A jornalista Mariana Fritsch, de GaúchaZH, escreveu este texto direto da Espanha, onde está em quarentena
O que motivou a minha vinda à Europa e as férias pela Espanha foi a Maratona de Barcelona. Eu correria a belíssima prova de 42 quilômetros no último domingo (15) e depois seguiria um roteiro de três semanas até Sevilha, no sul do país. Mas, como muitos turistas que planejaram as férias para este período do ano, e que mesmo com a crise causada pela pandemia do coronavírus optaram por embarcar com esperança de que a situação não fosse piorar, eu tive de mudar todos os meus planos já nos primeiros dias de viagem.
A maratona foi transferida para o segundo semestre do ano, assim como a maioria dos eventos esportivos em todo o mundo, e, três dias depois de eu ter chegado em Barcelona, o governo decretou quarentena para todo o país. As regras de ficar em casa começaram a valer na última segunda-feira (16), mas os pontos turísticos fecharam, as ruas esvaziaram e os mercados lotaram muito antes disso.
No sábado pela manhã, ao abrir a janela do apartamento que havia alugado em uma região turística de Barcelona, vi pouquíssimas pessoas passeando na calçada. Praticamente todas estavam com carrinhos de compras indo em direção ao supermercado ou estavam voltando com sacolas transbordando de comida e papel higiênico. Ainda era manhã e muitas prateleiras já estavam vazias. Algumas pessoas pareciam ter medo de encostar em outras e o sentimento claramente era de pânico. Nos parques e pontos turísticos a céu aberto, apenas turistas que ainda tentavam fazer valer a pena a viagem.
Este clima permaneceu durante todo o final de semana. Os estabelecimentos deixaram recados em suas portas e vitrines — "Voltaremos com mais força", escreveu uma unidade da rede de cafeterias Starbucks — , e apenas mercados e farmácias permaneceram abertos. Guardas municipais tomaram conta das ruas para orientar as pessoas a irem para a casa e lembrando que, a partir de segunda-feira, quem fosse visto caminhando pelas ruas, sem justificativa de trabalho ou força maior, estaria sujeito ao pagamento de uma multa. O valor seria de 300 euros, disse um dos quatro agentes que me pararam durante uma volta de bicicleta.
Os moradores de Barcelona reagiram às medidas do governo com uma salva de palmas de suas janelas. Organizado pela Internet e marcado para as 22h, o ato homenageou as equipes que trabalham dia e noite para conter o avanço da pandemia. Ouvi cerca de cinco minutos de aplausos vindo dos prédios no sábado e no domingo. Também vi vizinhos pendurando cartazes em suas sacadas com frases como "eu fico em casa".
Aqui em Portugal, para onde consegui um voo de última hora, a situação não está muito diferente. O governo ainda não decretou medidas tão severas quanto as da Itália e da Espanha, por exemplo, mas os moradores já tomam suas próprias medias de precaução. Poucos estabelecimentos estão abertos, os mercados limitaram o número de clientes ao mesmo tempo dentro do estabelecimento e restaurantes que ainda servem estão aconselhando pessoas a sentarem longe umas das outras, com uma mesa de distância entre elas.
Agora, a minha ideia é voltar para o Brasil de Lisboa, mas esbarro na dificuldade em contatar as companhias aéreas para remarcações de voos. Por conta da alta procura no contact center, as empresas aconselharam os viajantes a terem paciência, pois devem dar preferência ao atendimentos de turistas com voos marcados para os próximos dois dias.
O clima na Europa é de preocupação, é claro. Mas percebe-se também uma mistura de esperança e otimismo entre moradores e turistas por aqui. Como se o "ficar em casa" e o "ficar no hotel" unisse as pessoas como nunca antes.
Mapa do coronavírus
Acompanhe a evolução dos casos por meio da ferramenta criada pela Universidade Johns Hopkins:




