
É levando "uma casa" sobre o skate que o carioca David Paixão, 29 anos, está fazendo um trajeto do Rio de Janeiro ao Uruguai. A viagem começou em 1º de agosto, partindo da região do Sambódromo Marquês de Sapucaí. No fim do mês, o aventureiro já estava em solo gaúcho.
Ainda falta chão para chegar em território uruguaio, mas a missão se mantém. E é compartilhada por David no Instagram (@davidpaixaoofc), no YouTube (@FuiSóComaFé) e no TikTok (@fuisocomafe).
— É uma energia muito positiva, é diferente. Então isso tem sido o que eu mais gosto, essa interação com a galera mesmo — destaca.
Passagem pelo RS
Ele entrou no Rio Grande do Sul por Torres, no Litoral Norte. Até lá, segundo ele, foram 1.581 quilômetros. Apenas em Porto Alegre, David passou 12 dias, passeando, fazendo documentações e aguardando o sol tomar o lugar da chuva. Depois, conseguiu seguir viagem e, no último contato com Zero Hora, estava em Camaquã, no sul do Estado.
— Eu estou gostando de tudo. Uma coisa que me deixou muito impressionado, tipo boquiaberto, é como aqui tem área descampada, áreas em que tu olha e tu não vê nada por uns quilômetros — comenta sobre o Estado, que está conhecendo agora.
A baixa temperatura, que surpreende tantos turistas, não gerou espanto no carioca. Ele diz que já estava acostumado ao frio porque tinha o hábito de viajar para o interior de São Paulo durante o inverno. Por isso, quando chegou por aqui, foram "mil maravilhas".
De onde partiu a ideia
David é da área de fotografia e, mais recentemente, atuava como motoboy no Rio até perder a moto em julho deste ano. Segundo o carioca, devido pendências na documentação.
— Fiquei meio que sem chão, olhei para um lado e para o outro e falei: "O que é que eu tenho, pelo menos, para sair fora desse país em que a moeda não vale de nada e tentar alguma coisa em outro canto?". Olhei, um skate e R$ 300 na conta. É isso. Surgiu da falta de opção de conseguir fazer de outro jeito — critica.
É o sonho de ter uma melhor condição financeira que o motiva nas remadas no skate. O Uruguai surgiu como possibilidade por estar próximo ao Brasil e por ter um idioma mais parecido com o português.
No improviso
Quando a ideia estava para sair do papel, David pegou o skate — com o qual já tinha familiaridade, principalmente para locomoção — e lembrou de um antigo baú de moto. Junto a um pedaço de shape (a prancha de madeira de um skate) e parafusos, o carioca montou uma estrutura para poder cair na estrada.
Com R$ 300 no bolso, pensou em usar parte do valor para comprar uma bicicleta, mas não encontrou uma dentro do orçamento. Ele decidiu, então, agilizar o caminho, pegando carona da Baixada Fluminense até as proximidades de São Paulo.
Depois, seguiu de skate no trajeto. Até que, sem água e com o "tomando conta", como descreve, pediu ajuda para o motorista de um carro parado que encontrou na estrada. Além de água, conseguiu uma carona até Praia Grande (SP). A partir de então, optou por fazer o restante do trajeto de skate.
Na estrada que conecta Curitiba (PR) a Joinville (SC), uma chuva pegou David desprevenido. O resultado: molhou tudo que estava sobre o "carrinho".
Na bagagem
David saiu de casa com o baú adaptado e uma mochila, levando roupas, alimentos, produtos de higiene e itens reserva para o skate. Pelo caminho, foi ganhando produtos de lojas e seguidores até que o skate ficou pequeno e David foi presenteado com um maior, estilo longboard.
Hoje, ele leva uma mala, uma barraca, um saco de dormir e uma mochila. Nas costas, carrega uma segunda mochila.
O dia a dia
Os postos de gasolina são os grandes aliados da viagem do carioca, seja para se alimentar, para dormir ou para tomar banho. Ele leva um fogareiro na bagagem, assim como duas panelas. Antes de o viajante ter a barraca, o perrengue era maior para descansar, ainda mais com frio: David vivia de cochilos.
— O mesmo horário em que eu paro para fazer comida é o horário em que eu paro para dormir, ou seja, eu faço geralmente uma refeição preparada por dia. A outra, geralmente, eu vou levando "besteira" de posto de gasolina (como pão de queijo e refrigerante) — explica.
Ele relata que, quando conta a sua história por onde passa, o pessoal costuma o ajudar. É esse tipo de incentivo que fez o aventureiro não pegar mais caronas. O trajeto de skate deixou de ser sua única opção de locomoção e virou uma viagem "pelo amor e pelo propósito da galera, incentivando e querendo ver".
— Ali em Osório, me ofereceram carona até o Uruguai, até onde eu vou. Eu não fui, porque o pessoal comprou muito esse barulho do skate, tá ligado? Vendo também que já tinha atravessado uma boa parte, vários municípios, que estava sendo possível o bagulho, eu também decidi por mim, me desafiar a isso. Então, depois, virou um gosto para mim mesmo, estar fazendo desse jeito — completa.
O Uruguai é uma aposta. O carioca quer começar a trabalhar e, após, decidir se tentará ficar no país ou se subirá a América Latina em busca de um lugar com melhores condições econômicas.
Prática é perigosa
Embora surpreendente, a prática de usar skate em rodovias é considerada de alto risco. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) pontua que, ainda que o Código de Trânsito Brasileiro não cite o skate diretamente, a atividade pode colocar em perigo a vida do praticante e de motoristas.
Os policiais rodoviários destacam que a velocidade dos veículos nas rodovias, que pode chegar aos 110 km/h, "é incompatível com a de uma pessoa sobre um skate". Eles alertam também para a falta de visibilidade, a instabilidade e a ausência de sistema de freios, de iluminação e de sinalização. Em relação ao uso em acostamentos, a PRF frisa que essa área é destinada para paradas de emergência.
A PRF esclarece, ainda, que cada município pode criar lei própria sobre o tema.



