
Viajante nato, no caminho para chegar à marca de 100 países conhecidos, um gaúcho se aventurou de forma diferente no ano passado. A meta era se despedir de um antigo carro da família, um Twingo de 1994, com duas portas e quatro lugares, cruzando a Cordilheira dos Andes.
Sem saber se o carro iria "aguentar o tranco", o médico Sérgio Stangler, 54 anos, partiu de Porto Alegre em 5 de junho de 2024. Junto dele, a esposa, Cindy Palominos Muñoz, 59 anos, e o filho, o estudante Hugo Vieira Stangler, 20, toparam o desafio.
Entre ida e volta, segundo Sérgio, foram cerca de 6,5 mil quilômetros rodados e R$ 7,5 mil gastos com a viagem. A chegada à capital gaúcha ocorreu na noite de 12 de junho.
Um carro da família
O médico conta que o pai dele comprou o Twingo "muitos anos atrás", tornando esse o veículo em que filhos e netos aprenderam a dirigir. Quando Hugo estava com 17 anos, Sérgio comprou o carro do pai para que o filho pudesse praticar.
— Tem toda essa conexão afetiva. O Twingo está na família há gerações. Depois que o Hugo tirou a carteira, eu dei um outro carro (para ele) e o Twingo estava lá na garagem, parado. Aí eu disse: "Antes de aposentar ele definitivamente, já que não vai ter neto tão cedo, eu podia fazer uma aventura com ele, aí podia me despedir do Twingo". E aí foi isso. Fizemos — destaca.
Essa é mais uma história de gaúchos que decidiram percorrer longas distâncias sobre rodas. Na série de reportagens Tem Gaúcho na Estrada, Zero Hora também já contou sobre a viagem de Débora e Gabriel, que foram a Bariloche, na Argentina, de Peugeot, e de Jaqueline e Pablo, que foram ao Rio de Janeiro em um carro elétrico. Confira outros relatos abaixo.
Tem Gaúcho na Estrada
Convite e preparo
A ideia da viagem com o Twingo já vinha aparecendo na mente de Sérgio. Houve espaço para pôr o plano em ação após a família ter trabalho e estudos pausados devido à enchente no Estado.
— Ele (Sérgio) tinha ido me visitar e, no meio do almoço, virou para mim e falou: "Estou com esse plano de fazer uma viagem de Twingo, ver até onde a gente vai, buscando ir até San Pedro, tu topa?". Eu fiquei meio receoso porque foi meio de supetão, mas falei que ia pensar. Um dia depois, eu falei que sim — lembra o filho, Hugo.
Sérgio diz que a esposa, parceira, também se engajou na aventura. Os dois já conheciam os Andes, assim como Hugo, a diferença agora era o quarto integrante da viagem: o carro.
O médico foi atrás das documentações e equipamentos necessários, ajustes mecânicos para ligar o veículo e adesivo para colar na lateral do veículo. Na escrita: "Cruzando los Andes en un Twingo".
"Não tinha um plano B"
Antes de sair do Estado, a família passou por Iraí, no norte gaúcho, onde moram os pais de Sérgio.
— Eles nos convidaram para almoçar quando fomos lá. E a mãe perguntou: "E se der algum problema no carro, qual é o plano B?". Eu não tinha um plano B. Então eu acho que isso foi o grande desafio da história, ter saído sem um plano B — ressalta Sérgio.
Se desse algum problema, o que sabia é que eles abandonariam o carro e, depois, veriam como resolver o resgate.
Sérgio, a esposa e o filho entraram na Argentina por Bernardo de Irigoyen, passaram por Posadas, El Quebrachal, pela estrada Cuesta de Lipán, pelo vale Quebrada de Humahuaca e pelo deserto de Salinas Grandes.
Para entrar no Chile, cruzaram o Paso de Jama e rumaram a San Pedro de Atacama. Entre os passeios, estiveram no Valle de la Luna.
Na hora de voltar para casa, entraram no Rio Grande do Sul por Uruguaiana e, depois, chegaram a Porto Alegre.
Veja vídeos de drone gravados pela família
Perrengue na estrada
No caminho de volta ao Estado, um barulho de metal raspando no chão ligou o sinal de alerta dos três. O resultado: o cano do escapamento havia soltado. Após passarem por mais de uma oficina, um mecânico arrancou todo o escapamento e a surdina, dizendo não ter salvação. A consequência: uma viagem barulhenta de retorno.
O susto, porém, parece não ter comprometido a alegria de cumprir a missão.
— Quando cruzamos a fronteira (entre Chile e Argentina), quando voltamos, os guardinhas da fronteira conheceram o carro. Ficaram maravilhados: "Nossa, o carro está voltando". E eles tiravam foto com o carro, foi sensacional — conta Sérgio.
Para ele, a região de Piedras Rojas foi o ponto alto da viagem. Para o filho, a subida na região de Humahuaca, com a paisagem, as paradas que fizeram, as conversas e a música de trilho sonora marcaram na memória.
Hoje, o Twingo está de volta na garagem.
— Eu já enterrei o Twingo sentimentalmente, mas ele está lá comigo — diz Sérgio.
Como afirma Hugo, o carro guarda histórias e faz com que a família tenha receio de se desfazer.
Viajante nato
Para além de aposentar o Twingo durante a viagem no ano passado, Sérgio diz que tinha uma missão: passar para o filho o ensinamento de que é possível viajar sem grande planejamento e com baixo orçamento.
A lição parece ter funcionado, já que Hugo, recentemente, passeou sozinho por Buenos Aires, na Argentina, e já tem sonhos futuros.
De dica para quem quer viajar de carro, o jovem sugere:
— Não ir pensando só no destino final. Aproveita o momento, a conversa, as paradas. Muitas vezes, os imprevistos podem ser até a melhor parte da viagem.
Hugo lembra que, ainda antes de completar um ano, o pai já viajava com ele.
Sérgio já encheu dois passaportes e está iniciando o terceiro, em um período sabático. Junto à esposa, em junho deste ano, saiu de Porto Alegre, foi para Cuba, Panamá e, até o último contato com a reportagem, estava na Tailândia. Vietnã, Japão e China devem entrar na rota.
Longe de dar preferência a pontos turísticos, ele explica que, ao chegar nos lugares, tem como objetivo inicial conhecer alguém que os convide para uma janta.
— Sou um viajante independente para lugares de difícil acesso — resume.
















