feito de avião em outubro de 2014. A aventura, ao todo, teve quatro mil quilômetros pedalados, pelas contas de Atila.
Uma nova aventura
A bicicleta que o gaúcho utilizou, uma Trek 930, já era usada. Após a primeira viagem, Atila a vendeu. Quando decidiu que ia partir para a estrada novamente, foi atrás da então compradora e recomprou o veículo.
Para Atila, a segunda viagem nasceu da "ânsia de conhecer lugares que, na primeira, acabaram ficando de fora".
Já com experiência e então acompanhado de uma namorada, ele saiu da Colômbia, passou por Equador, Peru, Bolívia e Chile e desceu até a Patagônia argentina, pedalando. Em alguns trechos, porém, os dois pegavam ônibus ou carona. O percurso durou cerca de um ano, entre 2017 e 2018. Segundo Atila, foram cerca de seis mil quilômetros pedalados.
Na bicicleta, ele chegou a levar notebook, tripé e câmera para trabalhar.
O estilo de vida era semelhante ao da primeira viagem. A Carretera Austral, rota no Chile, foi exemplo disso. Foram mais de mil quilômetros percorridos em torno de 80 dias, acampando em meio à natureza:
— Duas ou três noites talvez em camping, porque há bastante opção, mas quase sempre, como o lugar permite, levávamos a barraca e ficávamos autossuficientes, acampando em lugar totalmente selvagem.
Os gastos maiores eram com comida, manutenções nas bicicletas, deslocamentos pagos e hospedagens esporádicas.
O retorno ao Rio Grande do Sul se deu, em parte, de avião e de barco. Mas do Uruguai até solo gaúcho, na carona de um amigo.
"É bem possível que plantemos essa sementinha"
Para Atila, a melhor parte das viagens pode ser resumida em pessoas e paisagens.
— Tem uma coisa mágica que acontece quando tu chega com a bicicleta, vulnerável, em um lugar diferente. As pessoas te recebem de um jeito que é até emocionante de falar — pontua.
Por outro lado, na avaliação dele, o mais difícil foi perceber que a aventura estava virando rotina e que, assim, era hora de chegar ao fim.
— Foi meio difícil de conseguir aceitar que, em algum momento, isso que é extraordinário e que era imprevisível vira rotina e, ao virar rotina, também pode perder a graça — argumenta.
Ele não nega, porém, que toparia voltar a viajar de bicicleta — talvez pela Europa, talvez pelos Estados Unidos.
Hoje, se preparando para a paternidade, ele conta que o apreço por viajar é compartilhado com a esposa, o que leva a família a imaginar que essa paixão pode ser passada adiante.
— Acho que é bem possível que plantemos essa sementinha também (risos) e que, em algum momento, sejamos nós dois aqui com o coração na mão porque a nossa filha está vivendo coisas parecidas — completa Atila.

















